Ortografia 字 · 06

O til e a nasalidade

O til (~) não é um acento de intensidade, mas o sinal gráfico da nasalidade. Como nasceu, onde ocorre hoje — em ã e õ — e como o português marca as vogais e os ditongos nasais.

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O til (~) é, de todos os sinais gráficos do português, o mais característico da língua. Ao contrário do acento agudo ou do circunflexo, não assinala a sílaba tónica nem a abertura de uma vogal: assinala a nasalidade. Por isso é descrito com rigor não como um acento, mas como um sinal de nasalidade — a marca de que a vogal sobre que assenta se articula com passagem de ar pelas fossas nasais.

De onde vem o til

O til é uma herança da escrita medieval. Quando os copistas precisavam de abreviar uma consoante nasal — m ou n — traçavam por cima da letra anterior um pequeno sinal sobreposto, o titulus latino, donde vem a própria palavra til. Esse traço representava o n (ou m) que se omitia: escrevia-se por non, bõa por bona. Quando, na evolução do galego-português, as consoantes nasais intervocálicas latinas caíram, a vogal que ficou conservou a nasalidade — e o til, de simples abreviatura, passou a registá-la.

lat. LŪNA → lũa (> lua) · lat. BONUM → bõo (> bom) · lat. MANUM → mão

A queda do -n- intervocálico deixa uma vogal nasal; o til, que abreviava esse -n-, fixa-se como sinal dessa nasalidade.

Na escrita antiga o til podia surgir sobre qualquer vogal — ĩ, ũ, —, e muitas dessas grafias desnasalaram-se ou simplificaram-se com o tempo (lũa deu lua, bõo deu bom). A ortografia moderna fixou o til apenas em duas vogais.

Onde o til ocorre hoje

No português atual, o til escreve-se exclusivamente sobre a e o, dando as letras ã e õ. A vogal ã aparece isolada em fim de palavra ou de sílaba (, irmã, manhã, maçã); a vogal õ nunca surge sozinha — ocorre apenas no ditongo õe. Sobre as restantes vogais o til não tem hoje qualquer emprego.

O til sobre vogal simples
GrafiaExemploIPASignificado
*ã**lã*[lɐ̃]lã (de ovelha)
*ã**irmã*[iɾˈmɐ̃]irmã
*ã**manhã*[mɐˈɲɐ̃]manhã

Duas maneiras de marcar a nasalidade

O til não é o único recurso de que a ortografia dispõe para representar uma vogal nasal. Há, na verdade, dois sistemas que convivem:

  • o til, sobre a e o, sobretudo em fim de palavra: , pão, põe;
  • as consoantes m e n depois da vogal, dentro da mesma sílaba, quando a vogal nasal é seguida de outro som: campo, canto, fim, bom, som, untar.

A repartição entre m e n obedece a uma regra simples e antiga: escreve-se m antes de p e b (campo, tempo, embora), e n antes das restantes consoantes (canto, onda, infinito). Em ambos os casos a consoante não se pronuncia como tal: vale apenas como índice gráfico de que a vogal anterior é nasal.

campo, tempo, embora — *m* antes de *p*, *b* · canto, onda, lindo — *n* antes das outras consoantes

A nasalidade interior à palavra escreve-se com m ou n; o til reserva-se sobretudo para a posição final.

Os ditongos nasais

É nos ditongos nasais que o til mais se destaca, pois é ele que distingue, na escrita, uma vogal nasal de um verdadeiro ditongo. O português tem três ditongos nasais grafados com til — ão, ãe e õe — a que se junta o caso de ui em muito, nasal mas não assinalado.

Ditongos nasais com til
GrafiaExemploIPAPlural típico
*ão**pão*, *mão*, *coração*[ɐ̃w̃]*-ãos*, *-ães* ou *-ões*
*ãe**mãe*, *cães*, *pães*[ɐ̃j̃]*-ães*
*õe**põe*, *lições*, *leões*[õj̃]*-ões*

O ditongo ão é particularmente produtivo e tem três plurais possíveis, herdados de terminações latinas distintas: mãomãos, pãopães, leãoleões. A palavra pão pronuncia-se [pɐ̃w̃] — uma vogal central nasal seguida de um glide também nasalizado.

O til não é um acento de intensidade

Convém insistir: o til marca nasalidade, não tonicidade. Uma palavra pode ter til numa sílaba e o acento tónico noutra, exigindo então um acento gráfico adicional. É o que acontece em órgão [ˈɔɾɣɐ̃w̃] , órfão, bênção ou sótão: o acento agudo ou circunflexo indica a sílaba tónica, enquanto o til apenas nasaliza a sílaba final átona.

Daqui resulta uma distinção ortográfica preciosa na conjugação verbal. A terminação -ão, com til, marca a forma tónica do futuro (3.ª pessoa do plural): cantarão, farão, serão. A terminação -am, sem til, marca as formas átonas do pretérito e de outros tempos: cantaram, cantavam, fizeram. Ambas se leem com o mesmo ditongo final [ɐ̃w̃] , mas só o til (e a posição do acento) revela que numa a última sílaba é tónica e na outra não.

Amanhã eles cantarão. — Ontem eles cantaram.

-ão (tónico, futuro) vs. -am (átono, pretérito): mesma pronúncia do ditongo final, ortografia que distingue o tempo e o acento.

Em síntese

O til condensa, num único traço, mil anos de história da língua: começou por ser a abreviatura de um n perdido e tornou-se o emblema gráfico da nasalidade portuguesa. Hoje vive sobre a e o, divide com m e n a tarefa de assinalar as vogais nasais, e desenha os ditongos — ão, ãe, õe — que dão ao português a sua sonoridade inconfundível.

Fontes

  1. Francisco Rebelo Gonçalves. Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa . Atlântida (1947)
  2. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  3. Maria Helena Mira Mateus et al.. Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)
  4. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)