Variantes 異 · 09
Mirandês
A língua asturo-leonesa falada na Terra de Miranda, no nordeste transmontano, e a segunda língua oficial de Portugal desde 1999 — não um dialeto do português, mas uma língua irmã.
ptO mirandês (em mirandês, mirandés) é uma língua românica do grupo asturo-leonês, falada num pequeno território do nordeste de Portugal — a Terra de Miranda — e reconhecida desde 1999 como segunda língua oficial do país. Não é, ao contrário do que o senso comum sugere, um dialeto do português: é uma língua distinta, irmã do asturiano e do leonês de Espanha, que sobreviveu do lado português da fronteira graças ao isolamento secular de um planalto remoto.
Uma língua, não um dialeto
O português e o mirandês descendem ambos do latim, mas por ramos diferentes da família românica. O português provém do galego-português, formado no noroeste peninsular; o mirandês pertence ao asturo-leonês, o conjunto de falares que nasceu no antigo Reino de Leão e que inclui hoje o asturiano (das Astúrias) e o leonês (de León e Zamora). A Terra de Miranda foi repovoada e evangelizada a partir de Leão na Idade Média, e o Tratado de Alcanizes (1297), que fixou a raia luso-castelhana, deixou esta nesga de fala leonesa encerrada dentro de Portugal — onde, isolada, perdurou.
Foi o filólogo José Leite de Vasconcelos quem, no final do século XIX, identificou cientificamente o mirandês como língua autónoma, dedicando-lhe os seus Estudos de Philologia Mirandesa (1900–1901). Chamou-lhe, com afeto, o falar de Miranda, e reconheceu-lhe um sistema fonético e gramatical próprio.
Onde se fala
O domínio do mirandês limita-se hoje ao concelho de Miranda do Douro e a algumas localidades do vizinho concelho de Vimioso, no distrito de Bragança, junto à fronteira com Espanha. É um território de planalto, a Terra de Miranda, agreste e pouco povoado, cujo afastamento dos grandes centros explica, em boa parte, a sobrevivência da língua.
O número de falantes é difícil de fixar, mas estima-se que ronde as dez a quinze mil pessoas que compreendem o mirandês, das quais uma fração menor o usa no quotidiano. A UNESCO classifica-o como língua em perigo: a transmissão entre gerações enfraqueceu ao longo do século XX, com o êxodo rural e o peso esmagador do português na escola, na administração e nos meios de comunicação.
Como soa: os traços que a definem
Dois fenómenos fonéticos separam de imediato o mirandês do português e denunciam a sua raiz asturo-leonesa.
O primeiro é a ditongação das vogais tónicas breves do latim: o ĕ breve dá ie e o ŏ breve dá uo/ue. Onde o português conservou vogais simples, o mirandês diptonga — tal como o castelhano e o asturiano.
O segundo é a palatalização do l- inicial em [ʎ] (escrito lh-): o latim LUNA dá lhuna [ˈʎunɐ] , e LUPUM dá lhobo [ˈʎobu] . Em contrapartida, o mirandês conserva o f- inicial latino, que o português também guardou mas o castelhano perdeu (FARINA → mir. farina, port. farinha, mas esp. harina).
| Latim | Português | Mirandês | Significado |
|---|---|---|---|
| TĔRRA | terra | *tierra* | terra |
| FŎNTE | fonte | *fuonte* | nascente |
| PŎRTA | porta | *puorta* | porta |
| LUNA | lua | *lhuna* | lua |
| LUPUM | lobo | *lhobo* | lobo |
| OCTO | oito | *uito* | oito |
| FARINA | farinha | *farina* | farinha |
La lhéngua mirandesa fala-se na Tierra de Miranda.
[la ˈʎɛ̃ɡwɐ miɾɐ̃ˈdezɐ ˈfalɐsɨ na ˈtjɛrɐ ðɨ miˈɾɐ̃dɐ]
A língua mirandesa fala-se na Terra de Miranda.
