Literatura 詩 · 08

Realismo e Eça de Queirós

Como o Realismo entrou em Portugal pela Geração de 70 e como Eça de Queirós fez do romance um instrumento de análise social — e renovou em definitivo a prosa portuguesa.

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O Realismo é o movimento que, a partir de meados do século XIX, propõe substituir a idealização romântica por uma observação atenta e crítica da sociedade. Em Portugal, entra pela mão da Geração de 70, e tem no romancista José Maria de Eça de Queirós (1845–1900) a sua figura maior — aquele que transformou o romance num instrumento de diagnóstico social e, ao fazê-lo, renovou de raiz a língua literária portuguesa.

Do Romantismo ao Realismo

Quando Eça começa a publicar, a literatura portuguesa vivia ainda sob o signo do Romantismo de Garrett e Herculano. A nova geração, formada em Coimbra e atenta ao que se fazia em França — Flaubert, Zola, Balzac — e às ideias positivistas de Comte, Taine e Proudhon, recusava o sentimentalismo, a evasão histórica e a retórica grandiloquente. Em seu lugar reclamava uma arte voltada para o presente, capaz de analisar os costumes e de denunciar a hipocrisia das instituições.

Dois acontecimentos balizam esta viragem: a Questão Coimbrã (1865–1866), polémica em que os jovens, com Antero de Quental à frente, atacaram o establishment romântico; e as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense (1871), onde Eça apresentou o Realismo «como nova expressão da arte». O programa era claro: observar, documentar, criticar.

A obra de Eça: o romance como análise

Diplomata de carreira — cônsul em Havana, Newcastle, Bristol e Paris —, Eça escreveu sempre com o olhar de quem vê Portugal de fora. A sua obra desenha um vasto retrato crítico da sociedade portuguesa: o clero provinciano, a burguesia ociosa, a vida política e mundana de Lisboa.

«Naquele tempo o Bonifácio, na sua candura, dizia que Lisboa era a primeira cidade do mundo. Lisboa não passava de uma aldeia grande, vaidosa e pobre.»

A ironia queirosiana, marca de estilo: o narrador desmonta, com uma frase, a auto-imagem da sociedade que retrata.

Os romances maiores escalonam-se ao longo de duas décadas, do realismo de combate à síntese mais ampla de Os Maias:

ObraDataAlvo / tema
O Crime do Padre Amaro1875–1880o clero e a moral provinciana
O Primo Basílio1878o adultério e a vacuidade da burguesia
A Relíquia1887a hipocrisia religiosa, em chave satírica
Os Maias1888a decadência de uma família e de um país

Os Maias, subintitulado Episódios da Vida Romântica, é o seu romance mais ambicioso: através de três gerações da família Maia, Eça compõe o diagnóstico de um Portugal incapaz de se modernizar. A ironia, antes corrosiva, ganha aqui uma melancolia que já aponta para além do Realismo estrito.

A renovação da prosa

Para a história da língua, o contributo de Eça é tão decisivo como o seu programa social. Contra a prosa solene e latinizante da tradição, ele forja um estilo ágil, plástico e coloquial, próximo do ritmo da fala, rico em diálogo vivo e em pormenor sensorial. É um dos primeiros a usar com mestria o discurso indireto livre, que funde a voz do narrador com o pensamento das personagens e permite a ironia sem comentário explícito.

«Tudo lhe parecia agora admirável: a cidade, o hotel, o jantar, a própria vida.»

No discurso indireto livre, é o entusiasmo da personagem que fala — mas é o narrador que, em surdina, o avalia.

Esta prosa — clara, irónica, finamente trabalhada — tornou-se um modelo duradouro: boa parte da ficção portuguesa do século XX, de Aquilino a Saramago, dialoga com a lição queirosiana.

Realismo e Naturalismo

Convém distinguir dois rótulos vizinhos. O Realismo privilegia a observação verosímil da sociedade; o Naturalismo, formulado por Zola, acrescenta-lhe uma ambição «científica»: explicar o comportamento humano pela hereditariedade e pelo meio. Eça aproximou-se do naturalismo sobretudo em O Primo Basílio e na primeira versão de O Crime do Padre Amaro, mas a sua arte foi cedo ultrapassando o determinismo rígido, temperando a tese com humor, fantasia e ternura.

Legado

Eça de Queirós morreu em Paris em 1900, deixando vários romances inéditos, depois publicados — A Ilustre Casa de Ramires (1900) e A Cidade e as Serras (1901), em que a crítica cede lugar a um reencontro sereno com o campo português. Mais do que um cronista de costumes, é hoje lido como o fundador do romance moderno em português: aquele que ensinou a língua a ser, ao mesmo tempo, instrumento de análise social e obra de arte.

Fontes

  1. António José Saraiva & Óscar Lopes. História da Literatura Portuguesa . Porto Editora (1955)
  2. Carlos Reis. Estudos Queirosianos. Ensaios sobre Eça de Queirós e a sua Obra . Editorial Presença (1999)
  3. A. Campos Matos (org.). Dicionário de Eça de Queiroz . Caminho (1988)
  4. João Gaspar Simões. Eça de Queirós. O Homem e o Artista . Dois Continentes (1945)