Variantes 異 · 04

Diferenças entre o português europeu e o brasileiro

O contraste maior entre as duas grandes normas do português — som, gramática, vocabulário e ortografia — visto a partir da norma europeia.

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O português europeu (PE) e o português brasileiro (PB) são as duas normas mais faladas e mais descritas de uma língua pluricêntrica. Partilham a mesma gramática nuclear, o mesmo léxico patrimonial e uma ortografia hoje largamente unificada — e, no entanto, distinguem-se em quase todos os planos: na pronúncia, na sintaxe corrente, no vocabulário do dia a dia e nalguns pontos de grafia. As diferenças não impedem a intercompreensão, mas são suficientes para que um ouvido treinado identifique a origem de um falante em poucas sílabas. Este artigo traça o contraste maior, plano a plano, a partir da norma europeia.

A raiz comum e a divergência

Ambas as variedades descendem do português levado ao Brasil a partir de 1500. Durante três séculos, a língua transplantada evoluiu em relativa autonomia, em contacto com línguas indígenas (sobretudo o tupi) e africanas, e sob a ação niveladora de uma sociedade colonial multilingue. A divergência mais decisiva, porém, é posterior e europeia: foi o PE que, ao longo dos séculos XVIII e XIX, mudou mais depressa, sobretudo na fonologia, reduzindo fortemente as vogais átonas. O Brasil conservou, em vários pontos, uma pronúncia mais próxima da do português clássico. Por isso muitas diferenças não se explicam por uma “inovação brasileira”, mas por uma inovação europeia que o Brasil não acompanhou.

Fonologia: o contraste mais audível

A diferença mais imediata está nas vogais átonas. O PE reduz e ensurdece as vogais não acentuadas a ponto de muitas quase desaparecerem; o PB tende a mantê-las plenas e timbradas. A palavra pelo ilustra-o bem, tal como o comportamento do e final e das vogais pretónicas.

Vogais átonas: a mesma palavra nas duas normas
PalavraPEPBNota
*menino*[mɨˈninu][meˈninu]o *e* pretónico reduz-se a [ɨ] em PE
*pegar*[pɨˈɣaɾ][peˈɡa(ʁ)]o PE pode quase elidir a vogal
*dente*[ˈdẽt(ɨ)][ˈdẽtʃi]*-e* final: [ɨ] mudo em PE, [i] em PB
*leite*[ˈlɐjt(ɨ)][ˈlejtʃi]o *t* antes de [i] palataliza-se em PB

Daí decorrem três traços muito característicos do PB ausentes do PE padrão: a palatalização de /t/ e /d/ diante de [i], que faz tia soar [ˈtʃiɐ] e dia [ˈdʒiɐ] ; a vocalização do /l/ em final de sílaba, que torna Brasil num [bɾaˈziw] e mal quase igual a mau; e a realização vocálica das vogais átonas, que confere ao PB o seu ritmo mais silábico, por oposição ao ritmo acentual e “comprimido” do PE.

O *r* forte de *carro* e *rato* soa [ʁ] ou [χ] no Rio, [h] em muitas regiões do Brasil, e [ʁ] uvular ou [r] vibrante em Portugal.

O rótico forte é uma das variáveis mais salientes — e mais internamente diversa — de cada norma.

Note-se ainda o tratamento do /s/ em final de sílaba: chiado ([ʃ], [ʒ]) no PE e no Rio de Janeiro (os pastos [uʒ ˈpaʃtuʃ] ), mas sibilante ([s], [z]) em São Paulo e em grande parte do Brasil.

Gramática: as escolhas do dia a dia

As gramáticas normativas das duas variedades coincidem em quase tudo; é no uso corrente que a distância se abre.

Tratamento e pronomes

O PE usa tu (informal) e você / o senhor (formal ou distante), com as respetivas formas verbais de segunda pessoa. O PB generalizou você como pronome informal neutro, conjugado na terceira pessoa, e relegou tu para certas regiões (Sul, Nordeste), onde é frequente com verbo na terceira pessoa (tu vai). Os clíticos divergem de modo notório:

PE: «Dá-me o livro.» / «Vi-o ontem.» — PB coloquial: «Me dá o livro.» / «Vi ele ontem.»

