Fonologia 音 · 09

Os róticos (r e rr)

O contraste entre o erre brando e o erre forte do português, a sua distribuição condicionada pela posição e a passagem, no padrão europeu, da antiga vibrante alveolar ao R gutural.

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O português distingue dois sons róticos — dois «erres» — que a ortografia representa ora com ⟨r⟩, ora com ⟨rr⟩. A oposição entre eles é uma das marcas mais audíveis da língua; e, no português europeu padrão, o erre «forte» tem hoje uma realização gutural que o afasta da maioria das línguas românicas vizinhas.

Dois fonemas róticos

O sistema atual reconhece dois fonemas:

  • o tap (ou vibrante simples) alveolar /ɾ/, o erre brando, articulado com um toque único da ponta da língua nos alvéolos — em caro [ˈkaɾu] ou prato [ˈpɾatu] ;
  • o R forte /ʁ/, hoje realizado no padrão de Lisboa como fricativa uvular sonora [ʁ] (por vezes uma vibrante uvular [ʀ]) — em rua [ˈʁuɐ] ou carro [ˈkaʁu] .

Os dois sons só se opõem de forma genuína entre vogais. Em todas as outras posições a sua distribuição é previsível: não há liberdade de escolha, e por isso muitos descrevem o sistema como tendo um só rótico subjacente com duas realizações.

Quando é brando e quando é forte

A posição na palavra decide qual dos dois sons aparece. O tap /ɾ/ ocorre:

  • entre vogais, escrito com ⟨r⟩ simples: caro, puro, touro;
  • nos grupos de ataque, depois de oclusiva ou fricativa: prato, braço, grande, livro, três, fruta;
  • em final de sílaba (coda): porta [ˈpɔɾtɐ] , carta, mar, falar — tradicionalmente um tap, embora a realização uvular avance hoje na fala lisboeta.

O R forte /ʁ/ ocorre, por seu lado:

Os três contextos do R forte /ʁ/
ContextoExemploTranscrição
Início de palavra*rua*, *rato*, *rio*[ˈʁuɐ]
⟨rr⟩ entre vogais*carro*, *terra*, *ferro*[ˈkaʁu]
Depois de *l, n, s* (outra sílaba)*honra*, *tenro*, *Israel*[ˈõʁɐ]

Daqui resulta uma assimetria ortográfica importante: como o R forte aparece sempre, sozinho, no início da palavra, basta aí um único ⟨r⟩ (rato [ˈʁatu] ); o dígrafo ⟨rr⟩ só é necessário entre vogais, onde o ⟨r⟩ simples valeria já um tap.

O par mínimo entre vogais

É exatamente entre vogais que a língua precisa de distinguir os dois sons — e onde nascem os pares mínimos. Trocar um tap por um R forte muda a palavra:

caro [ˈkaɾu] — carro [ˈkaʁu] · coro [ˈkoɾu] — corro [ˈkoʁu] · era [ˈɛɾɐ] — erra [ˈɛʁɐ]

«dispendioso» / «automóvel»; «coro» / «eu corro»; «época» / «ele erra». Só nesta posição o contraste é fonológico.

A grafia ⟨rr⟩ existe precisamente para assinalar o R forte aqui, distinguindo carro de caro numa posição em que o ⟨r⟩ simples seria lido como tap.

Do trílo alveolar ao R gutural

O R forte nem sempre foi gutural. Na sua origem latina e durante toda a Idade Média, era uma vibrante alveolar múltipla [r] — a língua a bater repetidamente nos alvéolos, como ainda hoje em perro castelhano ou no italiano. A pronúncia uvular, em que a constrição se faz no fundo da boca contra a úvula, é uma inovação relativamente recente: espalhou-se a partir dos centros urbanos, sobretudo de Lisboa, ao longo dos séculos XIX e XX, num processo muitas vezes comparado à mudança paralela do r em francês e em alemão.

Hoje, a fricativa uvular [ʁ] é a norma da capital e do sul. Mas a antiga vibrante alveolar [r] não desapareceu: continua viva no norte de Portugal e em muita fala rural e conservadora, onde carro soa com a língua a vibrar à frente, e não no fundo da garganta.

Variação no mundo lusófono

Estas diferenças incidem quase só sobre o R forte e sobre a coda; o tap intervocálico /ɾ/ de caro mantém-se notavelmente estável em todas as variedades, o que faz dele um dos sons mais constantes do português.

Fontes

  1. Maria Helena Mira Mateus & Ernesto d'Andrade. The Phonology of Portuguese . Oxford University Press (2000)
  2. Madalena Cruz-Ferreira. European Portuguese (Illustrations of the IPA) . Journal of the International Phonetic Association (1995)
  3. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  4. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)