Literatura 詩 · 10

Fernando Pessoa e os heterónimos

Como um único poeta de Lisboa se desdobrou numa multidão de autores — Caeiro, Reis, Campos — cada um com biografia, ideias e, sobretudo, uma língua própria.

pt

Fernando Pessoa (Lisboa, 1888–1935) é, por consenso quase unânime, o maior poeta português do século XX e uma das vozes maiores do modernismo europeu. A sua obra tem, porém, uma singularidade que não tem paralelo exato em nenhuma outra literatura: Pessoa não escreveu apenas em seu próprio nome, mas inventou uma constelação de poetas fictícios — os heterónimos — dotados de biografia, estética, ideias e, o que mais importa neste sítio, de uma língua distinta para cada um. Não foi por acaso que o apelido do autor significa, em português, pessoa: o homem que era muitos.

Um drama em gente

Educado em Durban, na então colónia britânica do Natal, Pessoa regressou a Lisboa em 1905 com uma rara fluência dupla — escreveu poesia em inglês e em português a vida inteira. Em vida publicou pouco: dispersou-se por revistas (Orpheu, 1915; Presença, a partir de 1927) e deu à estampa um único livro de poemas em português, Mensagem (1934). O resto — milhares de páginas — ficou guardado numa célebre arca, de onde a crítica continua, ainda hoje, a extrair texto.

O coração dessa obra é o que o próprio chamou um drama em gente: em vez de personagens em cena, autores que escrevem. Os três principais são Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. A par deles existe Bernardo Soares, o «semi-heterónimo» do Livro do Desassossego, e o próprio Pessoa — designado, por contraste, o ortónimo.

O «dia triunfal»

A génese é narrada pelo próprio numa carta de 13 de janeiro de 1935 ao poeta Adolfo Casais Monteiro, um dos documentos mais citados da literatura portuguesa. Pessoa data o nascimento de Caeiro de 8 de março de 1914: nesse «dia triunfal», diz, escreveu de um só fôlego perto de trinta poemas, sentindo ter posto «o mestre» a falar. A partir do mestre, surgiram os discípulos. A datação é, em rigor, parte do mito que Pessoa construiu em torno de si — os manuscritos apontam para um processo mais gradual —, mas é assim que ele quis que a história fosse contada.

Os três mestres

Cada heterónimo tem um estilo reconhecível à primeira leitura. A diferença não é apenas temática: é de vocabulário, sintaxe e dicção.

HeterónimoVoz e ideiasFormaVerso
Alberto Caeiroo «mestre»; anti-metafísico, vê o mundo sem o pensarclara, quase rural, sem adornoslivre
Ricardo Reismédico monárquico, epicurista estoico, herdeiro de Horáciolatinizante, hipérbatos, léxico eruditoodes, metro clássico
Álvaro de Camposengenheiro naval, futurista e depois desencantadotorrencial, exclamativa, prosaicalivre, longo

Alberto Caeiro

Caeiro (1889–1915 na ficção) é «o mestre» de todos, incluindo do próprio Pessoa. A sua poesia recusa a metafísica: as coisas valem por serem, não por significarem. A língua acompanha o programa — frases curtas, vocabulário comum, ausência deliberada de imagem rebuscada.

Eu nunca guardei rebanhos, / Mas é como se os guardasse.

Abertura de «O Guardador de Rebanhos» — o título é metáfora de uma poesia que se quer sem metáforas.

Ricardo Reis

Reis escreve odes à maneira de Horácio: a prosódia é medida, a sintaxe enrola-se em inversões (hipérbatos) e o vocabulário é culto e latino. Prega a serenidade e a aceitação do destino, um epicurismo temperado de estoicismo.

Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui.

Ode de Ricardo Reis — a ordem das palavras, deslocada, imita a do latim clássico.

Álvaro de Campos

Campos é o mais «moderno»: começa futurista, exaltando a máquina e a velocidade na «Ode Triunfal», e termina num desencanto íntimo. A sua dicção é a do verso livre longo, acumulativo, próximo de Walt Whitman — e abertamente coloquial.

Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Início de «Tabacaria» (1928), um dos grandes poemas do modernismo em português.

O ortónimo e Bernardo Soares

A poesia assinada Fernando Pessoa não é menos uma construção do que a dos heterónimos: é a do intelectual lúcido que sabe que sente fingindo. A arte poética que a resume é Autopsicografia.

O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.

«Autopsicografia» — o fingimento como verdade da arte, não como mentira.

Em prosa, a voz maior é a de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros em Lisboa e autor do Livro do Desassossego, montado pela crítica a partir de centenas de fragmentos e publicado apenas em 1982. Pessoa chamou-lhe «semi-heterónimo», por ser «uma simples mutilação» da sua própria personalidade.

Heterónimo não é pseudónimo

A distinção é do próprio Pessoa, na carta a Casais Monteiro: uma obra pseudónima é do autor em pessoa, salvo no nome que assina; uma obra heterónima é de um autor fora da pessoa do autor, uma individualidade completa — com idade, profissão, ideias e estilo próprios. Daí que os heterónimos discutam entre si, se influenciem e até se critiquem: Campos escreveu «notas» sobre o mestre Caeiro; Reis prefaciou-o.

A língua de cada um

Para quem estuda a língua, o caso Pessoa é um laboratório de registos. Um mesmo idioma — o português europeu — é esticado entre o latinismo de Reis, o despojamento de Caeiro e a oralidade exclamativa de Campos. A palavra-chave do próprio Pessoa, fingir, não tem aqui o sentido corrente de «mentir», mas o latino de fingere, «moldar, dar forma»: o poeta é um modelador. E a sua nação tem, em Mensagem, uma língua de gesto épico, na linha de Camões.

Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!

«Mar Português», de Mensagem (1934) — o único livro de poemas em português que Pessoa publicou em vida.

Legado

Pessoa morreu a 30 de novembro de 1935, quase desconhecido fora dos círculos literários. A consagração — em Portugal e no mundo — veio depois, à medida que a arca era lida e traduzida. Os heterónimos deixaram de ser uma curiosidade biográfica para se tornarem uma das mais radicais reflexões modernas sobre a identidade e a autoria: a ideia de que o eu que escreve é, ele próprio, uma ficção. Poucos autores estão hoje tão presentes na língua portuguesa — e em tantas vozes ao mesmo tempo.

Fontes

  1. Richard Zenith. Pessoa: A Biography . Liveright (2021)
  2. Eduardo Lourenço. Pessoa Revisitado: Leitura Estruturante do Drama em Gente . Gradiva (1973)
  3. Jorge de Sena. Fernando Pessoa & Cª Heterónima . Edições 70 (1982)
  4. Fernando Pessoa. Obra Poética . Companhia das Letras / Assírio & Alvim (1942)