Note-se, na frase acima, o artigo definido la (feminino) e l/ls (masculino), e a forma lhéngua — com o mesmo lh- de lhuna — onde o português tem língua.
Um sistema de sibilantes arcaico
A característica mais admirada pelos linguistas é a riqueza do sistema de sibilantes. O mirandês preserva uma distinção que o português europeu perdeu por volta dos séculos XVI–XVII: a oposição entre sibilantes ápico-alveolares (de articulação «cheia», com a ponta da língua) e predorso-dentais (mais «sibiladas»), e ainda entre surdas e sonoras. Onde o português moderno tem um só s e um só z, o mirandês mantém quatro sons distintos, herdeiros diretos do sistema medieval comum a toda a Península.
| Som | Grafia | Exemplo | Tipo |
|---|---|---|---|
| [s̺] | *s-*, *-ss-* | *sapo* | ápico-alveolar surda |
| [z̺] | *-s-* | *casa* | ápico-alveolar sonora |
| [s̻] | *c*, *ç* | *cinco* | predorso-dental surda |
| [z̻] | *z* | *zico* | predorso-dental sonora |
A esta riqueza somam-se as palatais [ʃ] e [ʒ] e a já referida lateral [ʎ], o que faz do mirandês um dos sistemas consonânticos mais conservadores do ocidente românico.
Variedades internas
Apesar da pequena extensão do território, o mirandês conhece três subvariedades:
- o mirandês central (ou normal), o de maior número de falantes, base da norma escrita;
- o mirandês raiano, das aldeias mais próximas da fronteira, com forte influência do castelhano;
- o sendinês, falado em Sendim, o mais divergente — distingue-se, entre outros traços, no tratamento do lh- inicial e na vogal final átona.
O reconhecimento oficial
Em 29 de janeiro de 1999, a Assembleia da República aprovou a Lei n.º 7/99, que reconheceu oficialmente os direitos linguísticos da comunidade mirandesa — o direito a cultivar e promover a língua, a usá-la e a vê-la ensinada nas escolas do concelho. Portugal passou, assim, a ter duas línguas oficiais: o português, em todo o território, e o mirandês, na sua área histórica.
No mesmo ano publicou-se a Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa, elaborada por especialistas do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa em colaboração com falantes, que dotou a língua de uma grafia estável e coerente, em parte modelada na do português mas adaptada à fonologia mirandesa. A escola de Miranda do Douro passou a oferecer o mirandês como disciplina.
Vitalidade e literatura
A consagração legal coincidiu com um notável renascimento literário. Figura central foi Amadeu Ferreira (1950–2015), jurista e escritor que, sob vários pseudónimos, traduziu para mirandês obras como Los Lusíadas de Camões, os quatro Evangelhos e até álbuns de Astérix — provando a plasticidade de uma língua que durante séculos fora quase só oral. Surgiram também poetas, contistas e iniciativas de imprensa e rádio em mirandês.
Buonos dies! Cumo stás?
[ˈbwonoz ˈdiɛs ˈkumu staʃ]
Bom dia! Como estás? — uma saudação corrente em mirandês.
O futuro, porém, continua incerto. O estatuto oficial, o ensino escolar e o prestígio literário trabalham a favor da língua; o envelhecimento da população, a emigração e a omnipresença do português trabalham contra ela. O mirandês permanece, ainda assim, um caso singular na Europa: uma língua minoritária de algumas dezenas de aldeias que conquistou o reconhecimento de um Estado e a dignidade da escrita — e, com ela, uma hipótese de futuro.
Fontes
- Estudos de Philologia Mirandesa . Imprensa Nacional (1900)
- Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa . Câmara Municipal de Miranda do Douro / Centro de Linguística da Universidade de Lisboa (1999)
- The Cambridge History of the Romance Languages . Cambridge University Press (2013)