História 史 · 08
Os primeiros documentos
Os textos não-literários mais antigos escritos em português — a Notícia de Fiadores, o Testamento de Afonso II e a Notícia de Torto — e o momento em que o romance suplanta o latim no papel.
ptDurante séculos, falou-se romance e escreveu-se latim. A língua do quotidiano — já claramente o galego-português — só muito tarde chega ao papel como código escrito autónomo, e fá-lo primeiro não na poesia, mas em textos práticos: rol de dívidas, queixas, testamentos. Os primeiros documentos em português são, por isso, peças notariais modestas, sem qualquer pretensão literária, mas de imenso valor para a história da língua: nelas vemos o romance a libertar-se da couraça do latim.
O latim como língua da escrita
Na alta Idade Média, escrever significava escrever em latim — mesmo quando ninguém o falava já como língua materna. Os tabeliães redigiam contratos, doações e sentenças num latim cada vez mais «contaminado» pelo romance, deixando passar formas vernáculas sobretudo nos nomes próprios e nos termos sem equivalente latino fácil. Durante muito tempo, o limiar entre um latim muito corrompido e um romance ainda muito latinizado foi ténue e gradual, e a datação do «primeiro documento» depende em parte de onde se decide traçar essa fronteira.
A Notícia de Fiadores (1175)
A investigação de Ana Maria Martins veio recuar consideravelmente essa fronteira. A Notícia de Fiadores, lavrada por Paio Soares Romeu e datada de 1175 (era de 1213), é hoje tida como o mais antigo texto conhecido escrito de forma consistente em português. Trata-se de um simples rol dos fiadores — os garantes — de um acordo, redigido já fora do molde latino, com sintaxe e vocabulário romances. A sua descoberta deslocou para o último quartel do século XII o início da escrita em português, antes situado em inícios do século XIII.
O Testamento de Afonso II (1214)
O documento mais célebre — e o mais imponente — é o Testamento de D. Afonso II, outorgado em junho de 1214. Pela primeira vez, o romance instala-se na própria chancelaria régia: o testamento do rei foi redigido em português e dele se fizeram várias cópias, enviadas às principais igrejas e mosteiros do reino, duas das quais chegaram até nós (uma em Lisboa, outra em Toledo). É um texto cuidado, de fórmulas solenes, que mostra o português já apto a funções oficiais.
En’o nome de Deus. Eu rei don Afonso pela gracia de Deus rei de Portugal…
Abertura do Testamento de Afonso II (1214): o vernáculo assume, pela primeira vez, a voz do próprio rei.
A Notícia de Torto (c. 1211–1216)
A Notícia de Torto é um documento de natureza muito diferente: um rascunho notarial em que se arrolam os tortos — os agravos, as injustiças — cometidos contra Lourenço Fernandes da Cunha pelos filhos de Gonçalo Ramires. Datável do período de 1211 a 1216, é um texto irregular, emendado, de aspeto quase oral, que começa com uma fórmula latina («De noticia de torto…») e logo desliza para um romance cru e expressivo. Pela sua espontaneidade, é uma das janelas mais vivas para a língua falada do início do século XIII.
Três testemunhos, três registos
| Documento | Data | Natureza |
|---|---|---|
| Notícia de Fiadores | 1175 | rol de garantes |
| Notícia de Torto | c. 1211–1216 | arrolamento de agravos |
| Testamento de Afonso II | 1214 | testamento régio |
Juntos, estes textos cobrem todo o espetro do uso escrito: o registo administrativo corrente, a queixa quase oral e a solenidade da chancelaria. Que o romance surja simultaneamente nestes três planos mostra que, por volta de 1200, a escrita em português já não era uma ousadia isolada, mas uma possibilidade ao alcance de tabeliães e de reis.
Que língua é esta?
A língua destes documentos é o galego-português na sua fase mais antiga, ainda muito próxima das suas raízes latinas. Encontramos nela traços que o português moderno conserva e outros que perderia: a grafia hesita, as vogais nasais já se ouvem, e a sintaxe oscila entre o decalque do latim notarial e a ordem própria do romance. A ortografia não está fixada — uma mesma palavra pode surgir de várias formas —, porque não havia ainda norma escrita que a regulasse.
Legado
Os primeiros documentos não fundam a língua — que já se falava há séculos —, mas fundam a sua história escrita. A partir do reinado de D. Dinis (1279–1325), que tornou o português a língua corrente da administração, o vernáculo generaliza-se de vez no papel. O caminho que vai da Notícia de Fiadores à chancelaria dionisina é o caminho pelo qual uma língua falada se torna, também, uma língua de cultura escrita.
Fontes
- Documentos portugueses do Noroeste e da região de Lisboa . Imprensa Nacional-Casa da Moeda (2001)
- Introdução à História do Português . Edições Colibri (2006)
- História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
- O Essencial sobre a História do Português . Caminho (2006)