História 史 · 03

Substrato pré-romano

Antes de Roma, o ocidente da Península Ibérica falava línguas célticas, o lusitano e idiomas ibéricos. Esse substrato deixou no português topónimos, nomes de rios e um punhado de palavras.

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O território onde viria a formar-se o português esteve longe de ser, antes de Roma, um espaço linguisticamente vazio. Quando as legiões desembarcaram na Península Ibérica, em 218 a.C., encontraram um mosaico de povos e línguas com séculos de história. Dessas falas pré-romanas — célticas, o lusitano, os idiomas ibéricos — pouco sobreviveu à latinização; mas o pouco que ficou constitui o substrato mais antigo da língua: um sedimento de topónimos, nomes de rios e palavras do campo.

Um mosaico de povos

Por volta do século III a.C., o ocidente peninsular repartia-se por vários grupos. No noroeste — a futura Gallaecia — viviam povos de cultura castreja e fala céltica, como os Brácaros, que deram nome a Braga, e os Gallaeci. No centro-oeste estavam os Lusitanos, célebres pela resistência a Roma sob Viriato. A leste e a sul estendiam-se povos iberos, de língua não indo-europeia, e no extremo sudoeste — o Algarve e o Baixo Alentejo — os Cónios ou Cinetes. Para lá dos Pirenéus, a família vascónica, antepassada do basco, deixaria também a sua marca.

A língua lusitana

O lusitano é a língua pré-romana do ocidente mais bem documentada, graças a um punhado de inscrições em alfabeto latino — entre elas as de Lamas de Moledo, Cabeço das Fráguas e Arronches. É uma língua indo-europeia, mas cuja filiação dentro desse ramo continua em debate: terá sido céltica, para-céltica ou um ramo independente?

Boa parte do problema repousa numa única consoante. As línguas célticas perderam o p indo-europeu inicial; o lusitano conservou-o.

OILAM · PORCOM · TAUROM

Os três animais de sacrifício nomeados na inscrição do Cabeço das Fráguas: «ovelha», «porco» e «touro». PORCOM, com o seu p- inicial, mostra que o lusitano — ao contrário do céltico — manteve o p indo-europeu (cf. lat. porcus, mas irl. ant. orc).

As mesmas inscrições preservam nomes de divindades — Reve, Nábia, Trebaruna — que ligam o lusitano à religião e à paisagem do território.

O legado céltico

Foram, porém, as falas célticas as que mais marcaram o mapa. O elemento -briga («povoado fortificado», «alto») sobrevive em dezenas de topónimos antigos: Conímbriga, que deu Coimbra, Lacóbriga, Talábriga, Mirobriga. Outros nomes de lugar e de rio — Bracara, Tâmega, Douro — têm igualmente raiz pré-romana. É na toponímia e na hidronímia, mais do que em qualquer outro domínio, que o substrato sobreviveu com vigor.

Iberos e a escrita do Sudoeste

Bem diferentes eram os idiomas ibéricos, falados a leste e a sul e sem parentesco conhecido com o indo-europeu. Da sua presença restam inscrições nas chamadas escritas paleo-hispânicas — em especial a escrita do Sudoeste (ou tartéssica), gravada em estelas do Algarve e do Baixo Alentejo a partir do século VII a.C. e ainda hoje só parcialmente decifrada. O seu peso no português é mínimo, mas faz deste território um dos mais antigos berços da escrita na Europa ocidental.

Palavras que sobreviveram

No vocabulário comum, o substrato legou sobretudo termos rurais, geográficos e técnicos — muitos deles chegados ao português já filtrados pelo latim. São poucos, mas alguns pertencem ao uso mais quotidiano.

PalavraOrigem provávelSentido
carrocéltica (gaulês carros)veículo de rodas
cervejacéltica (cervesia)bebida fermentada
lousacéltica / pré-romanalaje, ardósia
searacélticaterra semeada
veigapré-romanaplanície fértil junto a um rio
barropré-romanaargila, lodo
barrancopré-romanaravina, despenhadeiro
bezerropré-romanavitelo
camapré-romana hispânicaleito
esquerdovascónica (basco ezker)lado oposto ao direito

Substrato e som

Atribuir mudanças fonéticas ao substrato é sempre arriscado, e os especialistas dividem-se. Há quem veja na lenição das consoantes intervocálicas latinas (-P-, -T-, -C- > -b-, -d-, -g-: lat. LUPUM > lobo) um eco da fonologia céltica; outros consideram-na uma evolução interna do latim hispânico. Mais seguro é o que não aconteceu no ocidente.

O sedimento mais antigo

O substrato pré-romano é, em número de palavras, a mais discreta das camadas do português. Mas é a primeira de todas, e a que melhor resistiu no terreno: nos nomes dos rios que ainda hoje seguimos, nas cidades cuja origem se perde antes de Roma e em palavras tão correntes como cama ou esquerdo, falamos, sem o saber, línguas extintas há dois mil anos.

Fontes

  1. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  2. Edwin B. Williams. From Latin to Portuguese . University of Pennsylvania Press (1962)
  3. Blanca María Prósper. Lenguas y religiones prerromanas del occidente de la península ibérica . Ediciones Universidad de Salamanca (2002)
  4. Jürgen Untermann. Monumenta Linguarum Hispanicarum . Reichert Verlag (1975–1997)