História 史 · 14

Cronologia da língua portuguesa

Uma cronologia condensada do português — do latim levado à Hispânia às reformas ortográficas contemporâneas —, com os marcos que estruturam a história da língua.

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A história do português não tem um início súbito: é a história de um latim que nunca deixou de ser falado e que, em mil e quinhentos anos, se transformou numa língua nova. A cronologia que se segue reúne os marcos que estruturam essa transformação — políticos, literários e normativos —, das raízes latinas à norma contemporânea. As datas mais antigas são aproximadas; os limites entre períodos são convenções úteis, não fronteiras nítidas.

Raízes: do latim aos reinos (séc. III a.C.–séc. IX)

A língua começa com a romanização: o latim falado pelos soldados, colonos e funcionários de Roma sobrepõe-se às línguas pré-romanas da Hispânia e, no extremo noroeste, dá origem ao romance de que descende o português.

DataMarco
218 a.C.Desembarque romano na Península Ibérica (2ª Guerra Púnica); início da romanização.
séc. I a.C.–V d.C.Difusão do latim vulgar; a Gallaecia romaniza-se de forma duradoura.
409Entrada dos povos germânicos; reino suevo na Gallaecia (superstrato germânico).
711Conquista muçulmana; séculos de contacto com o árabe (substrato lexical).
868Primeiro Condado Portucalense, no contexto da Reconquista.

A língua escrita e a lírica (séc. XII–XIV)

É nesta fase que o romance do noroeste, o galego-português, aflora por escrito e se torna língua literária de prestígio em quase toda a Península. O latim recua na chancelaria à medida que avança o vernáculo.

DataMarco
1143Tratado de Zamora: reconhecimento de Afonso Henriques como rei; independência de Portugal.
fins séc. XIIPrimeiros documentos com romance sistemático (p. ex. a Notícia de Fiadores, 1175).
1214Testamento de Afonso II, dos mais antigos textos régios em português.
séc. XIII–XIVApogeu das cantigas trovadorescas, reunidas nos cancioneiros.
1279–1325Reinado de D. Dinis: o português torna-se língua da chancelaria régia.
1290Fundação do Estudo Geral (a futura Universidade de Coimbra).

Ondas do mar de Vigo, / se vistes meu amigo? / E ai Deus, se verrá cedo!

Martim Codax (séc. XIII): a lírica galego-portuguesa é o primeiro grande monumento literário da língua.

Português médio e a expansão (séc. XV–XVI)

O português médio é a língua de transição que conduz do galego-português ao português clássico. Coincide com a abertura ao mundo: a língua sai da Península e torna-se transcontinental, levando consigo o gérmen das futuras variedades.

DataMarco
1415Tomada de Ceuta: início da expansão marítima e da difusão da língua.
1500Chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil.
1516Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, fecho da tradição lírica medieval.
1536Grammatica da lingoagem portuguesa, de Fernão de Oliveira — a primeira gramática da língua.
1540Gramática de João de Barros, que firma o português como língua de cultura.
1572Publicação de Os Lusíadas, de Luís de Camões.

A norma e a era moderna (séc. XVII–XX)

O português moderno, estabilizado a partir do século XVI, distingue-se já pouco do atual na gramática e no léxico. O período é marcado pela construção de uma norma ortográfica e pela autonomização das variedades de além-mar.

DataMarco
1822Independência do Brasil; consolidação de uma norma brasileira própria.
1911Primeira reforma ortográfica oficial em Portugal, de base fonética.
1945Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro (adotado em Portugal).
1975Independência das colónias africanas; o português torna-se língua oficial de novos Estados.
1990Assinatura do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Marcos contemporâneos (séc. XXI)

DataMarco
1996Criação da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa).
2009Entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990 em Portugal, com período de transição.
2019A UNESCO institui o Dia Mundial da Língua Portuguesa, a 5 de maio.

Hoje o português é língua oficial de nove países e de várias organizações internacionais, falada por mais de duzentos e cinquenta milhões de pessoas em quatro continentes. A cronologia que aqui termina não fecha: a língua continua a mudar, e cada variedade escreve o seu próprio capítulo.

Fontes

  1. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  2. Ivo Castro. História da Língua Portuguesa . Universidade Aberta (2006)
  3. Maiden, Smith & Ledgeway (eds.). The Cambridge History of the Romance Languages . Cambridge University Press (2013)