História 史 · 02

Latim vulgar

O latim falado, e não o dos clássicos, é a verdadeira matriz do português. Foi essa língua quotidiana, levada pela romanização à Hispânia, que evoluiu até dar o galego-português.

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O português não desce do latim de Cícero e de Virgílio, mas do latim vulgar — o latim falado, quotidiano, dos soldados, dos colonos, dos mercadores e dos camponeses que, a partir do século III a.C., levaram a sua língua a toda a bacia do Mediterrâneo. É dessa fala viva, e não da língua literária fixada nas escolas, que nascem todas as línguas românicas, o português entre elas.

O que era o «latim vulgar»

O adjetivo vulgar (do latim vulgus, «o povo») não tem aqui sentido pejorativo: designa o sermo vulgaris ou sermo cotidianus, a variedade corrente da língua, por oposição ao sermo urbanus, cuidado e literário. As duas nunca foram línguas distintas, mas dois registos de um mesmo continuum: à medida que a norma escrita se imobilizava, copiando os modelos clássicos, a fala seguia o seu curso natural e afastava-se cada vez mais dela.

Conhecemos o latim vulgar sobretudo de forma indireta. Faltam-nos gravações, mas sobram pistas: as inscrições toscas, os grafitos de Pompeia, as cartas em papiro, os receituários e, muito em especial, os textos normativos que repreendem «erros» — e que, ao fazê-lo, registam preciosamente a fala real. O mais célebre é o Appendix Probi (compilação tardo-antiga), uma lista de correções do tipo «diga-se X, não Y» que, lida ao contrário, é um retrato da pronúncia popular.

«SPECULUM non SPECLUM» · «AURIS non ORICLA» · «VETULUS non VECLUS»

No Appendix Probi, a forma «errada» é justamente a que vingou: de SPEC(U)LUM vem espelho; de OR(I)C(U)LA, orelha.

Da romanização à Hispânia

A conquista romana da Península Ibérica começou em 218 a.C., durante a Segunda Guerra Púnica, e prolongou-se por dois séculos, até à submissão dos cântabros e ástures em 19 a.C. O extremo noroeste — a futura Gallaecia, berço do galego-português — foi dos últimos territórios a ser integrado, o que ajuda a explicar alguns dos seus traços conservadores.

O latim que chegou à Hispânia não era o de uma elite literária, mas o dos exércitos e dos colonos. Sobre as línguas pré-romanas faladas no território sobrepôs-se assim uma nova língua, num processo lento de substituição linguística que demorou gerações e deixou marcas — o chamado substrato — na fonética e no vocabulário.

Como mudou a língua

Entre o latim clássico e o latim vulgar há transformações de fundo que prefiguram já o português. No vocalismo, o sistema clássico, baseado na quantidade (vogais longas e breves), desmoronou-se e deu lugar a um sistema baseado no timbre e na posição do acento. As dez vogais clássicas reduziram-se a sete na maior parte da România ocidental.

Da quantidade ao timbre: vogais tónicas (România ocidental)
Latim clássicoLatim vulgarExemplo
Ī [iː][i]*FĪLUM* → *fio*
Ĭ [i] / Ē [eː][e]*PĬLUM* → *pelo*
Ĕ [e][ɛ]*FĔRRUM* → *ferro*
Ŏ [o][ɔ]*PŎRTAM* → *porta*
Ŭ [u] / Ō [oː][o]*TŌTUM* → *todo*
Ū [uː][u]*LŪNAM* → *lua*

Na gramática, a mudança foi igualmente profunda. O sistema de casos do latim clássico — com terminações que marcavam a função do nome na frase — entrou em colapso, e a sua função passou a ser assegurada pela ordem das palavras e por preposições. Surgiram o artigo definido, ausente do latim clássico, derivado do demonstrativo ille (de ILLUM vem o, de ILLAM vem a), e novos tempos verbais perifrásticos, como o futuro cantare habeo («hei de cantar»), na origem do nosso futuro cantarei.

Vinho novo em odres do quotidiano

Também o vocabulário se renovou. Em muitos casos, a palavra clássica foi suplantada por um sinónimo coloquial ou expressivo, e é a forma popular que sobrevive nas línguas românicas.

EQUUS (clássico) cedeu a CABALLUS («rocim») → cavalo · DOMUS cedeu a CASA («cabana») → casa · LOQUI cedeu a FABULARI / *FABELLARE* → falar

A palavra do dia-a-dia, muitas vezes mais concreta ou afetiva, é a que perdura.

A par desta renovação interna, o latim falado da Hispânia foi absorvendo também empréstimos — primeiro do grego, depois das línguas dos povos germânicos que se instalaram na Península a partir do século V, e mais tarde do árabe.

Um latim, muitas línguas

A fragmentação do mundo romano e o enfraquecimento do poder central, a partir do século V, romperam a unidade da língua falada. Sem uma norma viva que a contivesse, cada região prosseguiu as suas próprias tendências, e ao longo de séculos o contínuo do latim vulgar foi-se fracturando nos vários romances: o galego- português, o castelhano, o catalão, o occitano, o francês, o italiano, o romeno, entre outros.

Quando, séculos mais tarde, os primeiros documentos em galego-português registam por escrito a fala do noroeste peninsular, o latim vulgar já não existia como língua una: tinha-se tornado, por evolução ininterrupta, uma língua nova. Conhecer essa matriz falada é, por isso, indispensável para compreender por que é que o português é como é — desde as suas vogais até à ordem das suas palavras.

Fontes

  1. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  2. Maiden, Smith & Ledgeway (eds.). The Cambridge History of the Romance Languages . Cambridge University Press (2013)
  3. József Herman. Vulgar Latin . Pennsylvania State University Press (2000)