História 史 · 12

Expansão e difusão global

A partir do século XV, a expansão marítima leva o português a quatro continentes, fazendo dele língua de comércio, administração e fé — e a matriz de crioulos e variedades que sobrevivem até hoje.

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Quando, em 1415, uma armada portuguesa tomou Ceuta, no norte de África, a língua que os tripulantes falavam era ainda o português médio, restrito a um pequeno reino atlântico. Três séculos depois, esse mesmo idioma ouvia-se nas feitorias do golfo da Guiné, nos portos do Índico, nas ruas de Goa e de Macau e em todo o litoral do Brasil. A expansão marítima foi o acontecimento que transformou uma língua peninsular numa língua de dimensão planetária — e que plantou as sementes das variedades e dos crioulos que hoje estudamos.

A cronologia da expansão

A projeção do português acompanhou, passo a passo, o avanço das navegações. Cada nova rota abria não só um mercado, mas também um espaço linguístico.

AnoAcontecimento
1415Tomada de Ceuta — primeiro estabelecimento ultramarino
1419–1427Madeira e Açores; início do povoamento atlântico
1444Chegada à costa da Senegâmbia; comércio na Guiné
1488Bartolomeu Dias dobra o cabo da Boa Esperança
1498Vasco da Gama chega a Calecute, na Índia
1500Pedro Álvares Cabral aporta ao Brasil
1510–1511Conquista de Goa e de Malaca
1543Primeiros contactos com o Japão
1557Estabelecimento em Macau

Língua de comércio, de administração e de fé

Onde os portugueses se fixaram, o idioma assumiu três funções complementares. Foi língua franca do comércio, usada nas trocas entre europeus, africanos e asiáticos muito para lá das zonas de domínio português efetivo. Foi língua da administração nas praças e feitorias do Estado da Índia. E foi sobretudo língua da evangelização: missionários, em particular os jesuítas, pregaram, ensinaram e imprimiram catecismos em português e nas línguas locais, fixando muitas delas pela primeira vez por escrito em caracteres latinos.

A força do português como veículo de contacto foi tal que, em vastas regiões da Ásia e da África, continuou a servir de língua de relação entre povos durante séculos, mesmo onde o poder político português era ténue ou já tinha desaparecido.

O nascimento dos crioulos

Do encontro entre o português e as línguas faladas pelas populações locais nasceram, em situações de contacto intenso e desigual, novas línguas de pleno direito: os crioulos de base portuguesa. Surgidos sobretudo a partir do século XVI, conservam um léxico amplamente português sobre gramáticas profundamente reestruturadas.

kabuverdianu: «Nu ta papia kriolu» — port. «Nós falamos crioulo».

O crioulo cabo-verdiano mantém vocabulário de origem portuguesa (papia < «papear», kriolu < «crioulo») numa gramática própria.

Espalham-se por um arco que vai de Cabo Verde e da Guiné, no Atlântico, a Goa, Damão, Malaca, Macau, Sri Lanka e Timor, no Índico e no Pacífico. Alguns mantêm-se vivos; outros, como o crioulo de Macau (patuá) ou o de Malaca (kristang), encontram-se hoje em risco de extinção.

O Brasil: a maior comunidade de falantes

A colonização do Brasil, iniciada de forma sistemática a partir da década de 1530, foi de uma natureza distinta. Aí, em vez de uma rede de feitorias, formou-se uma sociedade de povoamento que acabaria por adotar o português como língua materna de toda a população. Durante o período colonial, porém, a comunicação quotidiana fez-se largamente através de uma língua geral de base tupi, só gradualmente substituída pelo português, processo acelerado a partir de meados do século XVIII. O Brasil é hoje, de longe, o país com mais falantes de português.

A troca de palavras com o mundo

A expansão não exportou apenas o português: trouxe de volta um vasto vocabulário de coisas novas — produtos, animais, plantas e instituições do Oriente, de África e da América. Muitos desses termos passaram, através do português, para as restantes línguas europeias.

Empréstimos trazidos pela expansão
PalavraOrigemSignificado
*chá*chinês (min nan *tê*/*chá*)tea
*mandarim*malaio/sânscrito, via port.mandarin (official)
*pagode*tâmil/persa, via port.pagoda
*catana*japonês *katana*machete, cutlass
*varanda*indiano, via port.veranda

Por outro lado, o próprio português deixou marcas duradouras noutros idiomas: palavras como pan “pão”, sabão ou botão sobrevivem no japonês (pan, shabon, botan), e termos náuticos e comerciais portugueses entraram no malaio, no suaíli e em muitas línguas da Ásia marítima.

Um legado de quatro continentes

A expansão dos séculos XV a XVIII desenhou o mapa atual da língua. Dela resultaram as comunidades lusófonas de África — Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe —, a presença em Timor-Leste e em Macau, e o imenso espaço de língua portuguesa do Brasil. É essa geografia, herdeira direta das navegações, que a CPLP veio reconhecer e organizar no plano político. O português que hoje se fala em quatro continentes é, em larga medida, filho desta primeira mundialização.

Fontes

  1. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  2. Charles R. Boxer. The Portuguese Seaborne Empire, 1415–1825 . Hutchinson (1969)
  3. A. R. Disney. A History of Portugal and the Portuguese Empire . Cambridge University Press (2009)