Ortografia 字 · 11
Diferenças de grafia entre Portugal e o Brasil
As divergências de escrita que persistem entre a norma europeia e a brasileira mesmo depois do Acordo Ortográfico de 1990 — acentos, consoantes e duplas grafias.
ptA ortografia do português nunca foi totalmente unificada entre Portugal e o Brasil. O Acordo Ortográfico de 1990, hoje em vigor em ambos os países, reduziu de modo substancial as divergências herdadas das convenções anteriores, mas não as eliminou. Onde a pronúncia difere de forma sistemática entre as duas normas, o próprio Acordo admite duas grafias legítimas — uma para cada país. Conhecer estes pontos é essencial para escrever com correção em qualquer das variedades.
Um acordo que aproximou, sem unificar
Antes de 1990, a escrita europeia conservava numerosas consoantes que o Brasil já abandonara — acção, director, óptimo, baptismo —, e a divergência atingia, segundo as estimativas correntes, cerca de 1,6 % do vocabulário em Portugal e 0,5 % no Brasil. O princípio do Acordo é simples: a grafia segue a pronúncia. Suprimem-se as consoantes que não se articulam; mantêm-se as que se ouvem. Como em muitos casos a mesma consoante é pronunciada num país e silenciosa no outro, o resultado não é uma grafia única, mas sim grafias paralelas, cada uma fiel à sua norma.
Acentos que seguem a pronúncia
A diferença mais visível está na acentuação gráfica. Diante de consoante nasal (m, n), a vogal tónica é aberta em Portugal — [ɛ], [ɔ] — e fechada no Brasil — [e], [o]. O acento reflete essa distinção: acento agudo na norma europeia, circunflexo na brasileira.
| Portugal | Brasil | Vogal tónica |
|---|---|---|
| *académico* | *acadêmico* | [ɛ] / [e] |
| *fenómeno* | *fenômeno* | [ɛ] / [e] |
| *António* | *Antônio* | [ɔ] / [o] |
| *cómodo* | *cômodo* | [ɔ] / [o] |
| *tónico* | *tônico* | [ɔ] / [o] |
O mesmo contraste surge nas palavras agudas terminadas em -é ou -ê: Portugal escreve bebé, puré, croché, matiné; o Brasil escreve bebê, purê, crochê, matinê. Em ambos os casos, a grafia é apenas a tradução fiel de uma pronúncia diferente, e não um erro de um lado ou do outro.
Consoantes que se ouvem (ou não)
A segunda fonte de divergência são os antigos grupos consonânticos. Quando a consoante interior é pronunciada apenas numa das normas, cada país escreve à sua maneira. É o caso clássico de facto (Portugal articula o c) e fato (o Brasil não), mas a lista é mais longa.
| Portugal | Brasil | Significado |
|---|---|---|
| facto | fato | facto, acontecimento |
| contacto | contato | contacto |
| receção | recepção | receção |
| aspeto | aspecto | aspeto |
| perspetiva | perspectiva | perspetiva |
| infeção | infecção | infeção |
Repare-se que a divergência não tem um sentido único: em facto/fato é Portugal que conserva a consoante, ao passo que em receção/recepção é o Brasil que a mantém. Tudo depende de qual das duas normas a faz soar.
Em Portugal: «Foi um facto curioso, mas sem grande interesse.»
No Brasil: «Foi um fato curioso, mas sem grande interesse.»
A mesma frase, escrita conforme a pronúncia de cada país. Note-se que, em Portugal, fato significa também «traje, vestuário».
O que o Acordo unificou
Vale a pena sublinhar o que deixou de divergir. As consoantes mudas que só a escrita europeia conservava foram suprimidas, alinhando-a com a brasileira: acção passou a ação, director a diretor, óptimo a ótimo, baptismo a batismo, Egipto a Egito. Nestes casos, deixou de haver duas grafias — passou a haver uma só, comum aos dois países.
Gerir as duas grafias na prática
As duplas grafias remanescentes — António/Antônio, facto/fato — não são variantes livres: cada uma é a forma correta dentro da sua norma e incorreta na outra. Um texto redigido em português europeu deve seguir coerentemente a grafia de Portugal; um texto brasileiro, a do Brasil. Os vocabulários ortográficos oficiais de cada país, bem como o Vocabulário Ortográfico Comum da CPLP, registam ambas as formas e indicam a sua distribuição geográfica. A unificação total da escrita não era o objetivo do Acordo, nem é, provavelmente, alcançável: a ortografia pode aproximar as normas, mas não apagar as diferenças de pronúncia que a sustentam.
Fontes
- Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa . Diário da República (1991)
- História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
- Moderna Gramática Portuguesa . Nova Fronteira (2009)
- Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)