Ortografia 字 · 07
A cedilha e os dígrafos
O cê-cedilhado (ç) e os dígrafos — nh, lh, ch, rr, ss, gu, qu — duas letras para um só som: regras de uso, origem histórica e divisão silábica.
ptA ortografia portuguesa não esgota os seus sons nas vinte e seis letras do alfabeto. Para representar fonemas que nenhuma letra isolada cobre, recorre a dois expedientes herdados da Idade Média: um sinal acrescentado a uma letra — a cedilha — e a combinação de duas letras num só valor — o dígrafo. Ambos são peças centrais do sistema gráfico do português.
A cedilha
A cedilha é o pequeno sinal em forma de gancho que se coloca sob a letra c para formar o cê-cedilhado (ç). O seu nome di-lo tudo: cedilha vem do castelhano cedilla, diminutivo de ceda — o antigo nome da letra z. Nas escritas visigóticas da Península, copistas medievais habituaram-se a desenhar um pequeno z cursivo por baixo do c; daí o ç ser, literalmente, um «cê com um zezinho». Representava então a africada /ts/, que mais tarde se simplificou no /s/ que hoje lhe corresponde.
O ç tem um único valor — [s] — e um uso rigorosamente regulado: aparece apenas antes de a, o e u. Antes de e e i, o mesmo som /s/ escreve-se com c simples (cedo, cinza), pelo que a cedilha aí seria redundante e é proibida.
moça · braço · açúcar · começar — mas: cedo, cidade
O ç surge antes de a, o, u; antes de e, i o som /s/ escreve-se c.
Daí as alternâncias regulares nas famílias de palavras, em que o ç e o c se revezam consoante a vogal seguinte:
doce → doçura · torcer → torço · vencer → venço · faces → faço
Quando a vogal seguinte muda de e/i para a/o/u, o c passa a ç.
A cedilha nunca ocorre em início nem em fim de palavra: não há palavras portuguesas começadas ou terminadas em ç (as raras exceções, como o topónimo brasileiro Iguaçu, são nomes próprios de origem tupi).
Os dígrafos
Um dígrafo é um grupo de duas letras que representa um único fonema. É crucial não o confundir com uma letra: os dígrafos não fazem parte do alfabeto e não têm nome próprio nem entrada autónoma no dicionário. O português distingue dígrafos consonânticos, que valem por uma consoante, e dígrafos vocálicos, em que uma vogal seguida de m ou n nota uma vogal nasal (campo, tempo, fim), matéria tratada a propósito do til e da nasalidade.
| Dígrafo | Som | Exemplo | Significado |
|---|---|---|---|
| ch | [ʃ] | *chave* | chave |
| lh | [ʎ] | *malha* | malha |
| nh | [ɲ] | *vinho* | vinho |
| rr | [ʁ] | *carro* | carro |
| ss | [s] | *massa* | massa |
| gu | [ɡ] | *guerra* | guerra |
| qu | [k] | *quente* | quente |
Os dígrafos rr e ss existem porque, entre vogais, um único r ou s tem outro valor: caro [ˈkaɾu] opõe-se a carro [ˈkaʁu] , e casa [ˈkazɐ] (com /z/) opõe-se a massa [ˈmasɐ] (com /s/). Duplicar a consoante é o modo de manter o som «forte» em posição intervocálica. Nos dígrafos gu e qu, por seu lado, o u é apenas um sinal gráfico que garante o som duro [ɡ] ou [k] antes de e e i (guerra, quilo), sem se pronunciar — ao contrário de água ou quadro, onde o u soa.
Há ainda agrupamentos como sc, sç e xc que, em certas palavras, valem por /s/ (nascer, cresça, exceto); são por vezes incluídos entre os dígrafos.
Uma herança occitana
Dois dos dígrafos mais característicos do português — lh e nh — não são invenção autóctone. Foram adotados da grafia occitana (provençal) entre os séculos XII e XIII, na esteira do prestígio trovadoresco, para notar as consoantes palatais [ʎ] e [ɲ] , que o latim não escrevia. O castelhano resolveu o mesmo problema de outra maneira, com ll e ñ.
Dígrafos e divisão silábica
Na translineação (a divisão de palavras no fim da linha), os dígrafos comportam-se de duas maneiras opostas, e convém não as trocar:
- ch, lh e nh nunca se separam, porque cada um vale por uma só consoante: bi-cho, ve-lho, ma-nhã.
- rr, ss, sc, sç e xc separam-se sempre, ficando uma letra em cada sílaba: car-ro, pas-so, nas-cer, cres-ça, ex-ce-to.
Cedilha e dígrafos resolvem, no fundo, o mesmo problema: dar à mão escrita os sons que o alfabeto latino, pensado para outra língua, deixou sem letra. São a memória gráfica de mil anos de adaptação.
Fontes
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
- Moderna Gramática Portuguesa . Nova Fronteira (2009)
- História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)