Léxico 語 · 04
Contribuições germânicas e orientais
Duas camadas distantes do vocabulário português: os germanismos trazidos por suevos e visigodos e os orientalismos colhidos na Ásia durante a expansão marítima.
ptSobre o sólido núcleo herdado do latim, o português foi acumulando empréstimos de muitas proveniências. Duas dessas camadas, separadas por mil anos e por meio mundo, deixaram marcas inconfundíveis: os germanismos, fixados na Antiguidade Tardia pelos povos que se instalaram na Península, e os orientalismos, trazidos da Ásia pelas naus da expansão. São contributos modestos em número, mas reveladores da história que a língua atravessou.
O superstrato germânico
Quando o Império Romano do Ocidente se desfez, no século V, povos germânicos ocuparam a Hispânia. No noroeste — a futura Gallaecia — instalou-se o reino suevo (409–585); a toda a Península estendeu-se depois o domínio visigodo. Estes povos acabaram por adotar o latim falado das populações que governavam, mas deixaram nele um conjunto de palavras: é o que se chama um superstrato, a marca de uma língua que se sobrepõe a outra sem a substituir.
Boa parte deste vocabulário pertence aos domínios da guerra, do direito e da vida senhorial — não por acaso, os campos em que a aristocracia germânica era dominante. Muitos germanismos não chegaram, porém, diretamente pelos suevos e visigodos: entraram já no latim comum do Império, partilhado com as outras línguas românicas, ou, mais tarde, por via do franco através do provençal e do francês.
*guerra* (germ. *werra*) · *roubar* (germ. *raubôn*) · *guardar* (germ. *wardôn*) · *branco* (germ. *blank*) · *ganhar* (germ. *waidanjan*) · *elmo* (germ. *helm*) · *trégua* (gót. *triggwa*)
Termos de guerra, de domínio e da vida quotidiana herdados do estrato germânico.
Um traço fonético delata muitos destes empréstimos: o w- germânico, estranho ao latim, foi adaptado como gu-, dando guerra, guardar, guiar [ɡiˈaɾ] ou guarnecer. O sufixo -engo (realengo, mulherengo, solarengo) é igualmente de origem germânica.
Nomes e topónimos
A herança mais visível do gótico não está no vocabulário comum, mas nos nomes de pessoa. Boa parte da onomástica tradicional portuguesa é de origem visigótica: Fernando, Afonso, Rodrigo, Álvaro, Gonçalo, Elvira. Dos genitivos destes nomes saíram muitos apelidos patronímicos (Fernandes, Rodrigues, Gonçalves) e um sem-número de topónimos, sobretudo no Norte e na Galiza, formados a partir de um nome germânico de proprietário: Gondomar (de Gundemarus), Guimarães (de Vímara), Resende, Sandim.
A era da expansão: os orientalismos
A segunda grande camada chega no extremo oposto da história. A partir da viagem de Vasco da Gama à Índia (1498), os portugueses estabeleceram-se ao longo das rotas do Índico e do Pacífico — Goa, Malaca, Macau, Nagasáqui — e tornaram-se, durante o século XVI, intermediários do comércio asiático. Por essa via entraram na língua nomes de produtos, plantas, objetos e realidades antes desconhecidos na Europa. Muitas destas palavras o português transmitiu depois às restantes línguas europeias.
O caso mais célebre é o de chá: porque o termo veio do chinês através de Macau, o português diz chá [ʃa] onde o inglês, que o recebeu por via marítima de outra região da China, diz tea.
| Português | Origem | Significado |
|---|---|---|
| chá | chinês (chá) | infusão de chá |
| biombo | japonês byōbu | painel articulado |
| leque | Léquios (ilhas Riukiu) | abano de mão |
| jangada | malaiala/tâmil | embarcação de paus |
| manga | malaiala/tâmil mānkāy | fruto da mangueira |
| jaca | malaiala chakka | fruto da jaqueira |
| catre | tâmil/malaiala kaṭṭil | leito estreito |
| canja | tâmil/malaiala kañci | caldo de arroz |
A esta lista juntam-se bambu, catana (do japonês katana), bonzo (monge budista, do japonês), pagode, chita (tecido de algodão estampado) e tantos outros. O grande inventário deste vocabulário é o Glossário Luso-Asiático de Sebastião Rodolfo Dalgado, que documenta centenas de termos colhidos do malaiala, do concani, do malaio, do persa, do chinês e do japonês.
Integração e legado
Tanto os germanismos como os orientalismos se integraram por completo: ninguém sente hoje guerra ou manga como palavras estrangeiras, e ambas seguem regularmente a fonologia e a morfologia portuguesas. A diferença está na cronologia e no modo. Os germanismos são antigos e poucos, mas tocam o vocabulário mais básico e a onomástica; os orientalismos são mais tardios e concretos, presos a objetos e a produtos, e testemunham o momento em que a língua portuguesa se tornou, pela primeira vez, global.
Fontes
- Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa . Livros Horizonte (1977)
- Glossário Luso-Asiático . Imprensa da Universidade de Coimbra (1919)
- História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)