Léxico 語 · 05
Tupinismos e africanismos
O contributo das línguas indígenas da América e das línguas africanas para o vocabulário português, da fauna e flora tropicais ao léxico da música, da cozinha e da religião.
ptA par das camadas latina, árabe e germânica, o português incorporou, a partir do século XVI, dois grandes contingentes de palavras de origem extra-europeia: os tupinismos, vindos das línguas indígenas da América do Sul, e os africanismos, trazidos pelas línguas faladas pelos povos escravizados no Atlântico. Ambos resultam da expansão marítima e da colonização do Brasil, e ambos deram à língua boa parte do vocabulário com que esta nomeia um mundo tropical que o latim nunca conhecera.
Dois contactos, duas vias
Os tupinismos entraram sobretudo através da língua geral, um falar de base tupi que, nos primeiros séculos da colónia, serviu de língua franca entre colonos, missionários e populações indígenas no litoral e no interior do Brasil. Os africanismos chegaram por duas vias distintas: uma mais antiga, em Lisboa e no sul de Portugal, onde uma numerosa população africana escravizada vivia já no século XVI; e outra, muito mais volumosa, no Brasil, para onde o tráfico transatlântico levou, ao longo de mais de três séculos, milhões de pessoas oriundas sobretudo da África centro-ocidental de língua banta.
Tupinismos: nomear a natureza
A maior parte dos tupinismos designa elementos do mundo natural sul-americano — plantas, animais, acidentes geográficos — que os colonizadores encontraram sem nome próprio nas línguas europeias. Vêm do tupi palavras como mandioca, tapioca, caju, maracujá, jacaré [ʒɐkɐˈɾɛ] , tatu, piranha, capivara, tucano, arara, jaguar e jabuti. Muitas integram hoje o vocabulário comum de todas as variedades do português, e algumas difundiram-se por outras línguas europeias a partir do português.
tupi *mandi'oka* → mandioca · tupi *pirá* («peixe») + *aínha* («dente») → piranha · tupi *kapi'wara* («comedor de capim») → capivara
Os nomes tupis são muitas vezes descritivos, compostos a partir de raízes que voltam em dezenas de palavras.
Essa transparência morfológica explica-se por um pequeno conjunto de raízes muito produtivas: ita («pedra»), ‘y («água, rio»), caá («mato, folha»), pirá («peixe»), guaçu / açu («grande») e mirim («pequeno»). Reconhecê-las permite ler o significado de muitos compostos — e, sobretudo, de uma vasta toponímia.
A toponímia tupi
Boa parte dos topónimos brasileiros é de origem tupi e, lida à letra, descreve o lugar. Pará e Paraná contêm a ideia de «rio grande, mar»; Paraíba é o «rio mau (de navegar)»; Itamaracá, a «pedra que soa»; Ipanema, a «água imprestável». O sufixo -tiba / -tuba exprime abundância, como em Ubatuba («lugar de muitas canoas»). Esta camada indígena cobre o mapa do Brasil de uma ponta à outra e é o vestígio mais visível da língua geral.
Africanismos: o legado banto
O contingente africano é dominado por línguas bantas — sobretudo o quimbundo e o quicongo de Angola e do Congo, e o umbundo. Delas vêm palavras hoje correntes como caçula [kɐˈsulɐ] («filho mais novo»), moleque, cafuné, samba, batuque, fubá, quitanda, quitute, marimba, muamba, senzala, quilombo, bunda e cachimbo. O domínio semântico é revelador: concentram-se na música e na dança, na cozinha, na vida doméstica e afectiva, e na organização das comunidades — os campos da vida quotidiana em que o contacto humano foi mais intenso.
| Palavra | Origem | Sentido original |
|---|---|---|
| caçula | quimbundo kasula | filho mais novo |
| moleque | quimbundo mu’leke | rapaz, menino |
| quilombo | quimbundo/umbundo kilombo | acampamento, povoação |
| fubá | quimbundo fuba | farinha |
| quitanda | quimbundo kitanda | mercado, banca |
| samba | de base banta | dança, umbigada |
Alguns africanismos antigos entraram diretamente em Portugal, ainda no século XVI, ou por intermédio do comércio africano anterior ao Brasil — é o caso provável de inhame e de banana, nomes de plantas levados para o Atlântico a partir de línguas da África Ocidental.
O léxico religioso afro-brasileiro
Uma camada distinta provém das línguas da África Ocidental, em especial o iorubá, e está ligada às religiões afro-brasileiras, como o candomblé. A ela pertencem orixá («divindade»), axé («força vital, bênção»), Iemanjá, Oxum e Ogum (nomes de divindades), e termos da cozinha ritual que passaram à mesa comum, como acarajé, vatapá e abará. É um vocabulário de grande vitalidade cultural, ainda que de circulação mais regional.
Um vocabulário partilhado de forma desigual
Tupinismos e africanismos estão hoje em todas as variedades do português, mas com densidades muito diferentes. No português europeu sobrevivem sobretudo os nomes de produtos tropicais que entraram no comércio — ananás, banana, tapioca, caju, cachimbo —, ao passo que muitos termos do quotidiano e da cultura, como moleque, cafuné ou quitanda, são correntes no Brasil e pouco usados em Portugal. Esta distribuição desigual é, ela própria, um documento histórico: mostra onde, e com que intensidade, cada língua de contacto marcou a comunidade que a acolheu.
Fontes
- Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa . Nova Fronteira (1982)
- Falares africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro . Academia Brasileira de Letras / Topbooks (2001)
- Línguas brasileiras: para o conhecimento das línguas indígenas . Edições Loyola (1986)
- História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)