Literatura 詩 · 11

Modernismo e Presença

Da revolução de Orpheu (1915) às vanguardas, à arte viva da Presença e à viragem social do Neo-Realismo — o século XX da literatura portuguesa contado pelas suas revistas.

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O Modernismo português não foi um movimento unitário, mas uma sucessão de gerações e ruturas que, ao longo de três décadas, se fizeram sobretudo em torno de revistas. De Orpheu (1915) à Presença (1927) e às folhas do Neo-Realismo, cada uma destas publicações definiu uma estética, travou polémicas e consagrou — ou recusou — os seus autores. Conhecer este período é, em boa medida, ler a história das suas revistas.

Antes de Orpheu: A Águia e o saudosismo

No início do século, a vida literária organizava-se em torno da revista A Águia, órgão do movimento da Renascença Portuguesa (Porto, a partir de 1910). Aí floresceu o saudosismo de Teixeira de Pascoaes, que via na saudade a essência da alma nacional. Foi também nas suas páginas que um jovem Fernando Pessoa estreou a crítica, anunciando, em 1912, a vinda iminente de um “super-Camões”. O gesto era programático: a geração seguinte iria romper com o lirismo nostálgico e procurar uma arte radicalmente nova.

Orpheu (1915): o escândalo fundador

A rutura deu-se com Orpheu, revista trimestral cujo primeiro número surgiu em março de 1915. Dirigida por Luís de Montalvor e Ronald de Carvalho, reuniu Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, José de Almada Negreiros e outros. Saíram apenas dois números — um terceiro, já composto, não chegou então às bancas por falta de meios —, mas o impacto foi enorme: a imprensa reagiu com escândalo e troça, e a palavra orfismo tornou-se sinónimo de extravagância.

Foi em Orpheu que Pessoa publicou a Ode Triunfal de Álvaro de Campos e o poema dramático O Marinheiro, e Sá-Carneiro alguns dos seus versos mais inquietos. A morte deste, por suicídio em Paris, em 1916, com apenas 25 anos, deu cedo ao grupo a sua figura trágica e a aura de geração maldita.

As vanguardas: futurismo e manifestos

A energia de Orpheu prolongou-se numa série de ismos e manifestos. Pessoa ensaiou rótulos próprios — o Paulismo, o Interseccionismo, o Sensacionismo —, enquanto Almada Negreiros assumia a face mais combativa do Futurismo português. O seu Manifesto Anti-Dantas (1915), panfleto satírico contra o establishment literário, e a sua Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX tornaram-se peças célebres da provocação vanguardista.

Em 1917, o número único de Portugal Futurista — onde saiu o Ultimatum de Álvaro de Campos — foi apreendido pela polícia, encerrando a fase mais ruidosa do chamado primeiro modernismo.

A Presença (1927–1940): o segundo modernismo

Uma década depois, em Coimbra, surge a Presença — Folha de Arte e Crítica (1927–1940), a revista que define o segundo modernismo. Dirigida por José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca (mais tarde com Adolfo Casais Monteiro), a Presença não rompe com Orpheu: prolonga-o e canoniza-o. Coube-lhe, em larga medida, o reconhecimento crítico de Fernando Pessoa ainda em vida.

O seu programa, formulado por Régio, opunha a arte viva — sincera, original, expressão de uma personalidade — à arte morta do academismo e da imitação. Valorizava o individualismo, a introspeção psicológica e a primazia do criador sobre a doutrina. Saíram 54 números, e dela se afastaram, por divergência, nomes como Miguel Torga.

RevistaAnosLugarFiguras centrais
A Águia1910–PortoTeixeira de Pascoaes
Orpheu1915LisboaPessoa, Sá-Carneiro, Almada
Presença1927–1940CoimbraRégio, Gaspar Simões, Casais Monteiro
O Diabo / Vértice1934– / 1945–Lisboa / CoimbraRedol, Namora, Carlos de Oliveira

O Neo-Realismo: a viragem social

Nos finais da década de 1930, uma nova geração reage contra o que entende ser o psicologismo e o individualismo da Presença. Inspirado no materialismo histórico e na ficção social, o Neo-Realismo desloca o foco do eu para a sociedade, e faz da literatura um instrumento de denúncia das desigualdades — tudo isto sob a vigilância da censura do Estado Novo.

A sua afirmação dá-se em revistas como O Diabo, Sol Nascente e, mais tarde, Vértice, e sobretudo no romance. Gaibéus (1939), de Alves Redol, é geralmente tomado como o seu romance inaugural.

Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo.

Alves Redol, advertência de abertura a Gaibéus (1939) — uma declaração de programa do Neo-Realismo.

Seguiram-se nomes como Soeiro Pereira Gomes (Esteiros), Fernando Namora, Manuel da Fonseca e Carlos de Oliveira, e, na poesia, a coleção Novo Cancioneiro (1941–1944). Ferreira de Castro, com A Selva (1930), é tido como precursor da corrente.

Legado

Destas três décadas saiu o cânone da poesia portuguesa moderna — com Pessoa no centro — e uma tradição de prosa social que marcaria autores posteriores, de Vergílio Ferreira a José Saramago. As polémicas entre estética e intervenção, entre o eu e a sociedade, atravessam toda a literatura portuguesa do século XX e continuam a defini-la.

Fontes

  1. António José Saraiva & Óscar Lopes. História da Literatura Portuguesa . Porto Editora (1955)
  2. Fernando Cabral Martins (coord.). Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português . Caminho (2008)
  3. Mário Sacramento. Há uma Estética Neo-Realista? . Inova (1968)