História 史 · 10

A separação do galego e do português

Como uma língua medieval comum se desdobrou em duas — o português, língua de um reino independente, e o galego, integrado na órbita castelhana —, e o que essa fratura deixou em cada uma.

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Durante os séculos XII e XIII, o galego-português era uma só língua, falada de uma e de outra margem do rio Minho e veículo de uma lírica admirada em toda a Península. Setecentos anos depois, dela existem dois descendentes que a linguística trata como línguas distintas: o português e o galego. Esta página trata da fratura — política antes de ser linguística — que separou os dois ramos.

Uma fronteira política, não linguística

A divisão não nasceu de qualquer diferença de fala. Nasceu de uma fronteira de Estado. O Condado Portucalense, a sul do Minho, autonomizou-se do reino de Leão: D. Afonso Henriques intitulou-se rei por volta de 1139, viu o título reconhecido por Leão no Tratado de Zamora (1143) e, em 1179, obteve da Santa Sé, pela bula Manifestis Probatum, o reconhecimento de Portugal como reino independente. A norte do rio, a Galiza permaneceu integrada no conjunto leonês e, mais tarde, na Coroa de Castela.

No momento da separação, um falante de Braga e um de Santiago de Compostela falavam, para todos os efeitos, a mesma língua. A fronteira que os passou a separar era jurídica e administrativa — mas seria essa fronteira a determinar, ao longo dos séculos seguintes, duas histórias linguísticas divergentes.

Dois centros, dois modelos

A consequência decisiva foi o aparecimento de centros de prestígio distintos. A sul, com a Reconquista a empurrar a fronteira para o Algarve, o romance acompanhou a expansão do reino; Lisboa e Coimbra tornaram-se os polos de uma norma que se afirmou como língua de chancelaria sob D. Dinis (r. 1279–1325) e, daí em diante, de uma administração, de uma corte e de uma literatura próprias.

A norte, a Galiza não dispôs de corte nem de chancelaria autónomas. A partir dos finais da Idade Média, o castelhano impôs-se como língua da administração, da Igreja e das letras, ao passo que o galego ficou confinado à oralidade e ao uso popular. Seguiram-se os chamados Séculos Escuros (séc. XVI–XVIII), em que a escrita em galego quase desapareceu — não por morte da língua, falada pela maioria da população, mas por ausência de cultivo escrito e de norma.

O que divergiu na língua

Separados os usos, as duas variedades evoluíram cada uma a seu modo. O português prosseguiu mudanças que o galego, mais conservador nuns pontos e mais permeável ao castelhano noutros, não acompanhou.

Alguns resultados divergentes a partir do étimo latino
LatimPortuguêsGalego
GERMANU(M)*irmão**irmán*
RATIONE(M)*razão**razón*
CAELU(M)*céu**ceo*
GENERALE(M)*geral* [ʒ]*xeral* [ʃ]

Os contrastes mais salientes são três. Primeiro, a nasalidade final: onde o português fixou os ditongos nasais -ão, -ões, -ães, o galego desnasalizou, dando -án/-án, -óns, -áns (irmão ~ irmán, razões ~ razóns). Segundo, o sistema de sibilantes: o português europeu fundiu os antigos pares surdo/sonoro e simplificou-os; o galego comum perdeu as sonoras e desenvolveu, à maneira castelhana, uma fricativa interdental [θ] — daí ceo [ˈθeo] ali onde o português tem céu [ˈsɛw] . Terceiro, a redução vocálica: o português europeu reduziu fortemente as vogais átonas, comprimindo a palavra, ao passo que o galego conservou um vocalismo átono mais cheio e nítido.

port. *coração*, *nação*, *mão* · gal. *corazón*, *nación*, *man*

A mesma origem latina, dois tratamentos da vogal nasal final — talvez o traço que de imediato mais distingue as duas línguas ao ouvido e na escrita.

O Rexurdimento e a norma moderna

A escrita em galego ressurgiu no século XIX com o Rexurdimento, movimento de recuperação cultural cujo marco é Cantares Gallegos (1863), de Rosalía de Castro. Foi, porém, já no século XX — e sobretudo após a cooficialidade do galego na Galiza, em 1981 — que se fixou uma norma escrita. As Normas ortográficas e morfolóxicas da Real Academia Galega e do Instituto da Lingua Galega (1982, revistas em 2003) adotaram uma ortografia de base castelhana (com ñ, ll, -ción), afastando o galego escrito da grafia portuguesa.

Duas línguas ou uma?

Do ponto de vista estritamente genético, português e galego formam um mesmo diassistema: a inteligibilidade mútua é elevada e a fronteira entre eles é, em boa medida, uma convenção sociopolítica. Do ponto de vista das normas oficiais vigentes, são duas línguas, com ortografias, academias e instituições próprias. As duas afirmações não se contradizem — apenas medem coisas diferentes.

O que é certo é que a separação não foi um acontecimento, mas um processo de séculos, desencadeado por uma fronteira de 1143 e consumado pela história posterior de cada lado dela. Compreender o português moderno — e a sua relação, sempre presente, com o galego — passa por reconhecer essa origem comum e o ponto em que os caminhos se bifurcaram.

Fontes

  1. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  2. Ivo Castro. Introdução à História do Português . Edições Colibri (2006)
  3. Ramón Mariño Paz. Historia da lingua galega . Sotelo Blanco (1998)
  4. Maiden, Smith & Ledgeway (eds.). The Cambridge History of the Romance Languages . Cambridge University Press (2013)