Literatura 詩 · 04
Luís de Camões
O poeta maior da língua portuguesa — soldado e viajante, autor de uma lírica intensa e da epopeia Os Lusíadas —, a ponto de o próprio idioma ser chamado «a língua de Camões».
ptLuís Vaz de Camões [luˈiʒ ˈvaʒ dɨ kɐˈmõjʃ] (c. 1524 – 10 de junho de 1580) é, por consenso secular, o maior poeta da língua portuguesa. Reuniu numa só obra a lírica renascentista mais alta escrita em português e a única epopeia clássica do idioma, Os Lusíadas (1572). O seu prestígio é tal que o próprio português é correntemente designado «a língua de Camões» — uma metonímia que faz de um autor o emblema de toda uma língua.
Uma vida de armas e de viagens
A biografia de Camões é, em larga medida, conjetural: faltam documentos seguros e abundam as lendas. Terá nascido por volta de 1524, talvez em Lisboa, no seio de uma família da pequena nobreza. Recebeu sólida formação humanística — conhecia os clássicos latinos, a mitologia, a poesia italiana de Petrarca e Dante — mas a sua vida foi a de um soldado pobre, não a de um cortesão tranquilo.
Perdeu a vista do olho direito ao serviço militar no Norte de África, em Ceuta. De regresso a Lisboa, uma rixa levou-o à prisão; libertado, partiu para o Oriente, ao serviço da Coroa. Viveu em Goa, capital da Índia portuguesa, e em Macau, e percorreu os mares do Império numa errância de quase duas décadas. Da viagem nasceu a mais célebre lenda camoniana: a de que, num naufrágio na foz de um rio da Indochina, salvou a nado o manuscrito de Os Lusíadas, erguendo-o acima das águas. Regressou a Lisboa em 1570 e morreu na pobreza dez anos depois.
| Data | Acontecimento |
|---|---|
| c. 1524 | Nascimento (local incerto) |
| anos 1540 | Formação humanística; vida na corte |
| 1553 | Parte para a Índia |
| 1556–1558 | Estada em Macau e no Oriente |
| 1570 | Regresso a Lisboa |
| 1572 | Publicação de Os Lusíadas |
| 1580 | Morte, a 10 de junho |
A lírica: o soneto e a redondilha
Antes e além da epopeia, Camões é um grande poeta lírico. A sua obra menor — dispersa, publicada postumamente e de atribuição por vezes incerta — abrange dois registos. Por um lado, a medida nova de inspiração italiana: o soneto petrarquista, a canção, a elegia, em decassílabos de fatura renascentista. Por outro, a medida velha peninsular: as redondilhas em versos curtos, herdeiras da tradição do cancioneiro.
Os seus sonetos contam-se entre os mais perfeitos da poesia europeia do século XVI. Neles, o amor é vivido como contradição e paradoxo, e a mudança das coisas é tema constante.
Amor é fogo que arde sem se ver; / é ferida que dói e não se sente; / é um contentamento descontente; / é dor que desatina sem doer.
Quarteto inicial de um dos sonetos mais conhecidos: o amor definido por uma sucessão de paradoxos.
Os Lusíadas: a epopeia
Impressa em Lisboa, em 1572, Os Lusíadas é a epopeia nacional portuguesa. Compõe-se de dez cantos, em oitava rima (estrofes de oito decassílabos com esquema ABABABCC), num total de mais de mil estrofes. O tema central é a viagem de Vasco da Gama à Índia (1497–1499), mas em torno dela cabe toda a história de Portugal, narrada como gesta de um povo — os Lusíadas, «filhos de Luso».
As armas e os barões assinalados / Que da Ocidental praia Lusitana, / Por mares nunca de antes navegados, / Passaram ainda além da Taprobana...
Os versos de abertura da epopeia, decalcados do início da Eneida de Virgílio («As armas e o varão...»).
Camões organiza a matéria histórica segundo o modelo da epopeia clássica: invocação, proposição, narração e um aparato mitológico em que os deuses do Olimpo decidem o destino dos navegadores — Vénus protege os portugueses, Baco opõe-se-lhes. Dela se destacam episódios que entraram no imaginário coletivo: a morte de Inês de Castro, o gigante Adamastor no Cabo das Tormentas, o Velho do Restelo — voz cética que adverte contra a glória —, e a Ilha dos Amores.
«A língua de Camões»
Que uma língua se identifique com um poeta não é evidente. Acontece com o português em parte porque Os Lusíadas fixou, num momento decisivo, um modelo de língua literária culta: rica em latinismos, flexível na sintaxe, capaz de tom épico e de ternura lírica. Camões não inventou a norma, mas conferiu-lhe um prestígio duradouro, fazendo da poesia portuguesa interlocutora de pleno direito da italiana e da latina.
A obra é também testemunho do português quinhentista, ainda anterior a muitas mudanças fonéticas e ortográficas posteriores. Formas como spreita, fermoso ou grafias hoje abandonadas convivem com vocabulário que permanece vivo, e a leitura do texto original exige edições anotadas.
O 10 de Junho e a posteridade
Camões morreu na obscuridade, mas a posteridade fez dele o poeta nacional. A data da sua morte, 10 de junho, é hoje o feriado nacional de Portugal — o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas —, celebrado também junto da diáspora. Em 1880, no terceiro centenário, os seus restos foram trasladados simbolicamente para o Mosteiro dos Jerónimos, onde repousam junto aos de Vasco da Gama.
A sua sombra estende-se sobre toda a literatura posterior: os românticos reivindicaram-no, Fernando Pessoa quis, na Mensagem, dar-lhe sequência, e o instrumento maior da difusão internacional da língua — o Instituto Camões — leva o seu nome. Poucos autores se confundem tão inteiramente com o idioma que escreveram.
Fontes
- Dicionário de Luís de Camões . Caminho (2011)
- Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular . Portugália (1969)
- Luís de Camões . Editorial Presença (1985)