Literatura 詩 · 14

Literatura brasileira

De Machado de Assis ao Modernismo de 1922 e a Clarice Lispector — a grande literatura em língua portuguesa que o Brasil construiu, da ironia machadiana à prosa introspetiva do século XX.

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A literatura brasileira é, a par da portuguesa, um dos dois grandes ramos maiores das letras em língua portuguesa. Partilha o mesmo idioma e parte da mesma herança, mas constrói, ao longo dos séculos XIX e XX, uma voz própria — atenta à sociedade, à paisagem e à fala do país — que faz dela um dos contributos mais originais da literatura ocidental moderna.

A formação de uma literatura nacional

A independência política de 1822 acelerou a procura de uma identidade literária distinta da metropolitana. O Romantismo deu-lhe os primeiros símbolos: o indianismo de José de Alencar (O Guarani, 1857; Iracema, 1865), que fez do indígena um herói fundador, e a poesia de Gonçalves Dias, cuja Canção do Exílio (1846) se tornou quase um hino. O crítico Antonio Candido descreveria mais tarde este processo como a formação de um sistema literário — autores, obras e público a constituírem-se mutuamente.

Machado de Assis

Sobre essa base ergue-se a figura central das letras brasileiras: Joaquim Maria Machado de Assis (1839–1908). Filho de família humilde, mulato e autodidata, chegou a fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras (1897). A sua obra-prima abre-se com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), narrado por um defunto, com uma ironia, uma liberdade formal e um ceticismo que anteciparam em décadas a ficção do século XX.

Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas.

A dedicatória de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881): o narrador é um morto que dedica o livro ao verme que o devorou.

Seguiram-se Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899), este último centrado na dúvida — nunca resolvida — sobre a fidelidade de Capitu, um dos enigmas mais debatidos da literatura de língua portuguesa. Machado dispensou o pitoresco tropical e fez da análise psicológica e da ambiguidade moral o seu território.

O Modernismo de 1922

Em fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, a Semana de Arte Moderna rompeu ruidosamente com o passado académico. O movimento procurava uma arte simultaneamente moderna e brasileira, capaz de absorver as vanguardas europeias sem as imitar.

  • Mário de Andrade (1893–1945) — poeta de Paulicéia Desvairada (1922) e autor de Macunaíma (1928), «rapsódia» que funde mitos, regiões e falares num herói «sem nenhum caráter»;
  • Oswald de Andrade (1890–1954) — autor do Manifesto Pau-Brasil (1924) e do Manifesto Antropófago (1928), que propôs «devorar» a cultura estrangeira para a transformar em matéria própria.

Tupi, or not tupi, that is the question.

A célebre divisa do Manifesto Antropófago (1928), de Oswald de Andrade, que troca Shakespeare pelo nome do povo e da língua indígena.

A liberdade de verso e de vocabulário do Modernismo abriu caminho a uma das mais ricas tradições poéticas do século: Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles e, mais tarde, o rigor construtivo de João Cabral de Melo Neto.

A geração de 1930 e o sertão

A década de 1930 deu ao Brasil o romance regionalista e social, em prosa seca e de forte denúncia. Graciliano Ramos levou-a ao extremo da concisão em Vidas Secas (1938), sobre uma família de retirantes do sertão nordestino; José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Jorge Amado completam o quadro.

AutorObra de referênciaAno
Machado de AssisDom Casmurro1899
Mário de AndradeMacunaíma1928
Graciliano RamosVidas Secas1938
João Guimarães RosaGrande Sertão: Veredas1956
Clarice LispectorA Hora da Estrela1977

O sertão regressaria, transfigurado, na prosa de João Guimarães Rosa, cujo Grande Sertão: Veredas (1956) reinventa a língua portuguesa com neologismos, arcaísmos e sintaxe inaudita, ao serviço de uma narrativa metafísica.

Clarice Lispector e a introspeção

Nascida na Ucrânia em 1920 e levada para o Brasil ainda bebé, Clarice Lispector (1920–1977) deslocou o foco do romance brasileiro do exterior social para o interior da consciência. Desde Perto do Coração Selvagem (1943), a sua escrita persegue o instante, a epifania e o indizível. A Paixão Segundo G.H. (1964) e o último e breve A Hora da Estrela (1977) fixaram-na como uma das vozes mais singulares da prosa em português.

A língua de uma literatura

Do ceticismo de Machado à vertigem interior de Clarice, a literatura brasileira demonstrou que o português podia dizer um mundo novo. O seu prestígio internacional — traduções, leitores e estudo universitário em crescimento — fez dela um dos pilares da projeção global do idioma.

Fontes

  1. Antonio Candido. Formação da Literatura Brasileira . Livraria Martins Editora (1959)
  2. Alfredo Bosi. História Concisa da Literatura Brasileira . Cultrix (1970)
  3. Roberto González Echevarría & Enrique Pupo-Walker (eds.). The Cambridge History of Latin American Literature . Cambridge University Press (1996)