Literatura 詩 · 15
Literaturas africanas de língua portuguesa
As literaturas de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe — de Agostinho Neto e Craveirinha a Pepetela e Mia Couto — e a sua reinvenção do português.
ptAs literaturas africanas de língua portuguesa designam o conjunto das literaturas escritas nos cinco países africanos que adotaram o português como língua oficial — Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, os chamados PALOP. Não constituem um apêndice da literatura portuguesa, mas literaturas nacionais autónomas, nascidas da experiência colonial e da luta pela independência, e marcadas por uma relação criativa e por vezes tensa com a língua herdada do colonizador.
Uma origem ligada à descolonização
Embora haja precursores desde o século XIX, estas literaturas afirmam-se sobretudo a partir dos anos 1940 e 1950, no contexto do movimento da negritude e da emergência das consciências nacionais. Em Cabo Verde, a revista Claridade (1936) abriu caminho a uma escrita atenta à realidade insular. Em Angola e Moçambique, a poesia tornou-se o primeiro veículo de afirmação identitária, frequentemente sob censura ou na clandestinidade.
A independência dos cinco países, em 1974–1975, na sequência da Revolução dos Cravos, não pôs fim a este percurso: deu-lhe antes uma segunda vida, agora sem a urgência da denúncia anticolonial e mais livre para explorar a memória, a guerra civil e a invenção da língua.
Angola: Agostinho Neto e Pepetela
Agostinho Neto (1922–1979), médico, poeta e primeiro Presidente de Angola, é a figura tutelar da poesia angolana de combate. A sua obra maior, Sagrada Esperança (reunida e publicada em 1974), faz da palavra poética um instrumento de resistência e de esperança coletiva, numa voz sóbria e de forte carga simbólica.
A geração seguinte deu ao romance o seu maior cultor angolano: Pepetela, pseudónimo de Artur Pestana (n. 1941), antigo guerrilheiro do MPLA. Mayombe (1980), escrito durante a luta armada, retrata sem idealização a vida de um grupo de guerrilheiros na floresta; A Geração da Utopia (1992) percorre criticamente o arco que vai do sonho independentista à desilusão do pós-independência. Pepetela recebeu o Prémio Camões em 1997.
Moçambique: Craveirinha e Mia Couto
José Craveirinha (1922–2003) é considerado o pai da poesia moçambicana moderna. Em Xigubo (1964) e Karingana ua Karingana (1974), funde o português com ritmos, imagens e palavras das línguas bantas de Moçambique, sobretudo o ronga. Em 1991 tornou-se o primeiro escritor africano a receber o Prémio Camões.
Mia Couto (n. 1955), nome literário de António Emílio Leite Couto, é hoje o autor mais lido das literaturas africanas em português. Biólogo de formação, estreou-se no romance com Terra Sonâmbula (1992), passado na guerra civil moçambicana e eleito entre os melhores livros africanos do século XX. A sua marca é uma reinvenção lúdica da língua: cria neologismos por cruzamento de palavras e empresta ao português a sintaxe e a oralidade moçambicanas. Recebeu o Prémio Camões em 2013.
«brincriação», «inutensílio», «vagaroso» (de *vaga* + *vagaroso*), «desinventar»
Neologismos típicos de Mia Couto: palavras-valise que reaproveitam material do português para nomear o que a norma não nomeia.
A língua reinventada
O traço comum mais forte destas literaturas é o trabalho sobre a própria língua. O português é mantido como língua literária, mas atravessado pelas línguas africanas (quimbundo, umbundo, ronga, changana, crioulos) e pela oralidade — provérbios, contos, fórmulas de abertura como o moçambicano karingana ua karingana (“era uma vez”). O resultado não é português “incorreto”, mas uma norma literária própria, expressiva e deliberada.
Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé
As ilhas de Cabo Verde têm uma das tradições mais antigas e densas, do grupo da Claridade (Baltasar Lopes, Jorge Barbosa) ao romancista contemporâneo Germano Almeida, Prémio Camões em 2018. Na Guiné-Bissau, a poesia da independência tem em Amílcar Cabral uma referência política e cultural maior. São Tomé e Príncipe contou já com Francisco José Tenreiro, um dos primeiros poetas da negritude em língua portuguesa.
Um cânone vivo
Hoje, vozes como Paulina Chiziane — primeira romancista moçambicana e Prémio Camões em 2021 — e Ondjaki, em Angola, prolongam estas literaturas para o século XXI. Lidas, traduzidas e premiadas em todo o mundo lusófono, mostram que o português é também, de pleno direito, uma língua africana.
Fontes
- The Postcolonial Literature of Lusophone Africa . Hurst & Company (1996)
- Voices from an Empire: A History of Afro-Portuguese Literature . University of Minnesota Press (1975)
- Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa . Universidade Aberta (1995)