Literatura 詩 · 05

Os Lusíadas

A epopeia de Luís de Camões (1572): dez cantos em oitava rima que celebram a viagem de Vasco da Gama à Índia e fazem da língua portuguesa um monumento literário do Renascimento.

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Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões (c. 1524–1580), é a epopeia nacional portuguesa e uma das grandes obras da literatura do Renascimento europeu. Impressa em Lisboa em 1572, narra a viagem marítima de Vasco da Gama à Índia (1497–1499), tomando-a como pretexto para cantar toda a história e o destino do povo português. O próprio título — os Lusíadas, “os filhos de Luso”, o mítico fundador da Lusitânia — anuncia o desígnio: não um herói, mas um povo inteiro elevado a matéria de epopeia.

Uma epopeia clássica

Camões escreve à maneira dos antigos. O modelo é a Eneida de Virgílio — e, por trás dela, Homero —, mas reinventado para celebrar uma gesta moderna e verídica: a abertura do caminho marítimo para o Oriente. A obra obedece às convenções do género épico, que organiza em quatro partes herdadas da tradição:

ParteFunçãoLocalização
Proposiçãoanúncio do tema e dos heróisCanto I, est. 1–3
Invocaçãoapelo às Tágides, as ninfas do TejoCanto I, est. 4–5
Dedicatóriaoferta ao rei D. SebastiãoCanto I, est. 6–18
Narraçãoa viagem e a história de Portugalaté ao Canto X

São dez cantos, num total de 1102 estrofes. Cada estrofe é uma oitava rima (oito versos com o esquema de rima ABABABCC), e cada verso um decassílabo heroico — dez sílabas métricas com acento tónico obrigatório na sexta e na décima. A elisão entre vogais é constante, e é dela que depende a contagem:

As / ar/mas_e_os / ba/RÕES / as/si/na/LA/dos

A elisão funde «mas e os» numa só sílaba métrica; os acentos caem na 6.ª (rões) e na 10.ª (la), definindo o ritmo do decassílabo camoniano.

A viagem e os deuses

Sobre o enredo histórico — a armada de Gama a contornar África, a escala em Moçambique e Melinde, a chegada a Calecute — Camões sobrepõe uma máquina mitológica de deuses greco-romanos. Vénus e Marte protegem os Portugueses; Baco, senhor do Oriente, conspira contra eles. Este maravilhoso pagão convive, sem escândalo para a época, com a fé cristã dos navegadores: os deuses são alegorias, forças que dramatizam a empresa.

A narrativa avança em vários planos que se entrelaçam: a viagem propriamente dita; a história de Portugal, contada por Gama ao rei de Melinde; o plano mitológico do concílio dos deuses; e as reflexões do poeta, que interrompe a ação para meditar sobre a glória, a cobiça e a condição humana. Logo na abertura, Camões declara que a façanha real ultrapassa toda a ficção antiga:

Cessem do sábio Grego e do Troiano / As navegações grandes que fizeram; / Cale-se de Alexandro e de Trajano / A fama das vitórias que tiveram.

Canto I, est. 3 — que se calem Ulisses e Eneias: a viagem dos Portugueses excede os feitos cantados pela Antiguidade.

Os grandes episódios

Quatro episódios destacam-se pela força poética e fixaram-se na memória cultural portuguesa:

  • Inês de Castro (Canto III) — a trágica história de amor e morte da amante de D. Pedro, assassinada por razão de Estado; a célebre exclamação «Estavas, linda Inês, posta em sossego…» abre uma das passagens mais comovidas da língua.
  • O Velho do Restelo (Canto IV) — à partida da armada, um ancião lança uma advertência grave contra a ambição e os perigos da expansão, voz crítica dentro do próprio poema heroico.
  • O Gigante Adamastor (Canto V) — a personificação do Cabo das Tormentas, que surge das trevas para ameaçar os navegadores; uma das maiores invenções da poesia europeia.
  • A Ilha dos Amores (Canto IX) — recompensa alegórica oferecida por Vénus aos heróis, em que o prazer simboliza a imortalidade da fama.

Ó glória de mandar! Ó vã cobiça / Desta vaidade a quem chamamos Fama!

O Velho do Restelo (Canto IV, est. 95): o reverso crítico da epopeia, a denúncia da ambição que move a empresa.

A própria obra encena a sua despedida. No fecho do Canto X, exausto, o poeta suspende o canto: «No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho / Destemperada e a voz enrouquecida» — não da glória, mas de cantar a um país que sente surdo ao seu mérito.

A língua de Camões

Para a história do português, Os Lusíadas é mais do que um poema: é um monumento da língua. Tanto assim que «a língua de Camões» se tornou, por metonímia, o próprio nome do idioma. A obra ajudou a fixar a norma literária do português quinhentista, no momento em que a língua se afirmava como veículo de alta cultura, capaz de rivalizar com o latim e o castelhano.

O estilo é deliberadamente latinizante. Camões cultiva o hipérbato — a inversão da ordem natural das palavras, à imagem da sintaxe latina —, multiplica os cultismos e os epítetos clássicos, e constrói períodos longos e arquitetónicos. Dele herdou o português literário boa parte do seu repertório elevado.

As armas e os barões assinalados / Que da Ocidental praia Lusitana, / Por mares nunca de antes navegados, / Passaram ainda além da Taprobana…

A estrofe inicial. O objeto («as armas e os barões») precede o verbo distante («Passaram»): o hipérbato à latina, marca da dicção épica camoniana.

Vale a pena ouvir como soam, em português europeu, alguns dos vocábulos emblemáticos do poema:

  • barões [bɐˈɾõjʃ] — aqui no sentido antigo de “varões”, homens ilustres, e não de título nobiliárquico;
  • Lusíadas [luˈzi.ɐðɐʃ] — os descendentes de Luso;
  • Taprobana [tɐpɾuˈβɐnɐ] — nome antigo da ilha de Ceilão (Sri Lanka), aqui marco extremo do Oriente conhecido.

Posteridade

A influência d’Os Lusíadas atravessa toda a literatura de língua portuguesa, da Mensagem de Fernando Pessoa — diálogo explícito com a epopeia — à reflexão crítica sobre o império nos autores do século XX. Camões foi traduzido cedo e amplamente, e a sua figura tornou-se símbolo nacional.

A data da sua morte, 10 de junho, é hoje o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas: poucas línguas escolhem para feriado nacional o aniversário de um poeta. O gesto resume o lugar singular d’Os Lusíadas — uma obra que é, ao mesmo tempo, cume literário e fundação simbólica de uma identidade linguística.

Fontes

  1. António José Saraiva & Óscar Lopes. História da Literatura Portuguesa . Porto Editora (1955)
  2. Frank Pierce (ed.). Os Lusíadas (edição crítica e comentário) . Clarendon Press (1973)
  3. Hernâni Cidade. Luís de Camões: O Épico . Livraria Bertrand (1950)