Fonologia 音 · 08
Sibilantes e chiantes
As quatro sibilantes do português — s, z, ch e x —, a fusão das antigas séries medievais e o [ʃ] final que dá ao português europeu a sua sonoridade característica.
ptO português tem quatro consoantes sibilantes, opostas duas a duas por sonoridade e por ponto de articulação: as alveolares /s/ e /z/ (as sibilantes propriamente ditas) e as palato-alveolares /ʃ/ e /ʒ/ (as chiantes). A relação entre estes quatro sons e a ortografia é uma das mais intrincadas da língua, porque a escrita conserva distinções medievais que a pronúncia já apagou.
| Fonema | Grafias habituais | Exemplo |
|---|---|---|
| [s] | *s-*, *-ss-*, *c* (antes de *e/i*), *ç* | *passo* [ˈpasu] |
| [z] | *z*, *-s-* intervocálico | *casa* [ˈkazɐ] |
| [ʃ] | *ch*, *x*; *-s/-z* em coda | *chave* [ˈʃavɨ] |
| [ʒ] | *j*, *g* (antes de *e/i*); coda sonora | *jogo* [ˈʒoɣu] |
s e z: a fusão das antigas séries
O galego-português medieval distinguia duas séries de sibilantes alveolares. De um lado, as ápico-alveolares /s̺/ e /z̺/, escritas -ss- e -s-; do outro, as africadas dentais /ts/ e /dz/, escritas c/ç e z. Eram quatro sons distintos: passo /ˈpasso/ não era paço /ˈpatso/, nem coser /koˈzeɾ/ era cozer /koˈdzeɾ/.
Entre os séculos XV e XVII, as africadas perderam a oclusão inicial e tornaram-se fricativas simples; depois, as duas séries colapsaram numa só. O resultado é o sistema atual: passo e paço são hoje homófonos [ˈpasu] , e coser e cozer só se distinguem pela vogal que os rodeia. A grafia, porém, ficou: o ç, o ss, o s e o z sobrevivem como vestígios de oposições fonéticas extintas, e é por isso que continuam a exigir memorização.
ch e x: o encontro no [ʃ]
A história de ch repete o padrão. Em galego-português, ch representava a africada /tʃ/, herdada sobretudo dos grupos latinos cl-, pl-, fl- (lat. CLAMARE → chamar, PLENUM → cheio, FLAMMAM → chama). O x, por seu lado, valia já a fricativa /ʃ/. Eram, pois, sons diferentes.
Na maior parte do território, a africada /tʃ/ desafricou-se e fundiu-se com /ʃ/. No português europeu padrão, chave e xaile começam pelo mesmo som [ʃ] , e cheio rima foneticamente com meio na consoante. A ortografia volta a guardar uma memória que a fonologia já não realiza.
A letra x é, ainda assim, a mais imprevisível do alfabeto: além de [ʃ], pode valer [s], [z] ou [ks], e nenhuma regra simples decide entre eles.
| Valor | Exemplos | Significado |
|---|---|---|
| [ʃ] | *xaile, peixe, baixo* | xaile, peixe, em baixo |
| [s] | *próximo, trouxe, máximo* | próximo, trouxe, máximo |
| [z] | *exame, exato, exível* | exame, exato (*ex-* + vogal) |
| [ks] | *táxi, fixo, tórax* | táxi, fixo, tórax |
A consoante final europeia [ʃ]
O traço que mais distingue o português europeu de ouvido distraído é a palatalização das sibilantes em coda. Quando -s ou -z fecham uma sílaba, não soam [s] mas sim uma chiante, cuja sonoridade depende do que se segue:
- antes de pausa ou de consoante surda, realiza-se [ʃ]: paz [ˈpaʃ], estes [ˈeʃtɨʃ];
- antes de consoante sonora, assimila-se em [ʒ]: os livros [uʒ ˈlivɾuʃ];
- antes de vogal (mesmo na palavra seguinte), sonoriza-se em [z]: os amigos [uz ɐˈmiɣuʃ].
as festas [ɐʃ ˈfɛʃtɐʃ] · os dedos [uʒ ˈdeðuʃ] · os olhos [uz ˈɔʎuʃ]
O mesmo morfema de plural -s realiza-se [ʃ], [ʒ] ou [z] consoante o som seguinte — surdo, sonoro ou vocálico.
Esta regra atravessa toda a fala: o plural, a terminação verbal -mos, o artigo os/as, tudo termina nessa chiante. Combinada com a redução das vogais átonas, é ela que dá ao português europeu a textura densa e “fechada” que tantas vezes o faz soar, a quem não o conhece, a uma língua eslava.
Em síntese
Quatro fonemas, mas uma ortografia que regista seis ou sete distinções herdadas: o desencontro entre s/ss/c/ç/z e ch/x é, em grande medida, o registo escrito de oposições que o tempo dissolveu. E o [ʃ] de fim de sílaba, longe de ser um detalhe, é uma das assinaturas sonoras da pronúncia europeia.
Fontes
- The Phonology of Portuguese . Oxford University Press (2000)
- História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
- European Portuguese (Illustrations of the IPA) . Journal of the International Phonetic Association (1995)