Literatura 詩 · 07

Romantismo — Garrett e Herculano

O movimento que renovou as letras portuguesas no século XIX, fundado por Almeida Garrett e Alexandre Herculano, e que deu à língua uma nova prosa e a redescoberta da voz popular.

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O Romantismo foi o movimento que renovou as letras portuguesas na primeira metade do século XIX, rompendo com a retórica neoclássica e arcádica do século anterior. Em Portugal, tem dois fundadores incontornáveis, amigos e companheiros de causa política: Almeida Garrett [ɣɐˈʁɛt] (1799–1854) e Alexandre Herculano [iɾkuˈlɐnu] (1810–1877). Mais do que uma estética, trouxeram à língua portuguesa uma prosa nova, flexível e moderna, e a valorização das suas raízes medievais e populares.

Uma geração liberal

O Romantismo português nasce no exílio e ao ritmo das guerras entre liberais e absolutistas. Garrett, perseguido pelas suas convicções liberais, emigra para Inglaterra e depois para França; é em Paris que publica, em 1825, o poema Camões, data convencionalmente apontada como o início do Romantismo em Portugal. Herculano, da geração seguinte, exila-se em 1831 e regressa com a expedição liberal que desembarca em Mindelo (1832), combatendo no cerco do Porto.

Almeida Garrett, *Camões* (Paris, 1825) — poema narrativo em verso branco sobre o poeta no exílio.

A publicação de Camões é a data convencional do início do Romantismo em Portugal.

Ambos foram homens públicos — deputados, polemistas, organizadores de instituições. Esta dimensão cívica é inseparável da sua obra: a literatura era, para eles, um instrumento de construção da nação e da sua memória.

Garrett: o teatro nacional e a prosa moderna

A Garrett deve-se a reorganização do teatro em Portugal. Fundou o Conservatório e impulsionou o Teatro Nacional D. Maria II, defendendo um repertório de inspiração nacional. A sua obra-prima dramática, Frei Luís de Sousa (1843), é considerada o cume do teatro romântico português: uma tragédia de tema histórico, contida e de língua sóbria, longe do exagero melodramático da época.

Na prosa, Viagens na Minha Terra (1846) é o seu livro mais influente. Sob o pretexto de uma viagem de Lisboa a Santarém, Garrett entrelaça narrativa, digressão irónica, crítica política e a novela sentimental de Joaninha, a menina dos rouxinóis. O tom conversado, ágil e digressivo desta prosa rompeu com a solenidade latinizante anterior, e vale a Garrett o título de criador da prosa literária moderna em português.

O Romanceiro: a língua do povo

Tão decisivo para a língua quanto a sua ficção foi o trabalho de recolha de Garrett. No Romanceiro (publicado entre 1843 e 1851), reuniu e reescreveu romances tradicionais — narrativas em verso transmitidas oralmente —, salvando da perda um património que, como ele dizia, andava na boca do povo. Foi um dos primeiros a dar atenção culta à poesia oral portuguesa, antecipando o interesse filológico e etnográfico que floresceria mais tarde.

A sua poesia lírica madura, em Folhas Caídas (1853), abandona o ornato pela emoção direta e por uma linguagem depurada, abrindo caminho à poesia portuguesa moderna.

Herculano: a história como prosa documental

Alexandre Herculano foi poeta (A Harpa do Crente, 1838) e o introdutor do romance histórico à maneira de Walter Scott, com Eurico, o Presbítero (1844) e O Monge de Cister (1848). Mas a sua obra maior é a História de Portugal (1846–1853), assente na leitura crítica das fontes: ao rejeitar lendas piedosas, como o milagre de Ourique, desencadeou uma célebre polémica com o clero.

Diretor do periódico O Panorama e bibliotecário da Ajuda, Herculano dedicou-se ainda à edição dos Portugaliae Monumenta Historica, vasta coleção de documentos medievais cuja publicação dirigiu a partir de 1856. Para a língua, este labor foi fundamental: tornou acessíveis textos antigos que viriam a alicerçar a linguística histórica e a lexicografia portuguesas, e firmou um modelo de prosa rigorosa e documentada.

Obras de referência

ObraAutorAnoGénero
CamõesGarrett1825poema narrativo
Frei Luís de SousaGarrett1843teatro
RomanceiroGarrett1843–1851poesia popular (recolha)
Viagens na Minha TerraGarrett1846prosa narrativa
Eurico, o PresbíteroHerculano1844romance histórico
História de PortugalHerculano1846–1853historiografia

O legado para a língua

O Romantismo de Garrett e Herculano não foi apenas uma escola literária: foi um momento de redefinição da própria língua escrita. Garrett libertou a prosa da rigidez clássica e devolveu-lhe a naturalidade do discurso falado; Herculano deu-lhe o rigor da documentação e da história. Juntos, ligaram o português moderno à sua memória medieval e popular, preparando o terreno para o realismo da geração seguinte.

Fontes

  1. António José Saraiva & Óscar Lopes. História da Literatura Portuguesa . Porto Editora (1955)
  2. Ofélia Paiva Monteiro. A Formação de Almeida Garrett: Experiência e Criação . Centro de Estudos Românicos (1971)
  3. Vitorino Nemésio. A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio (1810–1832) . Bertrand (1934)