Léxico 語 · 06

Galicismos e anglicismos

Os empréstimos do francês e do inglês ao português, dos monges de Cluny e da moda oitocentista ao desporto e à era digital, e o modo como a língua os adapta.

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Ao lado do seu fundo patrimonial latino, o português incorporou ao longo dos séculos milhares de palavras de outras línguas. Duas dessas correntes destacam-se pela duração e pela densidade: os galicismos (empréstimos do francês — e, na fase medieval, do occitano) e os anglicismos (empréstimos do inglês). A primeira dominou a Idade Média e, sobretudo, os séculos XVIII e XIX; a segunda tornou-se a força principal do século XX em diante.

Galicismos: duas vagas

A influência francesa entrou em duas grandes ondas. A primeira acompanhou, na Idade Média, a reforma monástica de Cluny, a dinastia de Borgonha e a cultura cavaleiresca e trovadoresca que chegava do outro lado dos Pirenéus. Dela restam palavras hoje completamente integradas, que poucos falantes sentem como estrangeiras: jardim, manjar, monge, vianda, homenagem, trovador.

A segunda vaga, muito mais volumosa, deu-se quando o francês foi, dos Setecentos a Oitocentos, a língua internacional do prestígio — da corte, da moda, da cozinha, da diplomacia. Por essa via entraram termos do vestuário, da mesa e da vida urbana, em geral adaptados à grafia portuguesa.

Galicismos modernos e a sua origem
FrancêsPortuguêsDomínio
*chef**chefe*trabalho
*garage**garagem*cidade
*maquillage**maquilhagem*moda
*abat-jour**abajur*casa
*chic**chique*moda
*restaurant**restaurante*mesa

A marca mais produtiva desta corrente é o sufixo -agem, decalcado do francês -age, que se fixou como terminação viva do português: garagem, bagagem, viagem, paisagem, personagem, vantagem. Há ainda decalques — traduções literais de expressões francesas, como fim de semana (sobre fin de semaine).

Anglicismos: do desporto à era digital

O inglês começou a marcar o léxico português através do comércio marítimo e da revolução industrial, mas foi o desporto que abriu a porta de par em par, no início do século XX. Futebol (de football), golo (de goal), penálti, córner e boxe aportuguesaram-se de tal modo que a origem se apagou. Da mesma época vêm bife (de beef), clube, líder, lanche, sanduíche e piquenique.

*football* → futebol · *goal* → golo · *lunch* → lanche · *sandwich* → sanduíche

Anglicismos antigos, totalmente adaptados à grafia e à fonologia portuguesas.

A partir de meados do século XX, e com força crescente na era da informática e da Internet, instalou-se uma terceira vaga, agora ligada à tecnologia, à economia e à cultura de massas: software, hardware, e-mail, site, link, online, marketing, design, stress, feedback. Muitos destes termos circulam ainda com a grafia inglesa, sinal de que a integração é recente e ainda incompleta.

Como a língua adapta

Um empréstimo raramente entra intacto. O português ajusta-o em três planos:

  • Grafiafutebol, clube, uísque, abajur substituem a forma original.
  • Fonologiastress tende a ganhar uma vogal de apoio, e abajur fixa-se como [ɐbɐˈʒuɾ] , com o r final próprio do português.
  • Morfologia — o termo recebe flexão e derivação nativas: de click faz-se clicar, cliquei, clicável; de format faz-se formatar.

Quando a palavra adquire flexão portuguesa, deixou de ser um corpo estranho e passou a fazer parte do sistema.

Norma e atitudes

O afluxo de estrangeirismos — em especial dos anglicismos digitais — alimenta um velho debate entre o purismo, que receia a descaracterização da língua, e uma visão mais descritiva, que vê no empréstimo um mecanismo normal e antigo de enriquecimento. A história dá algum conforto a esta segunda posição: jardim e bife foram, no seu tempo, neologismos tão estranhos quanto software hoje. A questão prática não é tanto evitar o empréstimo, mas decidir quando a língua já dispõe de um equivalente próprio.

Em síntese

Galicismos e anglicismos não são acidentes na margem do léxico: são duas das camadas que, sedimentadas ao longo de oito séculos, dão ao português parte da sua fisionomia atual. A diferença entre uns e outros é sobretudo de cronologia — o francês marcou o passado, o inglês marca o presente — e o destino de ambos é o mesmo: aqueles que vingam acabam por se tornar, simplesmente, palavras portuguesas.

Fontes

  1. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  2. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  3. Antônio Houaiss & Mauro de Salles Villar. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa . Objetiva (2001)