História 史 · 09
Cantigas medievais
A lírica trovadoresca galego-portuguesa — cantigas de amor, de amigo e de escárnio e maldizer — e os cancioneiros que a preservaram, o primeiro grande monumento literário da língua.
ptAs cantigas medievais constituem o primeiro grande monumento literário da língua portuguesa. Compostas em galego-português entre, sensivelmente, os finais do século XII e meados do século XIV, formam um corpus de cerca de mil seiscentas e oitenta composições, da autoria de uns cento e cinquenta poetas de toda a Península e mesmo de fora dela. Durante mais de um século, esta foi a língua obrigatória da poesia lírica ibérica — escrevessem nela poetas galegos, portugueses, leoneses ou castelhanos.
Trovadores, jograis e segréis
A poesia trovadoresca não era texto para ler em silêncio: era canto, executado ao som de instrumentos perante uma corte. Distinguiam-se três tipos de autor ou intérprete, hierarquizados pela condição social. O trovador era o fidalgo que compunha por prazer e prestígio, sem cobrar; o jogral era o profissional de origem humilde que cantava e tocava por dinheiro, executando muitas vezes obra alheia; o segrel ocupava uma posição intermédia, cavaleiro de menores posses que vivia, em parte, do seu ofício poético. O modelo chegou ao noroeste peninsular por via do trovadorismo occitânico da Provença, mas o resultado foi uma escola com fisionomia própria.
A Arte de Trovar — tratado fragmentário que abre um dos cancioneiros — fixa os géneros e a terminologia técnica desta escola. São três os géneros maiores.
Os três géneros
Cantiga de amor
Na cantiga de amor, um eu masculino exprime o sofrimento amoroso — a coita — que lhe causa uma dama idealizada e inacessível, a senhor (forma então gramaticalmente feminina). É o género mais devedor da fin’amors provençal: a mulher surge como ser superior, raramente individualizado, e o amante submete-se ao serviço amoroso sem esperança de correspondência. D. Dinis, o mais prolífico dos nossos trovadores com cerca de 137 cantigas, tinha plena consciência desta filiação.
Quer'eu en maneira de proençal / fazer agora un cantar d'amor, / e querrei muit'i loar mia senhor / a que prez nen fremosura non fal.
D. Dinis abre uma cantiga de amor declarando que vai compor «à maneira provençal» e louvar a sua senhor, a quem não falta valor nem formosura.
Cantiga de amigo
A cantiga de amigo é a grande originalidade da escola: não tem paralelo direto na Provença e mergulha raízes na lírica popular autóctone. Aqui a voz é feminina — uma jovem fala do amigo, o namorado ausente, dirigindo-se à mãe, às irmãs, às amigas ou aos elementos da natureza (o mar, as ondas, as flores, um cervo). Apesar da voz feminina, os autores eram homens. Distinguem-se subtipos pelo cenário: barcarolas ou marinhas (junto ao mar), bailadas (de dança), cantigas de romaria (numa peregrinação) e alvas (o encontro ao amanhecer).
Sedia-m'eu na ermida de San Simion / e cercaron-mi as ondas, que grandes son. / Eu atendendo o meu amigo, / eu atendendo o meu amigo!
Mendinho, na sua única cantiga conhecida: a moça, sozinha na ermida cercada pelas ondas crescentes, espera o amigo — uma das mais belas da tradição.
Cantiga de escárnio e maldizer
O terceiro género é satírico, e os preceptistas medievais distinguiam dois graus. Na cantiga de escárnio, a crítica faz-se por palavras cubertas — alusão velada, equívoco, ambiguidade, sem nomear o visado. Na cantiga de maldizer, o ataque é direto e nomeado, podendo descer ao insulto cru e à obscenidade. Os alvos iam de damas e nobres a outros jograis, passando por costumes, hipocrisias e escândalos da corte.
Ai, dona fea, fostes-vos queixar / que vos nunca louv'[o] meu cantar; / [...] / e vedes como vos quero loar: / dona fea, velha e sandia!
João Garcia de Guilhade promete «louvar» a dama — para a cobrir de injúrias: «feia, velha e doida». O elogio às avessas é o motor do escárnio.
A arte de trovar
Tecnicamente, distinguiam-se as cantigas de refrão (com estribilho repetido) e as de mestria (sem refrão, tidas por mais eruditas). O traço formal mais característico, sobretudo na cantiga de amigo, é o paralelismo: as estrofes repetem-se aos pares, variando apenas a palavra final de cada verso, muitas vezes por mera substituição de uma rima ou de um sinónimo. A esse recurso associa-se o leixa-pren (“deixa e toma”): o segundo verso de um par de estrofes é retomado como primeiro verso do par seguinte, fazendo o poema avançar em espiral.
Levantou-s'a velida, / levantou-s'a louçana, / vai lavar cabelos / na fontana fria. / Leda dos amores, / dos amores leda.
Bailada de D. Dinis: «velida» e «louçana» (formosa, garbosa) alternam num desenho paralelístico em que a repetição é a própria música do texto.
Os cancioneiros
Quase todo o corpus profano nos chegou através de três grandes coletâneas manuscritas, os cancioneiros. Nenhum é o original: o mais antigo é uma cópia de finais do século XIII, e os dois maiores são apógrafos italianos do Renascimento, mandados copiar no círculo do humanista Angelo Colocci a partir de um modelo hoje perdido — provavelmente o Livro das Cantigas do conde D. Pedro de Barcelos, filho de D. Dinis.
| Cancioneiro | Onde se conserva | Cópia | Conteúdo |
|---|---|---|---|
| Cancioneiro da Ajuda | Biblioteca da Ajuda, Lisboa | finais do séc. XIII | ~310 cantigas, quase só de amor; iluminado e inacabado |
| Cancioneiro da Biblioteca Nacional (ex-Colocci-Brancuti) | BNP, Lisboa | Itália, c. 1525 | ~1560 cantigas, os três géneros; inclui a Arte de Trovar |
| Cancioneiro da Vaticana | Biblioteca Apostólica Vaticana, Roma | Itália, séc. XVI | ~1200 cantigas, os três géneros |
A música
A cantiga era indissociável da melodia, mas quase toda a música se perdeu. Sobrevivem dois testemunhos preciosos. O Pergaminho Vindel, redescoberto em 1914, conserva sete cantigas de amigo de Martim Codax, seis delas com a respetiva pauta — o único registo musical extenso da lírica profana galego-portuguesa. O Pergaminho Sharrer, identificado em 1990, traz fragmentos de sete cantigas de amor de D. Dinis, igualmente com música. São os fios ténues que ainda nos deixam imaginar como soava esta poesia.
Decadência e legado
A escola entrou em declínio depois da morte de D. Dinis (1325), à medida que o modelo trovadoresco se esgotava e o castelhano ganhava terreno como língua de cultura na corte. Mas o seu peso fundador é imenso: as cantigas atestam a língua medieval numa fase decisiva e fixam motivos — o mar, a ausência, a coita, a saudade antes do nome — que atravessam toda a poesia portuguesa posterior. Quando os manuscritos foram redescobertos no século XIX, devolveram à língua a memória da sua primeira voz lírica.
Fontes
- Trovadores e Jograis. Introdução à Poesia Medieval Galego-Portuguesa . Caminho (2002)
- Cantigas d'Escarnho e de Mal Dizer dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses . Galaxia (1970)
- Depois do Espectáculo Trovadoresco. A Estrutura dos Cancioneiros Peninsulares . Edições Colibri (1994)
- Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa . Caminho (1993)