Geografia 地 · 13
Geografia dialetal de Portugal
Um mapa dos falares de Portugal — do Minho ao Algarve, dos Açores à Madeira —, organizado pelas isoglossas clássicas que separam o Norte do Centro-Sul.
ptApesar de ser um país pequeno e linguisticamente homogéneo na escrita, Portugal guarda uma diversidade dialetal antiga e bem cartografada. Os falares do território não se distribuem ao acaso: organizam-se em zonas que os dialetólogos delimitam há mais de um século, traçadas por isoglossas — linhas que no mapa separam onde uma dada pronúncia ocorre de onde não ocorre.
Uma divisão clássica
A classificação de referência continua a ser a de Lindley Cintra (1971), que refinou o levantamento pioneiro de Leite de Vasconcelos (1901). Cintra reparte os dialetos portugueses do continente em dois grandes grupos:
- os dialetos setentrionais (Minho, Trás-os-Montes, Douro e Beira interior), mais conservadores;
- os dialetos centro-meridionais (do litoral central ao Algarve, passando pelo Alentejo), onde se fixou a norma-padrão.
A fronteira entre os dois feixes corre, grosso modo, a sul do Douro, descendo em diagonal pelo interior. Não é uma linha única, mas um conjunto de isoglossas quase paralelas.
Os traços que dividem o mapa
Três fenómenos fonéticos, sobretudo, desenham essa fronteira.
O mais célebre é o betacismo: nos falares do Norte, /v/ e /b/ confundem-se num único som [b], de modo que vinho e binho soam igual. O Centro-Sul mantém a distinção. A segunda linha separa os falares que conservam o ditongo /ou/ — ouro dito [ˈow.ɾu] no Norte — daqueles que o reduziram a [o] . A terceira opõe a pronúncia africada de ch — [tʃ], distinta de x [ʃ] em todo o Norte mais arcaizante — à fusão dos dois sons num único [ʃ] no resto do país.
| Traço | Norte (conservador) | Centro-Sul (inovador) |
|---|---|---|
| *v* / *b* | [b] — *vinho* = *binho* | [v] ≠ [b] |
| ditongo *ou* | [ow] — *ouro* | [o] — *oro* |
| *ch* vs *x* | [tʃ] ≠ [ʃ] | [ʃ] = [ʃ] |
| sibilantes | ápico-alveolares (*s* «beirão») | predorsais |
A oposição das sibilantes é talvez a mais subtil. Muitos falares do Norte — sobretudo transmontanos e beirões — preservam um s ápico-alveolar (o som «grosso», próximo do castelhano) e chegam a distinguir quatro sibilantes onde a norma só tem duas, herança direta do sistema medieval.
*coser* (cozinhar) vs *cozer* — no Norte arcaico, dois sons distintos; na norma, homófonos.
A antiga distinção entre sibilante surda e sonora sobrevive em bolsões do interior setentrional.
Do centro ao sul
Dentro do bloco centro-meridional, distinguem-se o falar do centro-litoral (Coimbra, Leiria, a faixa atlântica que inclui Lisboa) e os falares do sul (Alentejo e Algarve). O alentejano é reconhecível pelo gerúndio em construções como estou comendo em vez do europeu estou a comer, e por uma entoação arrastada e própria; o algarvio aproxima-se dele, com vogais finais muito fechadas.
Os falares insulares
As ilhas atlânticas foram povoadas no século XV a partir do continente e desenvolveram traços próprios.
Nos Açores, o caso mais marcado é o micaelense (São Miguel), onde o /u/ tónico se pronuncia como vogal anterior arredondada [y], à maneira do u francês: Luísa aproxima-se de [lyˈizɐ]. Outras ilhas conservam variantes mais próximas do continente.
Na Madeira, é típica a palatalização do /l/ antes de i, que faz ilha soar quase como ilha com lh, e um forte fechamento dos ditongos. O falar madeirense tem ainda vocabulário e entoação inconfundíveis.
micaelense: *tu* ~ [ty] · madeirense: *menino* com /l/ palatal e ditongos fechados
Os falares insulares conservam ou inovam de forma autónoma face ao continente, fruto do isolamento.
Falares à parte
Dois casos escapam à classificação dialetal do português por não serem, em rigor, dialetos dele. O mirandês, falado no planalto de Miranda do Douro, pertence ao grupo asturo-leonês e é, desde 1999, língua oficial em Portugal a par do português. O barranquenho, de Barrancos, no Baixo Alentejo junto à fronteira, é uma fala mista, de base portuguesa fortemente marcada pelo castelhano fronteiriço.
Um mosaico em recuo
Como em quase toda a Europa, os traços dialetais mais salientes estão em recuo, erodidos pela escolaridade, pelos meios de comunicação e pela mobilidade. As isoglossas históricas, porém, continuam a ler-se na fala das gerações mais velhas e do interior, e fazem de um território exíguo um dos mais bem estudados laboratórios da dialetologia românica.
Fontes
- Nova proposta de classificação dos dialectos galego-portugueses . Boletim de Filologia (Lisboa) (1971)
- Esquisse d'une dialectologie portugaise . Centro de Estudos Filológicos (1901)
- História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)