Variantes 異 · 03

Português brasileiro

A variedade falada e escrita no Brasil — a mais numerosa do mundo lusófono —, com norma-padrão própria e traços fonéticos, gramaticais e lexicais que a distinguem do português europeu.

pt

O português brasileiro (PB) é a variedade da língua falada e escrita no Brasil, o país mais populoso da lusofonia. Com mais de duzentos milhões de falantes, é, de longe, a variedade demograficamente dominante do português, e a que mais visibilidade internacional tem alcançado através da música, da televisão e, mais recentemente, da internet. Descende do português levado para a América a partir do século XVI, mas a sua norma-padrão moderna constitui-se como um conjunto coerente e autónomo, distinto da norma europeia em vários planos.

Uma norma própria

Falar de “português brasileiro” no singular é uma simplificação útil: o Brasil é linguisticamente diverso, e nenhuma das suas regiões impõe uma pronúncia única. O que existe é uma norma culta — a norma-padrão da escrita formal e da fala escolarizada — historicamente influenciada pelo prestígio dos grandes centros urbanos do Sudeste, sobretudo o Rio de Janeiro e São Paulo. Essa norma é codificada em gramáticas, dicionários e no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras (fundada em 1897).

A distância entre essa norma escrita e a língua efetivamente falada no quotidiano é, no Brasil, um tema central da linguística e da escola: a fala coloquial popular apresenta soluções (concordância, colocação dos pronomes, sistema de tratamento) que a tradição gramatical normativa só lentamente foi acolhendo.

Como soa

A fonética é o que mais imediatamente separa o ouvido brasileiro do europeu. Em contraste com o português europeu, marcado por uma forte redução das vogais átonas, o PB tende a pronunciar as vogais de forma mais plena e aberta, o que lhe dá o ritmo mais silábico que os estrangeiros costumam achar mais fácil de seguir.

Entre os traços mais salientes da maioria das variedades brasileiras contam-se:

Alguns traços consonânticos típicos do PB
FenómenoExemploRealização
Palatalização de t, d antes de [i]*dente*[ˈdẽtʃi]
-l final vocalizado em [w]*Brasil*[bɾaˈziw]
-e, -o átonos finais alçados*leite*[ˈlejtʃi]
-s final geralmente [s], não [ʃ]*os livros*[us ˈlivɾus]

A palatalização de t e d diante de [i] — que faz tia soar [ˈtʃiɐ] e dia soar [ˈdʒiɐ] — é talvez a marca sonora mais reconhecível do PB, ainda que não seja universal no país. Já a vocalização do l em fim de sílaba distingue mau e mal, ambos próximos de [maw] .

Gramática: o que muda

No plano gramatical, o PB afastou-se da norma europeia em pontos estruturais. O sistema de tratamento reorganizou-se em torno de você como pronome corrente de segunda pessoa, conjugado com formas de terceira; o tu europeu subsiste em algumas regiões (Sul, Nordeste), muitas vezes sem a concordância verbal própria. A forma a gente concorre fortemente com nós.

A colocação dos pronomes átonos prefere a próclise, mesmo em início de frase, onde o europeu usaria a ênclise:

Te amo. / Me dá um livro.

«Amo-te / Dá-me um livro» — a próclise inicial é a norma corrente no Brasil.

O gerúndio mantém-se como construção progressiva por excelência, e há uma preferência por preposições e regências distintas das europeias.

Vocabulário

O léxico básico é em larguíssima medida comum, mas a vida quotidiana acumulou divergências bem conhecidas, em parte por empréstimo a línguas indígenas (tupinismos como abacaxi, mandioca) e africanas (moleque, caçula), em parte por escolhas internas e por anglicismos.

Português europeuPortuguês brasileiro
autocarroônibus
comboiotrem
pequeno-almoçocafé da manhã
casa de banhobanheiro
telemóvelcelular
frigoríficogeladeira

Ortografia partilhada, nem sempre idêntica

O Acordo Ortográfico de 1990 aproximou consideravelmente as duas grafias e eliminou divergências antigas — no Brasil, suprimiu, por exemplo, o trema (linguiça, antes lingüiça). Subsistem, porém, diferenças sistemáticas onde a pronúncia diverge: o europeu escreve algumas consoantes que articula e o brasileiro não as escreve por não as pronunciar, como em receção (PE) frente a recepção (PB).

Uma variedade de pleno direito

O português brasileiro não é uma forma “desviada” do europeu, nem este o é daquele: são dois desenvolvimentos paralelos de uma mesma língua, cada um com a sua norma culta, a sua literatura e a sua tradição gramatical. A consciência dessa autonomia — e o debate, recorrente, sobre se se deve falar de “português do Brasil” ou de uma língua em vias de individualização — acompanha a cultura brasileira desde o Romantismo e o Modernismo.

Fontes

  1. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  2. Ataliba T. de Castilho. Nova Gramática do Português Brasileiro . Contexto (2010)
  3. Volker Noll. O Português Brasileiro: formação e contrastes . Globo (2008)