O PE prefere a ênclise e o clítice acusativo; o PB inicia a frase com o clítico e usa o pronome reto como objeto.

A colocação dos clíticos é talvez a divergência sintática mais sistemática: o PE evita o clítico em início de frase e recorre à ênclise (chamo-me) ou à mesóclise (chamar-me-ei); o PB prefere a próclise generalizada (me chamo) e praticamente não usa a mesóclise.

Gerúndio e infinitivo

Para exprimir uma ação em curso, o PE usa estar a + infinitivo; o PB usa o gerúndio.

Outras diferenças correntes: o PB tende a substituir o clítico reflexo e certas preposições (chegar em casa por chegar a casa), e usa com frequência o artigo definido de forma distinta diante de nomes próprios e possessivos.

Léxico: palavras diferentes para coisas iguais

Boa parte do vocabulário é comum, mas o quotidiano está semeado de pares divergentes. Alguns são simples preferências; outros são falsos amigos internos, em que a mesma palavra muda de sentido.

Vocabulário do dia a dia
Português europeuPortuguês brasileiroSignificado
*comboio**trem*transporte ferroviário
*autocarro**ônibus*transporte urbano de passageiros
*telemóvel**celular*telefone móvel
*pequeno-almoço**café da manhã*primeira refeição
*casa de banho**banheiro*instalação sanitária
*frigorífico**geladeira*aparelho de refrigeração
*fixe*, *giro**legal*, *bacana*agradável, bom

O caso clássico de falso amigo interno é bicha: em PE, uma fila de pessoas; em PB, um termo (hoje pejorativo) para homossexual — donde os mal-entendidos. Também rapariga (jovem mulher, neutro em PE) carrega conotações negativas em parte do Brasil. O léxico do PB recebeu, além disso, um forte contributo tupi (abacaxi, mingau, peruca) e africano (moleque, caçula, samba) que não tem paralelo no PE.

Ortografia: o que o Acordo unificou — e o que não

O Acordo Ortográfico de 1990, em vigor em Portugal desde a década seguinte, aproximou substancialmente as duas grafias, sobretudo ao eliminar as consoantes mudas que o PE conservava (acçãoação, óptimoótimo, directordiretor). Subsistem, porém, diferenças legítimas, porque o Acordo reconhece que a grafia segue a pronúncia de cada norma.

Diferenças de grafia que o Acordo mantém
Português europeuPortuguês brasileiroRazão
*facto**fato*o *c* pronuncia-se em PE, não em PB
*receção**recepção*o *p* é mudo em PE, articulado em PB
*amónia**amônia*vogal tónica aberta (PE) vs. fechada (PB)
*António**Antônio*timbre da tónica: [ɔ] em PE, [o] fechado em PB
*húmido**úmido*presença/ausência do *h* inicial

A diferença gráfica mais visível é a do acento circunflexo: o PB escreve ô e ê onde a vogal tónica é fechada (Antônio, gênero, econômico), enquanto o PE escreve ó e é refletindo a sua vogal aberta (António, género, económico). Não é, pois, um erro de um lado ou do outro: cada grafia é fiel à fonologia que serve.

Duas normas, uma língua

As diferenças entre PE e PB são reais e sistemáticas, mas operam sobre uma base comum tão vasta que a unidade da língua nunca esteve em causa. Falar de superioridade de uma norma sobre a outra não tem fundamento linguístico: ambas são padrões cultos, plenamente descritos e codificados, de um mesmo idioma pluricêntrico. Conhecer o contraste — e saber de que lado de cada diferença se está — é parte essencial do domínio do português contemporâneo.

Fontes

  1. Maria Helena Mateus & Ernesto d'Andrade. The Phonology of Portuguese . Oxford University Press (2000)
  2. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  3. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  4. John Whitlam. A Reference Grammar of Modern Portuguese . Routledge (2017)