Geografia 地 · 03
Portugal
O português no seu território de origem — o continente, os Açores e a Madeira —, onde se fixaram a norma-padrão e a maior parte dos traços que definem a variedade europeia.
ptPortugal é o território de origem da língua portuguesa e a sede histórica da sua norma-padrão. Com cerca de dez milhões de habitantes, é um dos países menos populosos da lusofonia, mas é aqui que o idioma se formou, se fixou por escrito e adquiriu boa parte dos traços que hoje definem o português europeu — a variedade que serve de referência em Portugal, nos países africanos de língua oficial portuguesa e em Timor-Leste.
Um território, três espaços
O domínio do português em Portugal abrange três realidades geográficas distintas: o continente, na fachada atlântica da Península Ibérica; o arquipélago dos Açores, em pleno Atlântico Norte; e o arquipélago da Madeira, a sudoeste. Apesar da distância, a língua mantém-se notavelmente unitária: um falante de Lisboa e um da Horta entendem-se sem dificuldade, e a escola, a comunicação social e a administração difundem em todo o país a mesma norma culta.
A norma-padrão assenta tradicionalmente na fala das regiões de Lisboa e Coimbra, que ganharam peso a partir da Idade Média — Coimbra como antiga capital e sede universitária, Lisboa como capital política desde o século XIII. Não se trata de um dialeto local elevado a modelo, mas de uma variedade culta supra- regional, codificada pela gramática, pelos dicionários e pelo ensino.
Os dialetos do continente
A dialetologia portuguesa, fixada sobretudo pelos trabalhos de Lindley Cintra, divide o continente em dois grandes grupos. A fronteira mais saliente passa pela realização das antigas sibilantes e pela vogal tónica de palavras como bem ou cem.
| Grupo | Região | Traço marcante |
|---|---|---|
| Setentrionais | Norte (Minho, Trás-os-Montes, Beiras altas) | distinção de *b*/*v*; *-ou-* conservado em *ouro* |
| Centro-meridionais | Centro e Sul, incluindo Lisboa | *-ou-* monotongado em [o]; base da norma |
Os falares setentrionais conservam traços arcaizantes: mantêm muitas vezes a distinção entre b e v (beteranário por veterinário), realizam o s como sibilante ápico-alveolar e preservam o ditongo -ou-. Os falares centro-meridionais, que cobrem a maior parte do país e incluem a capital, caracterizam-se pela monotongação de -ou- em [o] e pela redução vocálica intensa que tanto marca o português europeu.
Em Lisboa, *de comer* soa quase *d'c'mer*; *menino* tende a [mɨˈninu].
[dɨ kuˈmeɾ]
As vogais átonas reduzem-se fortemente — o /e/ átono torna-se [ɨ] ou cai, e o /o/ final passa a [u].
Um caso à parte é o mirandês, falado no nordeste de Trás-os-Montes: não é um dialeto do português, mas uma língua distinta do ramo asturo-leonês, com reconhecimento oficial desde 1999.
Açores e Madeira
Os dialetos insulares formaram-se a partir do povoamento dos séculos XV e XVI, sobretudo por gentes do continente meridional, e desenvolveram depois traços próprios, alguns deles bem audíveis.
Na Madeira e em parte dos Açores é frequente a palatalização do l (-lh- onde a norma tem l) e, sobretudo, a alteração das vogais tónicas: o ditongo ei tende para [ɐj] e o u tónico aproxima-se de um som arredondado anterior, próximo de [y], num fenómeno muitas vezes comparado ao francês. Estas particularidades, longe de comprometerem a inteligibilidade, são hoje uma marca identitária valorizada.
Como soa o português de Portugal
Para o ouvido estrangeiro, a marca mais imediata do português europeu é o seu ritmo acentual: as sílabas átonas comprimem-se e as suas vogais reduzem-se ou desaparecem, dando à língua uma cadência condensada, por vezes descrita como “consonântica”. A este traço somam-se o s final realizado como [ʃ] (os carros [uʃ ˈkaʁuʃ] ) e um rico sistema de vogais nasais.
Língua e instituições
Em Portugal, o português é a língua oficial (a par do mirandês, com estatuto de língua regional). A norma é zelada pela tradição lexicográfica, pelas universidades e pela Academia das Ciências de Lisboa, e o país é parte ativa da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Foi também em Portugal que se gerou e debateu o Acordo Ortográfico de 1990, hoje a base da ortografia oficial e a que se segue neste sítio.
Fontes
- História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
- Estudos de Dialectologia Portuguesa . Sá da Costa (1983)
- The Phonology of Portuguese . Oxford University Press (2000)