Literatura 詩 · 06

O Barroco e o Padre António Vieira

A prosa barroca de Seiscentos e a oratória de António Vieira (1608–1697), em que a língua portuguesa atinge um dos seus pontos mais altos de engenho e arquitetura.

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O século XVII português — o Seiscentismo — é o tempo do Barroco: uma estética da tensão, do contraste e do excesso ordenado, nascida da inquietação religiosa da Contrarreforma e cultivada nas academias, nos púlpitos e nas cortes ibéricas. Foi sobretudo na prosa, e em particular na oratória sacra, que a língua portuguesa encontrou então o seu maior artífice: Padre António Vieira (1608–1697), jesuíta, missionário, diplomata e pregador, em cuja obra o português se mostra capaz de uma arquitetura intelectual de rara densidade.

O Barroco e a língua

Politicamente, o Seiscentismo abre-se sob a União Ibérica (1580–1640) e fecha-se depois da Restauração (1640), num clima de crise e de reafirmação nacional. Literariamente, a poesia épica e lírica do Renascimento — cujo cume fora Os Lusíadas de Camões — cede o primeiro plano ao sermão, à carta e ao tratado. A frase barroca alonga-se em períodos amplos, ricos em subordinação, paralelismos e antíteses; o pensamento avança por conceitos, isto é, por associações engenhosas e inesperadas entre ideias distantes.

Conceptismo e cultismo

A crítica costuma distinguir duas correntes do estilo barroco peninsular:

  • O cultismo (ou gongorismo, culteranismo), na esteira do espanhol Luís de Góngora, busca o ornato: vocabulário latinizante, hipérbatos audazes, metáfora densa e alusão mitológica. Pesa mais na forma e na sonoridade.
  • O conceptismo, associado a Quevedo e teorizado por Baltasar Gracián na Agudeza y arte de ingenio (1648), assenta no conceito — a agudeza, o raciocínio surpreendente que descobre relações ocultas entre as coisas. Pesa mais na ideia.

Vieira é o grande mestre do conceptismo em língua portuguesa. A sua prosa não procura o brilho gratuito da palavra rara, mas a clareza luminosa de uma demonstração: argumenta como quem constrói, encadeando paradoxos e antíteses ao serviço de uma tese.

António Vieira, o pregador

Nascido em Lisboa em 1608, Vieira foi ainda criança para a Baía, no Brasil, onde entrou na Companhia de Jesus. Tornou-se missionário no Maranhão e no Grão-Pará, defensor obstinado dos povos indígenas contra a escravização dos colonos. Pregador da corte de D. João IV após a Restauração, foi também diplomata ao serviço da coroa e advogado da causa dos cristãos-novos, o que lhe valeu um processo da Inquisição (1663–1667). Viveu depois em Roma, regressando por fim ao Brasil, onde morreu na Baía em 1697.

A arte do sermão

Restam de Vieira mais de duzentos sermões, que ele próprio começou a reunir e a publicar a partir de 1679, em quinze volumes. Dois tornaram-se exemplares. O Sermão da Sexagésima (pregado em Lisboa, na Capela Real, em 1655) é uma peça metalinguística: tomando a parábola do semeador, Vieira pergunta por que não frutifica a pregação do seu tempo — e responde que a culpa está no estilo, afetado e obscuro, dos pregadores cultistas. Contra eles, defende uma palavra clara e penetrante.

As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há de ser o estilo da pregação: muito distinto e muito claro.

Sermão da Sexagésima (1655): o pregador deve guiar como as estrelas — distinto e claro —, não deslumbrar como fogo de artifício.

O Sermão de Santo António aos Peixes (pregado em São Luís do Maranhão em 1654, à véspera de partir para a corte) é uma alegoria satírica: já que os homens se não aproveitam da palavra de Deus, Vieira prega aos peixes — louva-lhes primeiro as virtudes e censura-lhes depois os vícios, num espelho transparente dos vícios humanos e das injustiças coloniais.

A língua de Vieira

A força de Vieira está na engenharia da frase. O período desenvolve-se em longa subordinação, mas cada membro responde a outro com simetria calculada; a argumentação progride por oposições que se resolvem numa síntese. Os recursos mais característicos:

RecursoDefiniçãoEfeito na prosa
AntíteseConfronto de ideias opostasCria o ritmo binário do raciocínio
ParadoxoAfirmação aparentemente contraditóriaProvoca o assombro e força a reflexão
Conceito (agudeza)Relação engenhosa entre coisas distantesSustenta a tese por analogia
ParalelismoRepetição de estruturasDá ordem e memorabilidade ao período
GradaçãoEscalonamento de termosConduz o ouvinte a um clímax

Apesar da complexidade, Vieira escreve para ser ouvido: a sua sintaxe, por mais ramificada, conserva a transparência que ele exigia aos outros. É essa aliança de engenho e clareza que faz dele um modelo de prosa.

Legado

A prosa de Vieira fixou um patamar a que a língua portuguesa raramente voltou. Fernando Pessoa chamou-lhe o «Imperador da Língua Portuguesa» — reconhecendo nele não um ornamentador, mas alguém que dobrou o idioma à medida exata do pensamento. Depois do Barroco, o gosto mudaria: o Neoclassicismo setecentista e, mais tarde, o Romantismo de Garrett e Herculano reagiriam contra o engenho seiscentista. Mas a arquitetura da frase de Vieira permanece como uma das provas maiores do que o português pode fazer.

Fontes

  1. António José Saraiva & Óscar Lopes. História da Literatura Portuguesa . Porto Editora (1955)
  2. Margarida Vieira Mendes. A Oratória Barroca de Vieira . Editorial Caminho (1989)
  3. António José Saraiva. O Discurso Engenhoso. Estudos sobre Vieira e outros autores barrocos . Perspectivas & Realidades (1980)