História 史 · 01

A história do português — visão geral

Um mapa da secção: o arco que vai do latim vulgar ao português contemporâneo, as suas grandes etapas e como ler os artigos que se seguem.

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O português é uma língua românica: uma das línguas que nasceram da fragmentação do latim falado no Império Romano. A sua história é a de uma fala local do extremo ocidental da Península Ibérica que, ao longo de mais de dois milénios, se transformou num romance próprio, ganhou escrita e norma, e acabou levada por mar a quatro continentes. Esta secção percorre esse arco — do latim vulgar ao português contemporâneo — e este artigo serve-lhe de mapa.

As grandes etapas

Convém ter à partida uma cronologia mínima, que os artigos seguintes desenvolvem.

  • Substrato e romanização (séc. III a.C.–V d.C.). Antes de Roma, falavam-se na Hispânia línguas pré-romanas — celtas, lusitano, e o enigmático bascónico no norte. A conquista romana, iniciada em 218 a.C., impôs o latim, mas o substrato anterior deixou marcas no vocabulário e, possivelmente, na fonética.
  • Superstratos germânico e árabe (séc. V–XIII). Com a queda do Império, povos germânicos — suevos e visigodos — instalaram-se na região; a partir de 711, a presença islâmica trouxe um vastíssimo legado lexical. São os superstratos que se sobrepõem ao latim já enraizado.
  • Galego-português (séc. IX–XIV). No noroeste forma-se um romance distinto, o galego-português, língua-mãe comum do português e do galego e veículo da grande lírica trovadoresca dos cancioneiros.
  • Português médio (séc. XIV–XVI). Com a independência política de Portugal e a deslocação do centro de gravidade para Lisboa e Coimbra, a língua autonomiza-se e moderniza a sua fonologia.
  • Expansão e difusão global (séc. XV em diante). Os Descobrimentos levam o português à África, à Ásia e à América; o Brasil torna-se, com o tempo, o maior centro demográfico da língua.
  • Norma e ortografia (séc. XVI–XXI). Da primeira gramática às reformas ortográficas modernas, fixa-se progressivamente a forma escrita da língua.

Como uma língua muda

Por detrás das datas estão processos regulares de mudança. O caso mais emblemático do português é a queda de consoantes intervocálicas latinas, que abriu hiatos e gerou as vogais nasais hoje características.

lat. PALATIUM → paço · lat. COLOREM → cor · lat. MANUM → mão

A perda do -l- e do -n- internos é uma das assinaturas fonéticas da história do português.

A mudança linguística não é decadência nem aperfeiçoamento: é deriva. Cada etapa desta secção documenta transformações de som, de gramática e de vocabulário que, somadas, separam o latim de Cícero do português de hoje sem que em momento algum tenha havido uma rutura.

Uma língua, muitas variedades

A história aqui contada é, até cerca do século XV, comum a todas as variedades modernas. O que veio depois — a expansão atlântica — fez divergir o português europeu do brasileiro e dos vários portugueses africanos e asiáticos. Esta secção trata sobretudo do tronco partilhado; as ramificações são objeto das secções de Variantes e Geografia.

Como ler esta secção

Os artigos estão ordenados cronologicamente e podem ler-se em sequência, como uma narrativa contínua, ou avulsos, conforme o interesse. Recomenda-se começar pelo latim vulgar, a matriz de tudo o resto, e seguir depois para o galego-português e os primeiros documentos, onde a língua surge pela primeira vez por escrito. Quem procurar uma vista de conjunto datada encontrará na cronologia um quadro de referência. Cada artigo remete, no final, para os seus vizinhos mais próximos.

Fontes

  1. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  2. Clarinda de Azevedo Maia. História do Galego-Português . Instituto Nacional de Investigação Científica (1986)
  3. Maiden, Smith & Ledgeway (eds.). The Cambridge History of the Romance Languages . Cambridge University Press (2013)