Léxico 語 · 01

O léxico do português — visão geral

Um mapa do vocabulário do português: o seu núcleo herdado do latim, as camadas de empréstimos que o enriqueceram e os processos que o fazem crescer — e uma ideia da sua verdadeira dimensão.

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O léxico é o conjunto das palavras de uma língua — o seu vocabulário visto como um todo. Ao contrário da fonologia ou da gramática, que assentam num número fechado de unidades e regras, o léxico é uma classe aberta: ganha e perde palavras continuamente, ao sabor da história, da técnica e da moda. Conhecer o léxico português é, por isso, conhecer em miniatura a história do povo que o falou. Esta secção descreve de onde vêm as palavras, como se formam novas e como se mede e regista esse acervo; o presente artigo serve de mapa.

Um núcleo latino e camadas sucessivas

A esmagadora maioria das palavras portuguesas mais frequentes é patrimonial: herdou-se diretamente do latim vulgar, por transmissão oral ininterrupta, com as transformações fonéticas próprias da língua. São os verbos, pronomes, preposições e nomes do dia a dia — ser, ter, casa, água, mão, pão — que sustentam quase todo o discurso corrente.

Sobre esse núcleo foram-se depositando camadas de empréstimos, cada uma testemunha de um contacto histórico:

CamadaOrigemExemplos
Substrato e superstratopré-romano, germânicobarro, esquerda; guerra, branco
Arabismosárabe (séc. VIII–XIII)açúcar, azeite, alface, oxalá
Cultismoslatim e grego eruditoscapítulo, fotografia, democracia
Galicismosfrancêschefe, garagem, restaurante
Anglicismosinglêsfutebol, líder, software

Um caso particularmente revelador são os dobletes: pares em que a mesma palavra latina deu origem a uma forma popular, gasta pelo uso, e a outra erudita, reintroduzida mais tarde a partir do latim escrito.

lat. PLĒNUM → cheio (patrimonial) · pleno (erudito) — lat. CLAVEM → chave · clave

A forma herdada sofreu toda a evolução fonética; a culta entrou já depois, quase intacta, com sentido mais técnico.

Quantas palavras tem o português?

A pergunta não tem resposta única, porque depende do que se conta. Os grandes dicionários de referência registam ordens de grandeza impressionantes: o Dicionário Houaiss recolhe mais de duzentas mil entradas, somando termos correntes, técnicos, regionais e históricos. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, mais seletivo, fica-se por algumas dezenas de milhar.

Esse total contrasta fortemente com o vocabulário de cada falante. Um adulto culto reconhece dezenas de milhares de palavras (o seu léxico passivo), mas usa ativamente uma fração disso. E, na prática, um punhado de palavras muito frequentes — quase todas patrimoniais — basta para a maior parte de qualquer texto: a frequência das palavras decresce de forma muito acentuada, de modo que as primeiras centenas de vocábulos cobrem já a maioria das ocorrências.

Como o léxico cresce

Mais importante do que o empréstimo é a capacidade de a língua gerar palavras a partir de si mesma. Os dois mecanismos centrais são a derivação — juntar prefixos e sufixos a uma base — e a composição — unir dois radicais. De uma só raiz nasce assim uma família inteira:

mar → marinho, marítimo, marear, maresia, marejar, ultramar, beira-mar

Prefixos, sufixos e composição multiplicam uma base única numa rede de palavras aparentadas.

Os sufixos avaliativos do português — sobretudo os diminutivos (-inho) e aumentativos (-ão) — são especialmente produtivos e carregam matizes afetivos difíceis de traduzir, do carinho (cafezinho) à ironia.

Como percorrer esta secção

Para a origem das palavras e o peso de cada estrato, comece por A origem do vocabulário; siga depois para os artigos sobre os arabismos e sobre os galicismos e anglicismos. Para perceber como se fabricam palavras novas, veja A formação de palavras e Prefixos e sufixos. O léxico tem ainda zonas muito próprias da cultura — as expressões idiomáticas, os falsos amigos e a palavra saudade — e instrumentos para o estudar, tratados em Dicionários e corpora.

Fontes

  1. Antônio Houaiss & Mauro de Salles Villar. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa . Círculo de Leitores (2003)
  2. José Pedro Machado. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa . Livros Horizonte (1977)
  3. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)