Literatura 詩 · 09

A Geração de 70 e Cesário Verde

A revolta da Geração de 70 contra o Romantismo — a Questão Coimbrã, o pensamento e os sonetos de Antero de Quental e a poesia urbana de Cesário Verde, anunciadora do modernismo.

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A Geração de 70 designa o conjunto de escritores e pensadores que, a partir de meados da década de 1860, romperam com o Romantismo então dominante e procuraram alinhar a cultura portuguesa com as grandes correntes europeias — o positivismo, o realismo, o socialismo, a crítica científica. No seu centro intelectual e moral está Antero de Quental (1842–1891); à sua margem, mas como o poeta mais original do período, Cesário Verde (1855–1886).

A Questão Coimbrã (1865)

O conflito de gerações tornou-se público com a chamada Questão Coimbrã, uma polémica literária de 1865. O velho mestre romântico António Feliciano de Castilho, num posfácio ao Poema da Mocidade de Pinheiro Chagas, acusou os jovens poetas de Coimbra de obscuridade e de falta de bom senso e bom gosto, nomeando Antero e Teófilo Braga.

A resposta de Antero, o panfleto Bom Senso e Bom Gosto (1865), foi um manifesto de ruptura: contra a retórica e o sentimentalismo da escola velha, reivindicava uma poesia de ideias, atenta à filosofia e à ciência do seu tempo. Para além das pessoas em litígio, discutia-se a própria linguagem da poesia — se devia continuar ornamental e convencional, ou abrir-se ao pensamento moderno.

Antero, a consciência da geração

Antero de Quental foi o centro de gravidade do grupo. As Odes Modernas (1865) trouxeram à poesia portuguesa temas sociais e revolucionários; mais tarde, os seus sonetos — reunidos em vida em 1886 — deram forma clássica a uma angústia metafísica inédita na língua, feita de dúvida, de aspiração ao absoluto e de desejo de repouso. Foi um renovador da forma fixa, que carregou de vocabulário filosófico e de tensão intelectual.

Na mão de Deus, na sua mão direita, / Descansou afinal meu coração.

Abertura do soneto «Na mão de Deus» — o anseio de repouso após a inquietação filosófica que percorre a obra de Antero.

Vencido pela doença e pelo desencanto político, Antero pôs termo à vida em Ponta Delgada, na sua ilha natal, em 1891 — gesto que a posteridade leu como o emblema trágico de toda uma geração de ideais frustrados.

As Conferências do Casino (1871)

O ponto alto da intervenção pública do grupo foram as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, em 1871. Antero abriu o ciclo com Causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos; Eça de Queirós deveria falar sobre o realismo na arte. O governo, alarmado com a ousadia das ideias, proibiu as conferências por decreto, em junho desse ano. A interrupção tornou-as, ironicamente, o manifesto da geração.

Em torno de Antero e de Eça gravitavam outras figuras que partilhavam o mesmo horizonte crítico:

FiguraDatasPapel
Antero de Quental1842–1891Poeta e pensador, líder moral
Eça de Queirós1845–1900O romance realista
Oliveira Martins1845–1894História e ensaio
Teófilo Braga1843–1924Crítica e etnografia
Ramalho Ortigão1836–1915Crónica e sátira (As Farpas)
Cesário Verde1855–1886Poesia urbana, à margem do grupo

Cesário Verde e a poesia da cidade

Mais novo e socialmente distante do núcleo coimbrão — era empregado no comércio da família —, Cesário Verde ficou à margem da vida literária e foi, em vida, ignorado ou troçado pela crítica. Publicou poemas dispersos em jornais; só depois da sua morte por tuberculose, em 1886, o amigo Silva Pinto reuniu a obra n’O Livro de Cesário Verde (1887), em tiragem reduzida.

A sua poesia é uma revolução discreta. Contra o lirismo vago, Cesário pratica um antilirismo de observação concreta: a Lisboa real das ruas, do gás, do comércio e do trabalho, captada com olhar quase pictórico. Em poemas como O Sentimento dum Ocidental (1880) ou Num Bairro Moderno, a cidade moderna entra, pela primeira vez com esta intensidade, no verso português.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente / Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!

Versos finais de «O Sentimento dum Ocidental» (1880) — a ânsia de apreender e fixar o real, que faz de Cesário um precursor da modernidade.

Língua e legado

A grande novidade de Cesário está também na língua: introduz no verso o léxico do quotidiano urbano — o nome das mercadorias, dos ofícios, das ruas — e uma sintaxe de prosa precisa, que rompe com a dicção convencional contra a qual já Antero se insurgira. É esta atenção ao concreto que o aproxima dos modernos.

Assim, a Geração de 70 deixou um duplo legado: o da inteligência crítica — a exigência de pensar Portugal à luz da Europa, encarnada em Antero, Eça e Oliveira Martins — e o de uma nova linguagem poética, que em Cesário Verde encontrou a sua expressão mais duradoura.

Fontes

  1. António José Saraiva & Óscar Lopes. História da Literatura Portuguesa . Porto Editora (1996)
  2. Helder Macedo. Nós: Uma Leitura de Cesário Verde . Plátano Editora (1975)
  3. Jacinto do Prado Coelho (dir.). Dicionário de Literatura . Figueirinhas (1992)