História 史 · 06

Influência árabe

Setecentos anos de contacto com o árabe deixaram no português um dos maiores legados lexicais do al-Andalus: milhares de palavras e topónimos com o característico al- inicial.

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Em 711, exércitos muçulmanos vindos do Norte de África atravessaram o estreito de Gibraltar e, em poucos anos, dominaram quase toda a Península Ibérica, que passou a chamar-se al-Andalus. No território do futuro Portugal, a presença islâmica durou de 711 até à conquista cristã do Algarve, em 1249 — cerca de cinco séculos a sul do Tejo. Desse longo contacto resultou o segundo maior estrato do vocabulário português depois do latim: estimam-se em vários milhares as palavras de origem árabe, das quais várias centenas se mantêm em uso corrente.

Duas línguas, um território

O árabe foi, durante séculos, a língua de prestígio do al-Andalus: a da administração, da religião, da ciência e da cultura escrita. A par dele, as populações cristãs sob domínio muçulmano continuaram a falar um romance ibérico, o moçárabe, fortemente impregnado de arabismos. O português não descende do moçárabe — formou-se a norte, no antigo domínio galego-português, e desceu para sul com a Reconquista —, mas absorveu o árabe sobretudo por via deste contacto de fronteira e da reintegração de populações arabizadas.

Por isso, ao contrário do que sucedeu com o latim ou com o galego-português, o árabe não moldou a gramática nem a fonologia do português: a sua marca é quase exclusivamente lexical. É, ainda assim, uma marca profunda, concentrada nos domínios da vida quotidiana em que os muçulmanos foram tecnicamente dominantes — a agricultura e a irrigação, a construção, o comércio, a administração, as ciências e a casa.

O artigo al- aglutinado

O traço mais visível dos arabismos peninsulares é o al- inicial. Corresponde ao artigo definido árabe al- (“o”, “a”), que, no momento do empréstimo, se soldou ao nome e passou a fazer parte indissociável da palavra — algo que não acontece nas línguas que receberam os mesmos termos por outras vias (compare-se o português algodão com o inglês cotton ou o italiano cotone).

Quando a consoante seguinte é uma das chamadas letras solares, o l do artigo assimila-se a ela, o que explica formas em a- com consoante dobrada na origem, como em açúcar (do árabe as-sukkar) ou azeite (de az-zayt).

ár. as-sukkar → açúcar · ár. az-zayt → azeite · ár. al-khass → alface · ár. al-makhzan → armazém

O artigo árabe al- (com assimilação às letras solares) integra-se na palavra e nunca mais dela se separa.

PortuguêsÁrabeSentido literal
açúcaras-sukkar”o açúcar”
azeiteaz-zayt”o óleo”
alfaceal-khass”a alface”
alfândegaal-funduq”a hospedaria, o armazém”
armazémal-makhzan”o depósito”
almofadaal-mukhadda”a almofada”
álgebraal-jabr”a reintegração, o cálculo”

Campos do vocabulário

Os arabismos agrupam-se em famílias temáticas reveladoras. Na agricultura e na água, herdámos a tecnologia de regadio do al-Andalus: azenha, nora, açude, alqueire, azeitona, alfarroba, cenoura, tremoço. No comércio e na administração: armazém, alfândega, aldeia (de ad-dayʿa, “a quinta, a povoação”), alvará, quintal, arroba, tarifa. Na casa e nos materiais: almofada, alcatifa, azulejo, almofariz, chávena, garrafa, alcôva. E, graças ao papel do árabe como veículo do saber grego e oriental, todo um léxico científico: álgebra, algarismo, cifra, zénite, alquimia, álcool.

Há ainda empréstimos que escapam ao molde de al-. A interjeição oxalá [ɔʃɐˈla] vem de in šāʾ Allāh (“se Deus quiser”); e até uma palavra tão comum como até é correntemente atribuída ao árabe ḥattā.

Os topónimos

Em nenhum domínio a herança árabe é tão densa como na toponímia do Sul de Portugal. O próprio Algarve é o árabe al-gharb, “o ocidente” — a parte ocidental do al-Andalus. Muitos nomes de rios começam por Ode- ou Odi-, do árabe wādī, “rio, vale”, como Odemira, Odeleite e Odiana (hoje Guadiana, wādī Āna).

TopónimoÁrabeSentido
Algarveal-gharb”o ocidente”
Alcácer (do Sal)al-qaṣr”o castelo”
Alcântaraal-qanṭara”a ponte”
Alfamaal-ḥamma”a fonte termal”
Almadaal-maʿdan”a mina”
FátimaFāṭimanome próprio feminino

Um legado discreto e omnipresente

A influência árabe é, assim, um paradoxo feliz: invisível na estrutura da língua, mas inscrita em centenas de palavras que os falantes usam sem suspeitar da sua origem. Cada vez que se fala de açúcar, de uma aldeia no Algarve ou de uma garrafa de azeite, ecoa, em surdina, a longa convivência ibérica com o árabe.

Fontes

  1. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  2. Adalberto Alves. Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa . Imprensa Nacional-Casa da Moeda (2013)
  3. David Lopes. Nomes Árabes de Terras Portuguesas . Sociedade de Língua Portuguesa / CIDEHUS (1968)