Variantes 異 · 07

Dialetos de Portugal

Os falares continentais do português europeu, dos setentrionais aos centro-meridionais, e a zona de transição que os separa — segundo a classificação de Lindley Cintra.

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Apesar da sua dimensão modesta, o território continental português é dialetalmente diverso. As diferenças não tocam a inteligibilidade — um transmontano e um algarvio entendem-se sem esforço —, mas distribuem-se em isoglossas nítidas, sobretudo fonéticas, que permitem traçar fronteiras internas. A divisão maior, hoje clássica, opõe um Norte conservador a um Centro-Sul inovador, com uma faixa de transição a meio.

Como se classificam

A classificação de referência é a de Luís F. Lindley Cintra (1971), que revê e sistematiza o trabalho pioneiro de José Leite de Vasconcelos, fundador da dialetologia portuguesa. Dentro do domínio galego-português, Cintra separa os dialetos galegos (na Galiza) dos dialetos portugueses, e divide estes em dois grandes grupos:

  • dialetos setentrionais — o Norte: Minho, Douro Litoral, Trás-os-Montes e Alto Douro, e parte das Beiras;
  • dialetos centro-meridionais — o Centro e o Sul: o centro-litoral (incluindo o eixo Lisboa–Coimbra), o centro-interior, o Alentejo e o Algarve.

Os falares dos Açores e da Madeira, embora setentrionais na origem, tratam-se à parte pelas inovações próprias. O mirandês, no nordeste, não é português: é uma língua asturo-leonesa, com estatuto oficial próprio.

O Norte: os dialetos setentrionais

O Norte conserva traços medievais que o Centro-Sul perdeu. Três são especialmente diagnósticos:

  • Confusão de /b/ e /v/. Em grande parte do Minho e de Trás-os-Montes não há oposição entre os dois: vaca e baga começam pelo mesmo som [b]. É o chamado betacismo, partilhado com o galego e o castelhano do norte.
  • Sibilantes ápico-alveolares. O Norte preserva o s «beirão» [s̺] , articulado com a ponta da língua, e, em Trás-os-Montes, ainda a distinção medieval entre sibilantes surdas e sonoras (quatro fonemas, onde o padrão tem dois).
  • Africada /tʃ/. Em zonas do Minho e de Trás-os-Montes, o dígrafo ch mantém-se como africada [tʃ] , distinta de x [ʃ] : chave e xaile não rimam no início.

A par disto, o Norte tende a conservar os ditongos: ouro soa [ˈowɾu] e queijo [ˈkejʒu] , onde o Sul monotongou.

vinho [ˈbiɲu] · ouro [ˈowɾu] · chave [ˈtʃavɨ]

Traços nortenhos: /v/ realizado como [b], ditongo [ow] preservado e a africada [tʃ] do dígrafo ch.

O Centro-Sul: os dialetos centro-meridionais

O grupo centro-meridional é, paradoxalmente, o inovador — e foi sobre o seu ramo central-litoral, o eixo Lisboa–Coimbra, que se fixou a norma-padrão. As suas marcas são, em larga medida, o reverso das nortenhas:

  • /b/ e /v/ distinguem-se claramente;
  • as sibilantes são predorsais, como no padrão;
  • ch fundiu-se com x em [ʃ] ;
  • os ditongos ou e ei tendem a monotongar: ouro [ˈoɾu] , e na região de Lisboa ei realiza-se [ɐj] (leite [ˈlɐjtɨ] ).

Mais a sul, o Alentejo e o Algarve acrescentam traços próprios. O Alentejo é conhecido pela paragoge — o acrescento de uma vogal final a palavras agudas terminadas em consoante (mar[ˈmaɾɨ] ) — e por um ritmo de fala mais lento e arrastado. O Algarve fecha vogais tónicas e tem soluções vocálicas singulares que o destacam dentro do Sul.

A zona de transição

Entre os dois grandes grupos não há uma linha única, mas um feixe de isoglossas que atravessa o país a meia altura, sensivelmente das Beiras ao baixo Mondego. Aí, os falares de transição combinam traços de norte e de sul: podem conservar o s ápico-alveolar mas já distinguir /b/ e /v/, ou monotongar uns ditongos e manter outros. Cintra agrupa boa parte deste território nos dialetos do centro-litoral, justamente por essa natureza intermédia.

Quadro de isoglossas

Traços que opõem o Norte ao Centro-Sul
TraçoNorteCentro-Sul
/b/ vs /v/fundidos: *vaca* [ˈbakɐ]distintos: *vaca* [ˈvakɐ]
sibilante *s*ápico-alveolar [s̺]predorsal [s]
dígrafo *ch*africada [tʃ]fricativa [ʃ]
ditongo *ou*[ow] (*ouro*)[o] (*ouro*)

Uma língua, muitos falares

Estas fronteiras são tendências, não muros: o contacto, a escolarização e os meios de comunicação têm esbatido os traços mais locais, sobretudo entre os mais novos e nos grandes centros. Ainda assim, a geografia dialetal do português europeu continua legível no terreno, e a sua leitura é também uma leitura da história da língua — o Norte conserva o que o Sul, terra de Reconquista e de repovoamento tardio, terá nivelado.

Fontes

  1. Luís F. Lindley Cintra. Estudos de Dialectologia Portuguesa . Sá da Costa (1983)
  2. José Leite de Vasconcelos. Esquisse d'une dialectologie portugaise . Aillaud (1901)
  3. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  4. Maria Helena Mira Mateus & Ernesto d'Andrade. The Phonology of Portuguese . Oxford University Press (2000)