História 史 · 05

O superstrato germânico

Suevos e visigodos governaram o noroeste ibérico entre os séculos V e VIII e deixaram na língua um superstrato sobretudo lexical — palavras da guerra, sufixos e uma vasta herança de nomes próprios.

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Quando, no início do século V, o domínio romano sobre a Hispânia se desfez, foram povos germânicos que ocuparam o vazio político. No extremo noroeste — a região de que o português viria a nascer — instalou-se o reino dos suevos; mais tarde, toda a Península ficou sob os visigodos. Falavam línguas germânicas, mas eram uma minoria militar sobre uma maioria que já falava romance. Por isso a sua marca na língua é a de um superstrato: não alterou a gramática herdada do latim, mas depositou sobre ela uma camada de palavras.

Suevos e visigodos na Hispânia

Em 409, suevos, vândalos e alanos atravessaram os Pirenéus. Por volta de 411 os suevos fixaram-se na Gallaecia, com capital em Bracara Augusta (Braga), fundando o primeiro reino germânico autónomo em solo do antigo Império — chegaram a cunhar moeda própria. O reino suevo durou até 585, quando foi anexado pelo visigodo Leovigildo. Os visigodos, por seu turno, governaram a Hispânia a partir de Toledo até à conquista muçulmana de 711.

Ao longo destes três séculos, as elites germânicas converteram-se ao cristianismo, adotaram o latim como língua da administração e da Igreja e acabaram, elas próprias, por se romanizar linguisticamente. O gótico e a fala dos suevos extinguiram-se sem deixar textos — mas não sem deixar vestígios.

Um superstrato, não um substrato

A distinção é importante. O substrato pré-romano é a língua que precede o latim e o influencia a partir de baixo; o superstrato germânico é a língua de conquistadores que se sobrepõem ao romance já formado e nele se dissolvem. Em ambos os casos sobra, sobretudo, vocabulário.

Há ainda uma dificuldade: muitos germanismos do português não chegaram pela mão dos suevos ou dos visigodos. Entraram séculos antes, no próprio latim vulgar, através do contacto secular entre Roma e os povos germânicos nas fronteiras do Império, e por isso são comuns a quase toda a România (guerra, roubar, branco). Distinguir o que é especificamente suevo-visigótico do que é germânico pan-românico é uma das tarefas mais delicadas da etimologia ibérica.

O vocabulário da guerra e da corte

O domínio em que a contribuição germânica mais se faz sentir é o da guerra e da organização militar — o que se compreende numa sociedade de senhores armados.

PortuguêsÉtimo germânicoSentido original
guerragerm. werra”discórdia, contenda”
guardargerm. wardōn”vigiar, montar guarda”
elmogót. hilms”capacete”
esporagót. spaúra”espora”
dardofranco daroþ”lança de arremesso”
tréguagót. triggwa”pacto, fidelidade”
roubargerm. raubôn”saquear, espoliar”
ganhargerm. waidanjan”obter; pastorear”

Note-se que guerra [ˈɡɛʁɐ] suplantou por completo o latim bellum: a palavra para a coisa mais romana de todas passou a ser germânica. Da vida da corte vêm ainda termos como escanção (o copeiro régio, do gót. skankja) e bandeira (do gót. bandwô, “sinal, estandarte”).

Marcas na fonologia e na morfologia

A adaptação do germânico ao romance ibérico deixou um traço fonético reconhecível: o /w/ inicial germânico foi recebido como /gw/ > /g/, donde werraguerra e wardōnguardar. O mesmo se vê em nomes próprios francos, como WilhelmGuilherme.

Mais característico ainda é o sufixo -engo, do germânico -ing (“pertencente a”), produtivo no galego-português medieval para formar adjetivos de posse, sobretudo jurídica:

realengo (terra do rei) · abadengo (de uma abadia) · mealhengo (sujeito ao foro de uma mealha)

O sufixo -engo, de origem germânica, designava a condição ou pertença de uma terra no direito medieval.

Nomes próprios e apelidos

É na onomástica que o legado germânico é mais visível e duradouro. As elites góticas estavam na moda, e durante séculos os habitantes do noroeste — fossem ou não de ascendência germânica — batizaram os filhos com nomes góticos. Estes nomes eram tipicamente bitemáticos, compostos de dois elementos guerreiros:

  • Rodrigo < gót. Hrôþareiks (hrôþ “glória” + reiks “poderoso”)
  • Fernando < gót. Friþnanþ (friþ “paz” + nanþ “audácia”)
  • Afonso < gót. Aþalfuns (aþal “nobre” + funs “pronto”)
  • Álvaro < gót. Allawars (alla “todo” + wars “vigilante”)
  • Gonçalo < gót. Gundisalv (gunþi “combate”)

Destes nomes nasceu, séculos depois, boa parte dos apelidos portugueses mais comuns. O patronímico medieval formava-se com o genitivo latino -ici, que evoluiu para -es: RodericiRodrigues (“filho de Rodrigo”). Daí Fernandes, Gonçalves, Henriques, Mendes, Álvares — uma família de apelidos cujo radical é, na origem, um nome de guerreiro godo.

Na toponímia

O mesmo se passa nos topónimos do noroeste. Muitas povoações conservam o nome do seu antigo possuidor germânico, geralmente uma villa designada pelo genitivo do proprietário: Guimarães (de Vimaranes, do nome Vímara), Gondomar, Resende, Roriz, Baltar, Sendim. A densidade destes nomes em Portugal a norte do Douro e na Galiza marca, no mapa, a área de assentamento suevo.

O que sobrou

Raros germanismos podem atribuir-se com segurança aos suevos. O caso mais citado é laverca “cotovia” (do germânico laiwerkô), palavra que sobrevive no galego-português e falta nas demais línguas românicas — testemunho isolado de uma fala que, de resto, se calou. O essencial da herança germânica é, pois, um léxico de guerra, um punhado de sufixos e, acima de tudo, os nomes pelos quais os portugueses ainda hoje se chamam.

Fontes

  1. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  2. Ivo Castro. Introdução à História do Português . Edições Colibri (2006)
  3. Joseph M. Piel & Dieter Kremer. Hispano-gotisches Namenbuch . Carl Winter (1976)
  4. Maiden, Smith & Ledgeway (eds.). The Cambridge History of the Romance Languages . Cambridge University Press (2013)