Léxico 語 · 07
Formação de palavras
Como o português cria palavras novas a partir das que já tem — sobretudo por derivação (afixos) e por composição (junção de bases) —, os dois grandes mecanismos que renovam o léxico.
ptUma língua viva não pára de criar palavras. Quando o português precisa de nomear algo novo, raramente inventa uma forma do nada: parte de material que já possui e recombina-o segundo regras. Esse conjunto de regras é a formação de palavras, o domínio da morfologia que descreve como, a partir de uma base (um radical ou uma palavra existente) e de afixos, se constroem palavras novas. Os dois processos centrais são a derivação e a composição.
A base e os afixos
A maior parte das palavras complexas decompõe-se num radical, que carrega o sentido lexical, e em afixos, que o modificam. O afixo que precede o radical é um prefixo; o que o segue é um sufixo. Assim, em infelizmente reconhecemos o prefixo in- (negação), o radical feliz e o sufixo -mente (que forma advérbios). Os afixos são presos: não ocorrem isolados, ao contrário das bases.
Derivação
Na derivação, junta-se um afixo a uma única base. Distinguem-se vários tipos.
- Prefixação — antepõe-se um prefixo: fazer → desfazer, legal → ilegal, ver → rever. O prefixo costuma alterar o sentido sem mudar a classe da palavra.
- Sufixação — pospõe-se um sufixo: flor → floresta, feliz → felizmente, nação → nacional. É o processo mais produtivo, e muitas vezes muda a classe gramatical (de nome para adjetivo, de adjetivo para advérbio, etc.).
- Derivação parassintética — prefixo e sufixo juntam-se ao mesmo tempo a uma base que não existe só com um deles: de terra forma-se enterrar (não há *enterra nem *terrar), de manhã forma-se amanhecer.
- Derivação regressiva — em vez de acrescentar, retira-se material, tipicamente para formar um nome a partir de um verbo: atacar → ataque, embarcar → embarque, custar → custo.
- Conversão (ou derivação imprópria) — uma palavra muda de classe sem qualquer alteração de forma: o verbo jantar dá o nome o jantar; o adjetivo belo dá o nome o belo.
pedra → *empedrar* (en- + pedra + -ar); *terra* → *aterrar*; *triste* → *entristecer*
Na parassíntese, retirar o prefixo ou o sufixo deixa uma forma que não existe — prova de que ambos se acrescentam de uma só vez.
Composição
Na composição, combinam-se duas ou mais bases que já são, ou poderiam ser, palavras autónomas. Tradicionalmente separam-se dois modos:
- Composição por justaposição — as bases mantêm a sua integridade gráfica e acentual, frequentemente unidas por hífen: guarda-chuva, couve-flor, segunda-feira, sexta-feira, pé-de-meia.
- Composição por aglutinação — as bases fundem-se numa só forma, com perda de fronteira e, por vezes, de elementos fonéticos: planalto (plano + alto), embora (em + boa + hora), fidalgo (filho + de + algo), aguardente (água + ardente).
Em palavras de tipo erudito juntam-se ainda radicais de origem grega ou latina — bio-, -logia, tele-, -grafia — para formar termos como biologia, telemóvel ou fotografia. Trata-se de uma composição com radicais presos, muito viva na linguagem técnica e científica.
Processos menores
Além dos dois grandes mecanismos, o léxico recorre a vias secundárias:
| Processo | Descrição | Exemplo |
|---|---|---|
| Sigla / acrónimo | Iniciais de uma expressão | CP (Comboios de Portugal), sida |
| Abreviação | Encurtamento de uma palavra longa | foto (fotografia), mota (motorizada) |
| Amálgama | Fusão de partes de duas palavras | informática (informação + automática) |
| Onomatopeia | Imitação de um som | tiquetaque, miar |
| Empréstimo | Importação de outra língua | futebol (ingl. football) |
Estes processos, embora menos sistemáticos, são responsáveis por muitas das palavras que entram no português contemporâneo, sobretudo na fala quotidiana e nos domínios técnicos.
Por que importa
Distinguir derivação de composição não é um exercício de etiquetagem. É o que permite compreender por que desencaixotar se analisa de uma maneira e guarda-redes de outra, prever o género de uma palavra nova ou interpretar um termo que nunca ouvimos. A formação de palavras é, no fundo, a gramática da criatividade lexical: um sistema finito de regras a partir do qual se gera um número aberto de palavras.
Fontes
- Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
- Estruturas Morfológicas do Português . Colibri (2005)