Variantes 異 · 06

Português moçambicano

A variedade do português em formação em Moçambique — língua oficial de um país maioritariamente bantófono, marcada pelo contacto com o emakhuwa, o xichangana e outras línguas locais.

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O português moçambicano (PM) é a variedade da língua que se fala e escreve em Moçambique, país onde o português é a única língua oficial desde a independência, em 1975, mas onde a maioria da população tem como língua materna uma das muitas línguas bantas do território. Desse contacto prolongado — entre uma norma de matriz europeia e um vasto substrato africano — está a nascer uma variedade própria, ainda em formação, cujos traços a investigação linguística vem descrevendo desde os anos 1980.

Uma língua oficial num país multilingue

À chegada da independência, o português era falado por uma pequena minoria, sobretudo urbana. O Estado pós-colonial adotou-o como língua de unidade nacional, de administração e de ensino — uma escolha pragmática, por ser a única língua comum a falantes de dezenas de línguas mutuamente ininteligíveis. Desde então, a sua difusão tem sido rápida.

Os censos mostram um português que é língua segunda da maioria e língua primeira de uma minoria crescente, sobretudo em Maputo (a antiga Lourenço Marques) e nas outras cidades. Falado por cerca de metade da população, mas materno para menos de um quinto, o português moçambicano vive assim numa situação de bilinguismo generalizado, em que quase todos os seus falantes dominam também, ou em primeiro lugar, uma língua banta.

O substrato banto

As línguas autóctones de Moçambique pertencem todas ao grupo banto da grande família Níger-Congo. As de maior número de falantes são o emakhuwa (a norte do Zambeze, a mais falada do país), o xichangana (do grupo tsonga, no sul, à volta de Maputo), o cisena e o elómuè, a que se juntam o cinyanja, o echuwabo, o xitswa, o cicopi e outras. São estas línguas que constituem o substrato — e o adstrato vivo — sobre o qual o português moçambicano se molda.

A sua influência faz-se sentir em todos os planos: no léxico, na fonética, na prosódia e, de forma mais subtil mas sistemática, na sintaxe.

Fonologia: vogais plenas e ritmo silábico

O traço auditivo mais imediato do português moçambicano é a sua vocalização plena. Ao contrário do português europeu, que reduz e centraliza fortemente as vogais átonas — a ponto de as suprimir —, o PM tende a pronunciar todas as vogais com timbre claro, à maneira dos sistemas vocálicos bantos, mais simples e estáveis.

telefone — em PE [tɯlɨˈfɔn(ɨ)], em PM aproxima-se de [teleˈfone]

As átonas mantêm-se abertas e audíveis, sem a redução vocálica que define o sotaque europeu.

Daí decorre um ritmo mais silábico (cada sílaba com duração semelhante), por oposição ao ritmo acentual e comprimido do português europeu. Frequentes são também a inserção de vogais de apoio para desfazer grupos consonânticos pouco habituais nas línguas bantas e uma articulação plena das vogais finais.

Léxico: emprestar das línguas locais

O vocabulário é o domínio em que a variedade mais visivelmente se afirma, por via de empréstimos das línguas bantas que designam realidades locais — sociais, agrícolas, culinárias — para as quais o português europeu não tinha palavra.

Alguns moçambicanismos de origem banta
PalavraOrigemSignificado
*machamba*banto/suaílicampo agrícola, terreno cultivado
*capulana*línguas locaispano colorido usado como vestuário e adorno
*xima*línguas locaispapa espessa de farinha de milho ou mandioca
*dumba-nengue*xichangana («confia nos pés»)mercado informal de rua
*machimbombo*africanismoautocarro
*curandeiro / nyanga*uso localpraticante de medicina tradicional

A par dos empréstimos, há criações e extensões semânticas próprias: palavras portuguesas que ganham sentidos novos ou que se formam por analogia, como desconseguir («não conseguir», por oposição regular a conseguir) ou o uso alargado de certos verbos. É um léxico que regista a vida moçambicana com recursos que o português trouxe e que as línguas locais reorientaram.

Sintaxe em formação

É na sintaxe que o português moçambicano revela as mudanças mais sistemáticas, muitas delas atribuíveis à transferência de estruturas bantas. Entre os traços recorrentes na fala e na escrita de muitos moçambicanos contam-se alterações na regência das preposições, mudanças na valência dos verbos e o objeto nulo (a omissão do pronome complemento).

«Vou na escola.» · «Já cheguei em casa.» · «Comprei o livro mas ainda não li Ø.»

Preposições e objetos seguem por vezes padrões distintos da norma europeia («vou à escola», «cheguei a casa», «não o li»).

Outro traço bem documentado é a tendência para usar o possessivo sem artigo (minha casa em vez de a minha casa) — natural num sistema banto que não conhece artigos definidos. Importa sublinhar que estes fenómenos não são erros isolados, mas regularidades de uma variedade que está a fixar a sua própria gramática.

Uma norma em formação

O português moçambicano é, por isso, descrito pelos linguistas como uma variedade em génese: distingue-se já do português europeu por um conjunto coerente de traços, mas ainda não dispõe de uma norma-padrão codificada e plenamente aceite, ao contrário do que sucede com o português brasileiro. A escola e a comunicação social continuam a orientar-se pela norma europeia, enquanto o uso quotidiano se afasta dela de modo cada vez mais nítido.

Fontes

  1. Perpétua Gonçalves. A Génese do Português de Moçambique . Imprensa Nacional-Casa da Moeda (2010)
  2. Gregório Firmino. A 'Questão Linguística' na África Pós-Colonial: o Caso do Português e das Línguas Autóctones em Moçambique . Promédia (2002)
  3. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)