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As variedades do português — visão geral

Como e porque varia o português, da norma à variedade, e o que significa ser uma língua pluricêntrica falada em quatro continentes.

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O português não é uma língua uniforme. Falado hoje por cerca de 260 milhões de pessoas em quatro continentes, distribui-se por estados, dialetos, registos e crioulos cujas diferenças vão da pronúncia à sintaxe. Esta secção descreve esse mosaico: as grandes variedades nacionais, os dialetos dentro de cada uma, e as línguas crioulas que do português nasceram. Este artigo serve de mapa.

Língua, norma e variedade

Convém distinguir três planos que o uso corrente confunde. A língua é o sistema partilhado — aquilo que permite a um lisboeta e a um paulistano entenderem-se. A variedade é uma forma concreta desse sistema, associada a um lugar, a um grupo ou a um momento: o português de Coimbra, o de Luanda, o do século XVI. A norma é a variedade que uma comunidade elege como modelo de prestígio e ensina na escola.

Nenhuma variedade é, em si, mais “correta” do que outra: a norma é uma escolha social e histórica, não um juízo sobre a qualidade da fala. O que distinguimos nesta secção são variedades reais; o que as gramáticas codificam são normas.

Por que varia uma língua

A variação tem causas regulares. No espaço, comunidades separadas inovam de modos diferentes — é a variação diatópica, a dos dialetos. No tempo, toda a língua muda de geração em geração (variação diacrónica). Há ainda a variação diastrática, ligada ao grupo social, e a diafásica, ligada à situação: ninguém fala do mesmo modo num tribunal e num café.

No caso do português, a estas forças soma-se a história da expansão: levada a partir do século XV para a África, a Ásia e a América, a língua enraizou-se em contextos de contacto com substratos muito diversos, do tupi ao quimbundo. Daí resultaram não só sotaques, mas reorganizações gramaticais e, no limite, línguas novas — os crioulos.

Uma língua pluricêntrica

O português é hoje uma língua pluricêntrica: possui mais de um centro de norma. Convivem, com legitimidade própria, pelo menos duas grandes normas-padrão — a europeia e a brasileira —, e perfila-se a consolidação de normas próprias em Angola e Moçambique. Isto distingue o português de línguas monocêntricas e tem consequências práticas: dicionários, gramáticas e exames diferem consoante o centro de referência.

O Acordo Ortográfico de 1990, em vigor nos vários países, unificou parte da grafia — mas a ortografia comum não apaga as diferenças de pronúncia, léxico e gramática, que permanecem e definem cada variedade.

O mapa desta secção

Os artigos que se seguem organizam-se em três níveis:

  • Variedades nacionais e continentais — o português europeu, o português brasileiro e as suas diferenças, o português angolano e o moçambicano.
  • Dialetos e falares de Portugal — a variação interna ao território europeu, incluindo os dialetos de Portugal, os falares insulares e casos singulares como o mirandês (língua própria, não dialeto) e o barranquenho.
  • Crioulos de base portuguesa — os crioulos de Cabo Verde, da Guiné, de São Tomé e da Ásia: línguas autónomas geradas pelo contacto, e não variedades do português.

Como ler estas variedades

Ao longo da secção, o português europeu é a voz da casa; as outras variedades surgem por contraste, assinaladas em caixa própria. O objetivo não é hierarquizar, mas descrever com rigor: mostrar o que é comum a toda a língua e o que pertence a cada uma das suas formas. Variar é, afinal, o estado natural de qualquer língua viva — e poucas variam de modo tão rico como o português.

Fontes

  1. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  2. Maria Helena Mira Mateus. O Português Pluricêntrico . Colibri (2008)
  3. Maiden, Smith & Ledgeway (eds.). The Cambridge History of the Romance Languages . Cambridge University Press (2013)