Literatura 詩 · 02

Literatura medieval e os cancioneiros

A lírica trovadoresca galego-portuguesa dos séculos XIII e XIV — cantigas de amor, de amigo e de escárnio — e os três grandes cancioneiros que a preservaram.

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A primeira grande literatura escrita em galego-português não é narrativa nem religiosa: é lírica. Entre, sensivelmente, o final do século XII e meados do século XIV, as cortes do noroeste peninsular cultivaram uma poesia cantada — a cantiga — que se tornou o prestigiado veículo da expressão amorosa e satírica em quase toda a Península Ibérica. Esse corpus, hoje conhecido por lírica trovadoresca galego-portuguesa, chegou até nós graças a um punhado de manuscritos: os cancioneiros.

A chegada do trovar

A moda de trovar nasceu na Occitânia (o sul da actual França), onde, desde o início do século XII, os trovadores compunham em provençal uma poesia cortês assente na fin’amors — o amor idealizado pela dama. Por via dos caminhos de Santiago, das cortes e das alianças dinásticas, esse modelo penetrou na Península e encontrou no galego-português a sua língua de eleição. Por mais de um século, mesmo poetas castelhanos compuseram a sua lírica profana neste idioma: a koiné poética da Península era galego-portuguesa.

Os três géneros

A poética medieval — conservada de forma fragmentária na Arte de Trovar que abre um dos cancioneiros — organiza o corpus em três géneros maiores:

  • cantiga de amor — voz masculina; o trovador lamenta a coita (o sofrimento amoroso) que lhe causa uma senhor inacessível, na esteira directa da tradição provençal;
  • cantiga de amigo — voz feminina, de raiz autóctone e sem paralelo na Occitânia; uma jovem fala do seu amigo (o namorado) à mãe, às amigas ou aos elementos da natureza;
  • cantiga de escárnio e maldizer — sátira pessoal e social, da alusão velada (escárnio) ao insulto aberto (maldizer).

Ai flores, ai flores do verde pino, / se sabedes novas do meu amigo? / Ai Deus, e u é?

D. Dinis, cantiga de amigo: a donzela interroga as flores do pinheiro verde sobre o seu amado — «sabeis novas dele? Ai Deus, e onde está?».

Trovadores, jograis e segréis

A composição e a execução das cantigas distribuíam-se por figuras de estatuto distinto. O trovador era, em rigor, o autor de origem nobre que compunha por prazer e prestígio; o jogral, o intérprete profissional que cantava e tocava, muitas vezes de corte em corte; o segrel, um poeta-cantor que vivia do seu ofício mas aspirava à dignidade do trovador. Cantavam ainda as soldadeiras, mulheres ligadas ao espectáculo — a mais célebre, Maria Balteira, é alvo recorrente das cantigas de escárnio.

Forma e música

A cantiga era, por definição, texto para ser cantado. Distinguiam-se as de refrão (com estribilho repetido a cada estrofe) das de mestria (sem refrão, tecnicamente mais exigentes). As cantigas de amigo recorrem com frequência ao paralelismo: estrofes que repetem a anterior com leve variação, encadeadas pela técnica do leixa-pren — o último verso de um par de estrofes regressa como primeiro do par seguinte. O resultado é uma estrutura circular, quase incantatória.

Ondas do mar de Vigo, / se vistes meu amigo? / E ai Deus, se verrá cedo!

Martim Codax, uma das sete cantigas de amigo conservadas, com notação musical, no Pergaminho Vindel (séc. XIII–XIV).

Da música, quase tudo se perdeu. Sobrevivem apenas dois testemunhos da lírica profana com notação: o Pergaminho Vindel, com seis das sete cantigas de Martim Codax anotadas, e o Pergaminho Sharrer, fragmento de cantigas de amor de D. Dinis identificado apenas em 1990.

Os cancioneiros

O grosso do corpus — mais de mil e seiscentas cantigas profanas, atribuídas a cerca de uma centena e meia de autores — sobrevive em três grandes coletâneas:

CancioneiroSiglaDataçãoConteúdo
Cancioneiro da AjudaAfinais do séc. XIIIsobretudo cantigas de amor; cópia régia, com iluminuras inacabadas
Cancioneiro da Biblioteca NacionalBséc. XVIa recolha mais ampla; cópia italiana mandada fazer no círculo de Angelo Colocci
Cancioneiro da VaticanaVséc. XVIaparentado de B; conservado na Biblioteca Apostólica Vaticana

Os dois grandes apógrafos (B e V) são cópias quinhentistas feitas em Itália, no ambiente humanista de Colocci, a partir de um antecedente hoje perdido. Sem essa curiosidade renascentista, a maior parte da poesia ter-se-ia desvanecido.

A lírica religiosa seguiu um caminho próprio: as Cantigas de Santa Maria — mais de quatrocentas composições marianas reunidas, em galego-português, sob o patrocínio de Afonso X de Castela (1221–1284) — conservaram-se em códices ricamente iluminados e com a notação musical praticamente completa.

Auge e ocaso

O ponto alto da escola coincide com o reinado de D. Dinis (1279–1325), ele próprio o trovador de obra mais vasta que se conhece, com mais de uma centena de cantigas. Foi o seu filho bastardo, D. Pedro, conde de Barcelos, uma das figuras associadas à compilação e organização deste legado. Ao longo do século XIV, porém, o gosto cortês muda: a lírica galego-portuguesa cede lugar à poesia castelhana de cancioneiro e à prosa, e a tradição extingue-se como prática viva.

Legado

A poesia trovadoresca fixou, muito cedo, uma língua literária de notável flexibilidade e fundou temas — a saudade do amigo ausente, a paisagem como confidente, a ironia mordaz — que atravessam toda a literatura portuguesa posterior. Camões leu-a; o Romantismo redescobriu-a; e o século XX devolveu-lhe o lugar central que merece nas origens da lírica peninsular.

Fontes

  1. Giuseppe Tavani. Trovadores e Jograis. Introdução à Poesia Medieval Galego-Portuguesa . Caminho (2002)
  2. Manuel Rodrigues Lapa. Lições de Literatura Portuguesa: Época Medieval . Coimbra Editora (1981)
  3. António Resende de Oliveira. Depois do Espectáculo Trovadoresco: a estrutura dos cancioneiros peninsulares . Edições Colibri (1994)