História 史 · 07
Galego-português
A língua medieval comum do noroeste da Península Ibérica, mãe partilhada do português e do galego, e veículo de uma das grandes líricas da Europa.
ptO galego-português (ou galaico-português) é a língua românica que se falou no noroeste da Península Ibérica entre, sensivelmente, os séculos IX e XIV. Dela descendem, por evolução divergente, duas línguas modernas — o português e o galego —, razão pela qual é correntemente descrita como a língua-mãe comum de ambas. Foi também a língua de uma das mais notáveis tradições líricas da Idade Média europeia: as cantigas dos cancioneiros.
Da fala latina a uma língua própria
Como todas as línguas românicas, o galego-português nasceu do latim vulgar levado à Hispânia pela colonização romana, a partir do século III a.C. No extremo noroeste — a antiga Gallaecia —, esse latim falado foi-se afastando do modelo escrito ao longo de séculos de transformação fonética, até constituir, na alta Idade Média, um romance já claramente distinto do latim e dos romances vizinhos.
Entre os traços que individualizam cedo o galego-português conta-se a queda das consoantes intervocálicas latinas /l/ e /n/, um fenómeno que o distingue do castelhano e que está na origem de numerosas palavras patrimoniais.
lat. SALĪRE → sair · lat. LŪNA → lũa (> lua) · lat. BONUM → bõo (> bom)
A perda do -l- e do -n- intervocálicos cria hiatos e vogais nasais que marcam a língua até hoje.
A scripta: do latim ao romance escrito
Durante muito tempo, o latim manteve-se como língua da escrita e da administração, mesmo quando já ninguém o falava como língua materna. Os primeiros documentos em que o romance galego-português aflora de forma sistemática datam do final do século XII e do início do século XIII, e incluem textos notariais e literários. A produção de documentos em galego-português — e não apenas em latim contaminado pelo romance — generaliza-se ao longo do século XIII, sobretudo durante o reinado de D. Dinis (1279–1325), que fez do português a língua da chancelaria régia.
Os cancioneiros: a grande lírica trovadoresca
O prestígio literário do galego-português foi tal que se tornou, durante mais de um século, a língua da poesia lírica em quase toda a Península — incluindo para poetas castelhanos, como o próprio rei Afonso X, o Sábio, que compôs em galego-português as suas Cantigas de Santa Maria.
Este corpus — preservado sobretudo em três grandes coletâneas, os cancioneiros — organiza-se em três géneros maiores:
- cantigas de amor — em que um eu masculino lamenta a coita amorosa por uma senhor idealizada, na esteira da fin’amors provençal;
- cantigas de amigo — voz feminina, de raiz autóctone, em que uma jovem fala do amigo (o namorado), muitas vezes à mãe ou às amigas;
- cantigas de escárnio e maldizer — sátira, da alusão velada ao insulto direto.
Ondas do mar de Vigo, / se vistes meu amigo? / E ai Deus, se verrá cedo!
Martim Codax, cantiga de amigo (séc. XIII) — uma das mais célebres da tradição.
Como soava
A pronúncia do galego-português conservava distinções que o português europeu viria a perder. Havia, por exemplo, um contraste entre sibilantes surdas e sonoras hoje desaparecido na maior parte dos dialetos: passo [ˈpasso] opunha-se a paso [ˈpazo] , e a grafia medieval distinguia regularmente -ss-, -s-, c/ç e z. As vogais nasais, surgidas da queda do /n/ intervocálico, já eram um traço bem estabelecido.
A separação
A independência política de Portugal (formalizada em 1143) e a posterior integração da Galiza na Coroa de Castela criaram condições para que as duas metades do antigo domínio galego-português seguissem caminhos distintos. A sul, o romance acompanhou a expansão do reino e fixou-se como português, com Lisboa e Coimbra a ganharem peso normativo. A norte, sob crescente influência do castelhano, o galego entrou num longo período de menor uso escrito, os Séculos Escuros, só revertido a partir do século XIX.
Legado
Do galego-português herdou o português moderno boa parte da sua fonologia característica (as vogais nasais, os ditongos -ão, -ões), do seu vocabulário patrimonial e da sua morfologia. A questão da relação entre português e galego — duas línguas distintas ou duas variedades de um mesmo diassistema — permanece viva, e é indissociável desta origem partilhada.
Fontes
- História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
- The Cambridge History of the Romance Languages . Cambridge University Press (2013)