Literatura 詩 · 01
A literatura em português — uma visão de conjunto
Oito séculos de literatura em português, das cantigas trovadorescas ao romance contemporâneo: um mapa da tradição e das suas grandes vozes, em Portugal, no Brasil e em África.
ptA literatura em português tem uma das mais longas histórias contínuas entre as línguas românicas: começa no início do século XIII, com a lírica trovadoresca, e estende-se, sem interrupção, até à produção viva de hoje em três continentes. Esta secção percorre essa tradição — não como uma lista de nomes, mas como uma sucessão de momentos em que a língua encontrou novas formas de dizer o mundo.
Da Idade Média ao Renascimento
A tradição literária portuguesa nasce com as cantigas dos cancioneiros, a grande lírica em galego-português dos séculos XIII e XIV. No teatro, é Gil Vicente (c. 1465 – c. 1536) quem dá voz dramática ao trânsito entre o medievo e o moderno, num registo que vai do auto religioso à farsa satírica.
O ponto mais alto desta primeira maturidade é Luís de Camões (c. 1524–1580). A sua lírica renovou a poesia portuguesa segundo o modelo italiano, mas é sobretudo Os Lusíadas (1572) — a epopeia da expansão marítima — que fixou a língua num monumento de referência permanente.
As armas e os barões assinalados / Que da ocidental praia lusitana...
Os Lusíadas, Canto I — o verso de abertura, entre os mais citados de toda a literatura portuguesa.
Do Barroco às Luzes
Os séculos XVII e XVIII trazem o Barroco, cuja prosa encontra o seu maior expoente no Padre António Vieira (1608–1697), pregador e missionário cujos Sermões e cartas combinam engenho retórico e intervenção política. Foi também uma época de poesia erudita, academias e, mais tarde, do esforço neoclássico da Arcádia Lusitana.
O século XIX: Romantismo e Realismo
O Romantismo introduz a literatura em português na modernidade: Almeida Garrett (1799–1854), com Frei Luís de Sousa e Viagens na Minha Terra, e Alexandre Herculano (1810–1877), fundador do romance histórico e da historiografia nacional, são as suas figuras maiores.
A reação realista veio com a Geração de 70 e o seu romancista central, Eça de Queirós (1845–1900), cuja ironia e poder de observação social, em obras como Os Maias, fizeram do romance um instrumento de crítica da sociedade. Na poesia, Cesário Verde (1855–1886) abriu caminho a uma sensibilidade urbana e moderna.
O século XX: Pessoa e o Modernismo
Toda a poesia portuguesa do século XX gravita em torno de Fernando Pessoa (1888–1935) e dos seus heterónimos — Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos —, autores fictícios com biografia, estilo e visão do mundo próprios. Em torno da revista Orpheu (1915) e, mais tarde, de Presença, consolidou-se um Modernismo que redefiniu o que a poesia podia ser.
Na segunda metade do século, a prosa portuguesa volta a ganhar projeção internacional, culminando na atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago (1922–2010) em 1998 — até hoje o único concedido à língua portuguesa.
Uma língua, várias literaturas
A literatura em português é, há muito, plural. A literatura brasileira, do Romantismo a Machado de Assis e ao Modernismo de 1922, desenvolveu uma tradição autónoma e poderosa. As literaturas africanas de língua portuguesa — de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe — afirmaram-se sobretudo a partir de meados do século XX, com nomes como Agostinho Neto, José Craveirinho, Mia Couto ou José Eduardo Agualusa.
O fio condutor
Atravessa estes oito séculos uma língua que se foi moldando à medida que servia a poesia, o teatro, o sermão e o romance. Conhecer esta literatura é, em larga medida, conhecer o próprio português: o seu ritmo, o seu vocabulário e a sua capacidade de nomear a experiência — incluindo aquela palavra, saudade, que tantos autores fizeram sua.
Fontes
- História da Literatura Portuguesa . Porto Editora (1955)
- A Companion to Portuguese Literature . Tamesis (2009)
- História Crítica da Literatura Portuguesa . Editorial Verbo (1993)