História 史 · 11

Português médio

O período de transição (séc. XV–XVI) em que o português deixa para trás a feição medieval e fixa muitos dos traços da língua moderna — dos hiatos nasais às primeiras gramáticas.

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Chama-se português médio à fase de transição que liga o galego-português medieval ao português clássico, situada, em traços largos, entre meados do século XIV e meados do século XVI. É um período de charneira: a língua perde a feição arcaica dos cancioneiros e fixa muitos dos traços que reconhecemos como modernos — desde a redução dos hiatos nasais até à colocação dos pronomes —, ao mesmo tempo que começa a ser, pela primeira vez, objeto de estudo e de norma.

Onde encaixa

As periodizações variam de autor para autor, mas há um consenso de fundo: depois da grande lírica trovadoresca dos séculos XIII e XIV, o galego-português cinde-se em dois ramos (ver Separação do galego-português), e o ramo meridional — o português — atravessa, ao longo do século XV e da primeira metade do XVI, uma fase de mudanças rápidas. Convenciona-se fechar este período por volta de 1536–1550, balizado de um lado pelas primeiras gramáticas e do outro pelo arranque da expansão ultramarina, que levaria a língua aos quatro cantos do mundo.

O fim dos hiatos nasais

A herança mais visível do galego-português eram as vogais e os hiatos nascidos da queda do /n/ e do /l/ intervocálicos latinos. No português médio, muitas dessas sequências contraem-se e perdem a nasalidade, dando à língua um perfil mais próximo do atual.

lũa → lua · bõa → boa · põer → pôr · ũa → uma

As vogais nasais em hiato simplificam-se: umas desnasalam (lua, boa), outras consolidam-se como nasais plenas.

Em simultâneo, três terminações medievais distintas convergem no singular para -ão, embora os plurais conservem a divergência de origem — daí a aparente irregularidade que ainda hoje gera dúvidas:

LatimMedievalSingular modernoPlural moderno
CANE(M)cãocães
RATIONE(M)razõrazãorazões
MANU(M)mãomãomãos

As sibilantes começam a fundir-se

O galego-português distinguia quatro sibilantes apicais e dorsais — as africadas c/ç [ts] e z [dz] , opostas às fricativas -ss- [s] e -s- [z] —, além do par x / ch. Durante o português médio, as africadas desafricam-se e, no centro e sul do país, todo esse sistema começa a colapsar num único par s sonoro/surdo; ch funde-se com x em [ʃ] . A distinção mantém-se apenas no Norte e, até hoje, em mirandês — testemunho vivo do estado medieval.

A morfologia acerta-se

A flexão verbal também se reorganiza. A segunda pessoa do plural perde o -d- intervocálico das suas desinências, num processo que percorre o século XV:

cantades → cantaes → cantais · tomades → tomais · sodes → sois

A queda do -d- nas formas de 2.ª pessoa do plural fixa as desinências -ais, -eis, -is do português moderno.

É também nesta fase que se firmam padrões de colocação pronominal e que ganham terreno novas formas de tratamento de cortesia (como vossa mercê, futura matriz do você), num movimento que só amadureceria mais tarde.

A página escrita

O século XV e o início do XVI deixam-nos um corpus abundante em prosa e em verso: a historiografia de Fernão Lopes, a poesia palaciana reunida no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516) e o teatro de Gil Vicente, ativo entre cerca de 1502 e 1536. A par disto, o humanismo renascentista traz uma vaga de latinismos e de grafias re-latinizadas, que reaproximam visualmente a palavra portuguesa do seu étimo latino.

A língua torna-se objeto de norma

O traço que melhor marca o fecho do período é o nascimento da reflexão metalinguística. Em 1536, Fernão de Oliveira publica a Grammatica da lingoagem portuguesa, a primeira gramática do português; em 1540, João de Barros dá à estampa a sua Grammatica da Língua Portuguesa, acompanhada do Diálogo em louvor da nossa linguagem. Pela primeira vez, o português é descrito, defendido e proposto como norma — um gesto inseparável da consciência imperial da época.

Legado

Do português médio saiu uma língua substancialmente moderna na fonologia, na morfologia e na ortografia — e, sobretudo, uma língua descrita e normalizada, pronta para o passo seguinte: a expansão e difusão global que, a partir de Quinhentos, faria do português um idioma de vários continentes.

Fontes

  1. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  2. Ivo Castro. Introdução à História do Português . Edições Colibri (2006)
  3. Esperança Cardeira. O Essencial sobre a História do Português . Caminho (2006)