Ortografia 字 · 05

Acentuação gráfica

O agudo, o circunflexo, o grave e o til — o que cada um assinala e as regras que determinam quais palavras se acentuam, segundo o Acordo Ortográfico de 1990.

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Os acentos gráficos — ou sinais diacríticos — são marcas colocadas sobre certas vogais para indicar como a palavra se lê: onde recai a sílaba forte e, em alguns casos, qual é o timbre dessa vogal. A acentuação portuguesa não é decorativa nem arbitrária: obedece a um pequeno conjunto de regras que partem da posição do acento tónico e da terminação da palavra.

Acento tónico e acento gráfico

Convém distinguir duas coisas. O acento tónico (ou prosódico) é a maior intensidade com que se pronuncia uma das sílabas de cada palavra — existe sempre, mesmo quando nada se escreve: mesa, animal, comboio. O acento gráfico é o sinal que, quando as regras o exigem, torna esse acento visível na escrita ou fixa o timbre da vogal. A maioria das palavras portuguesas não leva qualquer sinal; acentua-se apenas o que as regras marcam como excecional.

Os quatro sinais

O português europeu emprega quatro acentos, cada um com função própria.

SinalVogaisFunção
Agudo ´á, é, í, ó, úmarca a sílaba tónica; em a, e, o indica também timbre aberto
Circunflexo ^â, ê, ômarca a sílaba tónica com timbre fechado
Grave `àassinala a crase (contração da preposição a com o artigo a); não marca tonicidade
Til ~ã, õindica nasalidade, podendo recair em sílaba tónica ou átona

O contraste de timbre é audível e distintivo: avó [ɐˈvɔ] (a mãe do pai ou da mãe) opõe-se a avô [ɐˈvo] . O grave, por seu lado, não tem valor tónico: serve apenas a crase.

Vou à praia. Refiro-me àquele livro, não àquilo.

O acento grave marca a contração da preposição a com o artigo a (à) ou com os demonstrativos aquele, aquilo (àquele, àquilo).

As regras de acentuação

A regra geral organiza-se segundo a posição da sílaba tónica. As palavras classificam-se em oxítonas (tónica na última sílaba), paroxítonas (na penúltima) e proparoxítonas (na antepenúltima). Acentuam-se as terminações menos esperadas para cada classe.

ClasseTónica na…Acentuam-se as terminadas emExemplos
Oxítonasúltima-a(s), -e(s), -o(s), -em/-enssofá, café, avó, também, parabéns
Paroxítonaspenúltima-l, -r, -x, -n, -ps, -ã(s), -ão(s), -i(s), -u(s), -um(s), -on(s), ditongofácil, açúcar, tórax, hífen, bíceps, órfão, júri, vírus, álbum, jóquei
Proparoxítonasantepenúltimatodaslâmpada, médico, sílaba, rápido

A lógica é económica: as paroxítonas são o padrão maioritário do português, pelo que só se acentuam quando terminam de forma atípica; já as proparoxítonas, raras e sempre salientes, levam todas acento.

Os monossílabos tónicos terminados em -a, -e, -o (com ou sem -s) também se acentuam: , , , vês, pôs.

Hiatos e ditongos

As vogais i e u tónicas que formam hiato (sozinhas na sílaba, eventualmente seguidas de -s) levam acento agudo: saída, país, baú, juízes. O sinal desaparece, porém, antes de nh (rainha, moinho) e, por força do Acordo de 1990, quando a vogal vem depois de um ditongo em palavra paroxítona: feiura, baiuca.

Os ditongos abertos éi, éu, ói mantêm o acento nas oxítonas — herói, céu, papéis, chapéu —, mas o Acordo de 1990 eliminou-o nas paroxítonas: escreve-se hoje ideia, assembleia, heroico, jiboia. O mesmo Acordo suprimiu o circunflexo nas formas verbais em -eem e no hiato -oo: leem, veem, deem, voo, enjoo.

Os acentos diferenciais

Outrora numerosos, os acentos que distinguiam pares homógrafos foram quase todos abolidos pelo Acordo de 1990. Deixaram de se escrever em pelo (antes pêlo), para (antes pára, do verbo parar), polo, pera. Subsistem apenas dois casos obrigatórios — pôr (verbo) frente a por (preposição), e pôde (pretérito) frente a pode (presente) — e um facultativo, fôrma (recipiente) ao lado de forma, usado quando a clareza o aconselha.

Uma só ortografia, dois timbres

Dominar a acentuação é, no fundo, saber ouvir a palavra: identificar a sílaba forte e o timbre da vogal, e aplicar-lhes a regra correspondente. O til, por marcar nasalidade e não tonicidade, segue uma lógica à parte, tratada em til e nasalidade.

Fontes

  1. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  2. Evanildo Bechara. Moderna Gramática Portuguesa . Nova Fronteira (2009)
  3. Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990) . Imprensa Nacional-Casa da Moeda (1990)