Léxico 語 · 03

Arabismos

As palavras de origem árabe são o segundo estrato do léxico português depois do latim — da alface ao açúcar, da alfândega à álgebra. Como entraram, como se adaptaram e onde se concentram.

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Chama-se arabismo a toda a palavra que o português recebeu, direta ou indiretamente, do árabe. É o segundo maior estrato do vocabulário português a seguir ao fundo latino herdado: contam-se em vários milhares os termos de origem árabe, dos quais à volta de um milhar pertencem ao núcleo da língua e várias centenas continuam em uso corrente. Nenhuma outra língua europeia ocidental — com a exceção do espanhol — recebeu do árabe uma herança lexical tão densa.

De onde vêm

Quase todos os arabismos entraram durante e em consequência dos cerca de cinco séculos de presença islâmica no que viria a ser Portugal (711–1249). Importa, porém, distinguir duas vias de entrada, com cronologias e registos diferentes.

A primeira é a via popular: palavras absorvidas pelo contacto quotidiano de fronteira e pela reintegração de populações arabizadas à medida que a Reconquista descia para sul. São termos da terra, da casa e do mercado — azeite, alface, aldeia, alfândega —, gastos pelo uso e perfeitamente adaptados à fonética portuguesa.

A segunda é a via erudita: termos científicos que o árabe transmitira do grego e do Oriente e que a Europa medieval foi buscar, já nos séculos XII e XIII, através das traduções latinas — sobretudo a matemática, a astronomia, a alquimia e a medicina. Daí vêm álgebra, algarismo, álcool, alquimia, alambique, zénite e azimute. Estas palavras chegaram pela escrita, não pela boca dos falantes do al-Andalus.

O artigo al- e as letras solares

O sinal mais reconhecível dos arabismos é o al- inicial, o artigo definido árabe al- (“o”, “a”), que no momento do empréstimo se soldou ao nome. Onde outras línguas tomaram a palavra sem artigo (compare-se algodão com o inglês cotton), o português fixou-o de vez.

A pronúncia desse al- depende, em árabe, da consoante seguinte. Diante das chamadas letras solares (entre elas s, z, r, t, d, n), o l assimila-se à consoante, que se duplica; diante das letras lunares (como b, f, q, kh, m), o l mantém-se. Daí que uns arabismos apareçam em al- e outros em a- com consoante reforçada.

A assimilação do artigo às letras solares e lunares
ÁrabeLetra seguintePortuguêsPronúncia
al-sukkarsolar (s)*açúcar*[ɐˈsukɐɾ]
al-zaytsolar (z)*azeite*[ɐˈzɐjtɨ]
al-ruzzsolar (r)*arroz*[ɐˈʁoʃ]
al-khasslunar (kh)*alface*[aɫˈfasɨ]
al-funduqlunar (f)*alfândega*[aɫˈfɐ̃dɨɣɐ]
al-qutnlunar (q)*algodão*[aɫɣuˈðɐ̃w̃]

Os campos do léxico

Os arabismos não se distribuem ao acaso: concentram-se nos domínios em que a civilização do al-Andalus foi tecnicamente dominante. Lê-los por campos é quase ler um inventário da vida material medieval.

Água e agricultura: azenha, nora, açude, alqueire, azeitona, alfarroba, tremoço, laranja, arroz. Comércio e administração: armazém, alfândega, aldeia, alvará, quintal, arroba, tarifa, alcaide. Casa e ofícios: almofada, alcatifa, azulejo, chávena, garrafa, alfaiate, alferes. Ciência: álgebra, algarismo, cifra, álcool, alquimia, zénite.

Regadio, comércio, construção e saber: as quatro grandes famílias do vocabulário árabe do português.

A tecnologia do regadio é particularmente reveladora: a nora e a azenha elevam a água que enche o açude, e medem-se os grãos por alqueires e arrobas. Não foram só objetos que entraram, mas todo um sistema de conhecimentos com o seu nome próprio.

Arabismos sem o disfarce do al-

Nem todos os arabismos trazem o al- à cabeça. Muitos entraram sem artigo ou perderam-no, e alguns dos mais inesperados são palavras curtíssimas do dia a dia. A interjeição oxalá [ɔʃɐˈla] vem de in šāʾ Allāh (“se Deus quiser”); fulano vem de fulān (“um tal, certa pessoa”); xarope de šarāb (“bebida, poção”); xadrez de šiṭranj; e enxaqueca de aš-šaqīqa (“a metade da cabeça”). Até a preposição até é, segundo a etimologia mais corrente, atribuída ao árabe ḥattā — caso raro de um empréstimo árabe à própria gramática.

Cuidado com os falsos arabismos

O al- inicial é um indício, não uma prova. Muitas palavras que começam por al- são, na verdade, de origem latina, e a sua semelhança é mera coincidência.

Uma herança partilhada e viva

O mesmo estrato marca o espanhol, que muitas vezes conserva as mesmas palavras (azúcar, aceituna, alcázar): não houve empréstimo de uma língua à outra, mas uma herança recebida em paralelo por toda a Península. Dentro do espaço da língua portuguesa, alguns arabismos seguiram destinos diferentes de margem a margem.

A influência árabe no léxico é, no fim, um paradoxo discreto: não tocou a gramática nem a fonologia do português, mas inscreveu-se em centenas de palavras que os falantes usam todos os dias sem suspeitar da sua origem. Pedir açúcar para o café ou azeite para a salada é repetir, sem o saber, fórmulas de há mil anos.

Fontes

  1. José Pedro Machado. Vocabulário Português de Origem Árabe . Editorial Notícias (1991)
  2. Adalberto Alves. Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa . Imprensa Nacional-Casa da Moeda (2013)
  3. Federico Corriente. A Dictionary of Arabic and Allied Loanwords . Brill (2008)
  4. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)