História 史 · 13

As reformas ortográficas (1911, 1945, 1990)

A história das três grandes reformas que fixaram a ortografia portuguesa moderna — a simplificação republicana de 1911, a convenção luso-brasileira de 1945 e o Acordo de 1990.

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A ortografia do português moderno não é um dado natural: é o resultado de decisões deliberadas, tomadas por comissões e governos ao longo do século XX. Três reformas a definem — a de 1911, a de 1945 e a de 1990 —, e a sua história é também a história de uma língua dividida por um oceano e do esforço, sempre incompleto, de a manter unida na escrita.

Antes de 1911: a escrita etimológica

Até ao início do século XX, escrever português era um exercício de erudição pessoal. Não havia norma oficial, e cada autor seguia uma ortografia de inspiração etimológica, que procurava reconstituir na grafia a origem latina ou grega das palavras. Daí grafias hoje surpreendentes — pharmacia, orthographia, phleugma, sciencia, anno, abbade —, com ph, th, rh, y e consoantes dobradas que nada diziam da pronúncia real.

pharmácia · orthographia · phósphoro · lyrio · anno

Grafias etimológicas pré-1911, hoje farmácia, ortografia, fósforo, lírio, ano.

1911: a reforma republicana

Proclamada a República em outubro de 1910, o novo regime nomeou uma comissão de filólogos — entre os quais Aniceto dos Reis Gonçalves Viana, principal autor do projeto, com Carolina Michaëlis de Vasconcelos e Leite de Vasconcelos — para fixar uma ortografia oficial. O resultado, oficializado por decreto de 1 de setembro de 1911, foi a primeira reforma sistemática da história do português e assentava num princípio claramente fonético: a escrita devia aproximar-se da pronúncia, não da etimologia.

A reforma simplificou drasticamente a grafia: eliminou os dígrafos de origem grega (phf, tht, rhr, ch com valor de [k] → c/qu), suprimiu o y, reduziu as consoantes dobradas (exceto rr e ss) e regularizou a acentuação gráfica. Pharmacia tornou-se farmácia; orthographia, ortografia.

1945: a convenção luso-brasileira

A consciência dessa cisão levou as duas academias — a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras — a negociar uma grafia comum. Um primeiro acordo, em 1931, teve efeito limitado. Seguiu-se a Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945, um texto minucioso que Portugal adotou oficialmente (Decreto-Lei n.º 35 228, de dezembro de 1945) e que rege a ortografia portuguesa até à entrada em vigor do Acordo de 1990.

O Brasil, porém, assinou mas não ratificou a convenção: o Congresso não a aprovou, e o país regressou ao seu Formulário Ortográfico de 1943. O resultado foi paradoxal — um “acordo” que, na prática, consagrou duas normas oficiais distintas, a portuguesa e a brasileira, durante mais de seis décadas. A diferença mais visível estava nas consoantes mudas: Portugal escrevia acção, director, óptimo; o Brasil, ação, diretor, ótimo.

1990: o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

Assinado em Lisboa em 1990 pelos sete países então lusófonos — Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe (mais tarde também Timor-Leste) —, o novo Acordo retomou o objetivo de uma grafia unificada. Adia-se várias vezes a sua aplicação; só após protocolos modificativos entra em vigor, no Brasil a partir de 2009 e em Portugal com um período de transição que terminou em 2015.

As suas principais alterações:

  • queda das consoantes mudas em Portugal (acçãoação, óptimoótimo), mantendo-se apenas as que se pronunciam (pacto, facto);
  • fim do trema no Brasil (lingüiçalinguiça);
  • simplificação de acentos (párapara; no Brasil, idéiaideia, vôovoo);
  • novas regras de hífen e de uso de maiúsculas.
Pré-19111911 / 1945 (PE)Pós-1990
pharmaciafarmáciafarmácia
orthographiaortografiaortografia
acçãoacçãoação
óptimoóptimoótimo
directordirectordiretor

Um debate que não fecha

Mais do que uma questão técnica, cada reforma foi uma decisão política e cultural. A de 1990, em particular, foi e continua a ser objeto de viva controvérsia em Portugal, onde muitos a contestam por aproximar a grafia da pronúncia brasileira. A história destas três reformas mostra que a ortografia é um pacto sempre renegociado — e que, numa língua falada por mais de duzentos milhões de pessoas em vários continentes, escrever do mesmo modo é tanto um projeto linguístico como um projeto político.

Fontes

  1. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  2. Ivo Castro. Introdução à História do Português . Edições Colibri (2006)
  3. Maiden, Smith & Ledgeway (eds.). The Cambridge History of the Romance Languages . Cambridge University Press (2013)