Cultura 風 · 04

Cinema e media lusófonos

Do cinema de autor português ao Cinema Novo brasileiro, das telenovelas às televisões públicas, o ecrã é um dos grandes veículos contemporâneos da língua portuguesa no mundo.

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O ecrã — de cinema, de televisão e, hoje, do telemóvel — é, a par da música, o meio através do qual a língua portuguesa mais circula no mundo contemporâneo. Uma telenovela brasileira chega a dezenas de países; um filme de autor português corre os grandes festivais; as televisões públicas levam o idioma à diáspora e aos espaços lusófonos de África e da Ásia. Falar de cinema e media lusófonos é, por isso, falar de uma das infraestruturas vivas da língua.

O cinema português

O cinema português é, antes de mais, um cinema de autor, mais reconhecido nos festivais internacionais do que nas bilheteiras. A sua figura tutelar é Manoel de Oliveira (1908–2015), que filmou desde o documentário mudo Douro, Faina Fluvial (1931) até quase à véspera da morte — uma das mais longas carreiras de toda a história do cinema. O seu Aniki-Bóbó (1942), rodado nas ruas do Porto, antecipa em anos o neorrealismo italiano.

Nos anos 1960, o Cinema Novo português — Paulo Rocha (Os Verdes Anos, 1963), Fernando Lopes (Belarmino, 1964) — renovou a linguagem fílmica. Dessa exigência nasceu uma tradição que se mantém viva em Pedro Costa, cronista da Lisboa periférica (No Quarto da Vanda; Cavalo Dinheiro), e em Miguel Gomes, cujo Tabu (2012) e Grand Tour (2024, prémio de realização em Cannes) levaram de novo o português aos palcos maiores.

O cinema brasileiro

No Brasil, o Cinema Novo dos anos 1960 foi um movimento de enorme alcance estético e político, sob o lema de Glauber Rocha de “uma câmara na mão e uma ideia na cabeça”. Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber, são os seus marcos.

Após o refluxo da ditadura, a chamada Retomada dos anos 1990 devolveu o cinema brasileiro à cena mundial: Central do Brasil (1998), de Walter Salles, venceu o Urso de Ouro em Berlim, e Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, teve projeção planetária. Em 2025, Ainda Estou Aqui, também de Salles, conquistou o Óscar de Melhor Filme Internacional — o primeiro da história do Brasil.

Cinemas africanos de língua portuguesa

A descolonização (1974–1975) fez nascer cinematografias próprias em África. Em Angola, Sambizanga (1972), de Sarah Maldoror, retratou a luta de libertação. Na Guiné-Bissau, Mortu Nega (1988), de Flora Gomes, foi a primeira longa de ficção do país. Em Moçambique, autores como Licínio Azevedo deram corpo a um cinema documental de forte raiz social. São cinemas de meios escassos mas de voz própria, em diálogo com os crioulos e as línguas nacionais.

A televisão e a telenovela

Se o cinema dá prestígio à língua, é a televisão que a difunde em massa. A telenovela brasileira, em particular, tornou-se um dos maiores produtos culturais de exportação do mundo lusófono, vendida a mais de cem países e dobrada ou legendada em dezenas de idiomas.

Gabriela (1975) · Escrava Isaura (1976) · Vila Faia (1982, a primeira telenovela portuguesa)

Marcos da telenovela: as produções brasileiras abriram o género; Portugal seguiu-se na década de 1980.

A chegada da novela Gabriela a Portugal, em 1977, teve um impacto linguístico duradouro: familiarizou o público europeu com o léxico, a entoação e as formas de tratamento brasileiras. Do lado institucional, a RTP (cujas emissões regulares começaram em 1957) opera canais como a RTP Internacional e a RTP África, que ligam Portugal à diáspora e aos países africanos de língua oficial portuguesa.

PaísEmissor públicoMarco
PortugalRTPEmissões regulares desde 1957
BrasilEBC / TV BrasilTelenovela como exportação cultural
AngolaTPATelevisão Pública de Angola
MoçambiqueTVMTelevisão de Moçambique

A língua no ecrã: legendar ou dobrar

Uma diferença cultural marcante separa os dois maiores mercados. Em Portugal, a norma é a legendagem: filmes e séries estrangeiros passam na língua original, hábito a que se costuma atribuir parte da familiaridade do público português com o inglês. O Brasil recorre muito mais à dobragem, sobretudo na televisão aberta.

Do grande ecrã ao streaming

As plataformas globais — e serviços lusófonos como a RTP Play ou a Globoplay — deslocaram o consumo para o sob demanda, e com ele cresceu a procura de conteúdo em português: o Brasil é hoje um dos maiores produtores de séries originais para esses serviços. O ecrã, em qualquer dos seus formatos, continua a ser um dos lugares onde a língua portuguesa, nas suas muitas variedades, mais se ouve e mais se renova.

Fontes

  1. Luís de Pina. História do Cinema Português . Publicações Europa-América (1986)
  2. Randal Johnson & Robert Stam. Cinema Novo: The First Decade . Associated University Presses (1982)
  3. Mariana Liz & Paulo de Medeiros (eds.). A Companion to Lusophone African Film . Boydell & Brewer (2023)