História 史 · 04
Romanização da Galécia e da Lusitânia
A conquista romana do ocidente peninsular e a longa substituição das línguas pré-romanas pelo latim, que lançou os alicerces de que viria a nascer o galego-português.
ptA romanização do território que viria a ser Portugal e a Galiza foi o longo processo histórico que substituiu as línguas pré-romanas da região pelo latim, lançando os alicerces linguísticos de que, muitos séculos mais tarde, nasceria o galego-português. Não foi um acontecimento, mas um percurso — militar, administrativo e cultural — que se estendeu por mais de dois séculos e cujos efeitos se prolongaram por toda a Antiguidade tardia.
A conquista: do nordeste ao extremo ocidental
Os romanos desembarcaram na Península Ibérica em 218 a.C., no decurso da Segunda Guerra Púnica, pela costa nordeste, junto à colónia grega de Emporion. A submissão do interior e do ocidente foi, porém, lenta e renhida. Na Lusitânia — grosso modo o território entre o Tejo e o Douro, prolongado pela Estremadura espanhola — a resistência teve o seu episódio mais célebre nas Guerras Lusitanas (155–139 a.C.), lideradas pelo chefe Viriato, assassinado à traição em 139 a.C. O extremo noroeste, a Gallaecia, só foi efetivamente dominado com as Guerras Cantábricas (29–19 a.C.), conduzidas pelo próprio Augusto. A conquista da Hispânia ocupou, assim, cerca de dois séculos — um dos mais demorados esforços militares de Roma.
Lusitânia e Galécia: a moldura administrativa
Concluída a conquista, Augusto reorganizou a Hispânia em três províncias: a Baetica, a Tarraconensis e a Lusitania, cuja capital foi Emerita Augusta (Mérida), fundada em 25 a.C. para nela assentar os veteranos das legiões. O noroeste ficou inicialmente integrado na vasta Tarraconensis, organizado em três conventus com capitais em Bracara Augusta (Braga), Lucus Augusti (Lugo) e Asturica Augusta (Astorga). Só com a reforma de Diocleciano (c. 298 d.C.) a Gallaecia se tornou província autónoma.
A própria malha urbana — fundada, baptizada e ligada por estradas pelos romanos — deixou marcas que perduram no mapa atual:
| Nome romano | Cidade atual |
|---|---|
| Bracara Augusta | Braga |
| Olisipo (Felicitas Iulia) | Lisboa |
| Scallabis | Santarém |
| Conimbriga | Condeixa-a-Velha / Coimbra |
| Pax Iulia | Beja |
| Aeminium | Coimbra |
Os instrumentos da latinização
O latim não se impôs por decreto, mas pela presença continuada das instituições que o usavam. O exército e os colonos veteranos espalharam-no como língua do quotidiano; a rede de estradas — como a Via Nova (Via XVIII), que unia Bracara Augusta a Asturica Augusta com dezenas de marcos miliários — fez circular pessoas, mercadorias e a língua; as cidades, com os seus fóruns, templos e termas, tornaram-se focos de prestígio do modo de vida romano.
Decisivo foi também o estatuto jurídico. Em 74 d.C., o imperador Vespasiano concedeu o ius Latii a toda a Hispânia, abrindo a cidadania às elites locais; em 212 d.C., a Constitutio Antoniniana de Caracala estendeu-a a quase todos os habitantes livres do Império. Falar latim deixou de ser a língua de um ocupante para passar a ser a marca de pertença a uma sociedade.
O noroeste, um caso à parte
A Gallaecia romanizou-se mais tarde e de forma mais desigual do que o sul. Antes de Roma, a região era dominada pela cultura castreja — povoados fortificados em alturas, os castros —, pouco urbanizada e de difícil acesso. O que acelerou a presença romana foi sobretudo a exploração mineira: as enormes minas de ouro do noroeste, de que Las Médulas é o exemplo mais espetacular, exigiram engenharia, mão de obra e administração imperial em larga escala. Ainda assim, ao cabo de gerações, o latim impôs-se também aqui, embora deixando o substrato pré-romano mais visível na toponímia do que noutras zonas.
O latim que ficou
O latim que se enraizou no ocidente peninsular não era a língua literária de Cícero, mas o latim falado dos soldados, comerciantes e colonos — o sermo vulgaris de que descendem todas as línguas românicas. Das línguas anteriores — o lusitano (uma língua indo-europeia, talvez aparentada do céltico, conhecida por algumas inscrições), o céltico galaico e outras — restaram sobretudo nomes de lugares, de rios e de pessoas, e um punhado de palavras de substrato.
Um dos legados mais visíveis é o próprio nome do país. O porto situado na foz do Douro, Portus Cale, deu origem ao Condado Portucalense medieval e, por fim, a Portugal.
lat. PORTUS CALE → Portucale → Condado Portucalense → Portugal
O nome do país nasce de um topónimo romano: o «porto de Cale», na foz do Douro.
De província a romance
Quando o domínio romano se desfez, a partir do século V, com a chegada de suevos e visigodos, o latim falado da Galécia e da Lusitânia já estava profundamente implantado. Seria esse latim — entretanto evoluído ao longo de séculos de transformação fonética — que, na alta Idade Média, daria origem ao galego-português. A romanização é, nesse sentido, o verdadeiro ponto de partida da história da língua portuguesa.
Fontes
- Introdução à História do Português . Edições Colibri (2006)
- História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
- The Regional Diversification of Latin 200 BC – AD 600 . Cambridge University Press (2007)
- The Cambridge History of the Romance Languages . Cambridge University Press (2013)