Léxico 語 · 08

Prefixos e sufixos

Os afixos produtivos do português — prefixos de origem latina e grega e os sufixos que formam nomes, adjetivos e verbos — e os significados que cada um acrescenta à base.

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A maior parte do vocabulário português não se herda nem se importa: constrói-se. A partir de um número reduzido de bases e de um inventário de afixos — pequenos elementos que se acrescentam ao princípio ou ao fim de uma palavra — a língua gera milhares de termos novos com regularidade. Os afixos prefixados chamam-se prefixos; os pospostos, sufixos. Cada um traz consigo um significado estável e, no caso dos sufixos, também uma classe gramatical.

Prefixação e sufixação: duas operações distintas

A diferença não é apenas de posição. O prefixo modifica o sentido da base mas, em regra, não lhe muda a classe: de fazer (verbo) obtém-se desfazer (verbo); de feliz (adjetivo), infeliz (adjetivo). O sufixo, pelo contrário, costuma mudar a classe gramatical: do verbo realizar tira-se o nome realização; do adjetivo feliz, o nome felicidade e o advérbio felizmente.

feliz → infeliz (adj. → adj.) · feliz → felicidade (adj. → nome) · feliz → felizmente (adj. → advérbio)

O prefixo in- inverte o sentido sem mudar a classe; os sufixos -dade e -mente mudam a classe da palavra.

Os prefixos produtivos

Quase todos os prefixos do português vêm de preposições e advérbios latinos, a que se juntou, sobretudo na linguagem técnica e científica, um estrato de elementos gregos. Os mais produtivos hoje exprimem relações de negação, repetição, anterioridade, posição e intensidade.

Prefixos correntes e o seu valor
PrefixoValorExemplos
des-negação, inversão*desfazer*, *desigual*, *desonesto*
in- / i- / im-negação, privação*incapaz*, *ilegal*, *impossível*
re-repetição, reforço*refazer*, *reler*, *reaver*
pré- / pós-anterioridade / posterioridade*pré-histórico*, *pós-guerra*
anti-oposição*anticorpo*, *antirrugas*
sub- / super-inferioridade / superioridade*subsolo*, *supermercado*
co-companhia, conjunto*coautor*, *cogestão*
auto-‘a si próprio’ (gr.)*autodefesa*, *autoestima*

A negação merece nota especial porque dispõe de dois prefixos rivais. O latino in- assimila-se à consoante seguinte — i- antes de l ou r (ilegível, irregular), im- antes de p ou b (impossível, imberbe) — e tende a prender-se a bases mais cultas. O des- é o prefixo vivo da negação e da inversão, livre para se aplicar a verbos e a formações novas (descomplicar, desbloquear).

A escrita dos prefixos: hífen ou não

O Acordo Ortográfico de 1990 fixou que, em regra, só se usa hífen quando o segundo elemento começa pela mesma vogal com que o prefixo termina, ou por h: anti-inflamatório, micro-ondas, anti-higiénico. Quando o prefixo termina em consoante e a base começa por r ou s, estas duplicam-se e a palavra escreve-se junta: antirrugas, antissocial, ultrarresistente. Prefixos como co- soldam-se mesmo diante de vogal: coautor, cooperar.

Os sufixos e a mudança de classe

É na sufixação que o português revela a sua maior fecundidade. Convém agrupar os sufixos pela classe da palavra que produzem.

Nomes a partir de verbos

São os mais numerosos. Designam a ação ou o seu resultado:

  • -ção / -são (lat. -tio): realizar → realização, decidir → decisão;
  • -mento: crescer → crescimento, pensar → pensamento;
  • -agem: aterrar → aterragem, lavar → lavagem;
  • -dor / -dora (agente): vender → vendedor, computar → computador.

Nomes a partir de adjetivos

Exprimem qualidade abstrata:

  • -dade / -idade: bom → bondade, real → realidade;
  • -ez / -eza: honrado → honradez, belo → beleza;
  • -ismo (doutrina, atitude) e -ista (adepto, agente): real → realismo / realista.

Adjetivos e verbos

  • -ável / -ível dão adjetivos de possibilidade: amar → amável, ler → legível;
  • -oso indica abundância: medo → medroso, fama → famoso;
  • -izar e -ecer formam verbos: real → realizar, noite → anoitecer.

O advérbio: um sufixo só

O português moderno forma os advérbios de modo de uma única maneira: o sufixo -mente, aposto à forma feminina do adjetivo (rápida → rapidamente). É um sufixo curioso porque descende do nome latino mente (“com espírito de”), e por isso, numa enumeração, basta marcá-lo na última palavra: clara e objetivamente.

Resolveu o problema rápida e eficazmente.

[ˈʁapidɐ i iˈfikazmẽt]

Numa coordenação, o sufixo -mente surge só no último adjetivo, mas vale para ambos.

Sufixos avaliativos

Categoria à parte são os sufixos avaliativos, que não mudam a classe mas acrescentam um juízo de tamanho ou de afeto: os diminutivos (-inho, -zinho: casa → casinha) e os aumentativos (-ão, -aço: carro → carrão). O seu valor é tanto dimensional como expressivo — um cafezinho raramente é uma questão de medida —, e são tratados em artigo próprio.

Produtividade e palavras novas

Nem todos os afixos estão igualmente vivos. Um afixo diz-se produtivo quando a língua o usa para criar palavras novas que nunca ouviu antes — e os falantes compreendem-nas de imediato. Hoje, prefixos como anti-, pós-, auto- e super- e sufixos como -ização, -ista e -mente estão entre os mais ativos, sobretudo na imprensa e na linguagem técnica.

Fontes

  1. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  2. Maria Helena Mira Mateus et al.. Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)
  3. Graça Rio-Torto et al.. Gramática Derivacional do Português . Imprensa da Universidade de Coimbra (2016)