Geografia 地 · 04

Brasil

O Brasil concentra a esmagadora maioria dos falantes de português do mundo. Como nasceu, se difundiu e se reconfigurou a língua no maior país lusófono.

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O Brasil é, de longe, o maior país de língua portuguesa: com uma população superior a duzentos milhões de habitantes, concentra cerca de quatro em cada cinco falantes nativos de português em todo o mundo. Esta desproporção faz dele o centro de gravidade demográfico da língua — facto que molda, hoje, a presença do português no comércio, na ciência, na música e na internet. Não é, porém, a variedade-mãe: o português chegou ao Brasil já formado, levado pela colonização a partir do século XVI, e aí se reconfigurou em contacto com línguas e gentes muito diversas.

A chegada da língua

A presença portuguesa inicia-se com o desembarque da frota de Pedro Álvares Cabral, em abril de 1500, na costa da atual Bahia. Durante mais de dois séculos, contudo, o português esteve longe de ser a língua maioritária do território. No litoral e no interior próximo predominava uma língua geral de base tupi — sistematizada por missionários jesuítas, como Anchieta, e usada na catequese, no comércio e na vida quotidiana das bandeiras.

Só na segunda metade do século XVIII o português se impôs como língua nacional. Em 1758, o Marquês de Pombal proibiu o uso da língua geral e tornou o português obrigatório no ensino, medida que acompanhou a chegada maciça de colonos e, mais tarde, o deslocamento do eixo económico para o sul.

Três heranças no léxico

O vocabulário do português do Brasil traz, de forma especialmente visível, a marca do encontro com as línguas ameríndias e africanas. Aos elementos patrimoniais de origem latina somaram-se centenas de tupinismos e africanismos, sobretudo de línguas banto e iorubá trazidas pelo tráfico de escravizados.

tupi: abacaxi, mandioca, tatu, Tijuca · banto/iorubá: caçula, moleque, cafuné, dendê, samba

O substrato indígena nomeia sobretudo a fauna, a flora e a toponímia; o africano marca a vida doméstica, a alimentação e a música.

Muitos destes termos passaram depois ao português europeu e às restantes variedades, mas é no Brasil que formam um estrato lexical estruturante.

Um português próprio

Ao longo de cinco séculos, o português do Brasil desenvolveu traços fonéticos, gramaticais e lexicais que o distinguem nitidamente do europeu. A diferença mais audível está nas vogais: o Brasil conserva vogais átonas plenas onde o português europeu as reduz drasticamente, o que dá à fala brasileira o seu ritmo mais aberto e silábico.

Na gramática, destacam-se a generalização do pronome você (com concordância de terceira pessoa) onde o europeu usa tu, a forte preferência pela próclise (me dá em vez de dá-me) e o uso do gerúndio (estou falando) em vez da construção estar a + infinitivo corrente em Portugal.

Variação interna

O Brasil não é, linguisticamente, um bloco homogéneo. A sua dimensão continental abriga uma rica variação regional, normalmente descrita em grandes conjuntos de falares — do Norte amazónico ao Sul gaúcho — com diferenças sensíveis de pronúncia, entoação e vocabulário.

TraçoRealização frequenteExemplo
-s finalchiante no Rio ([ʃ]), sibilante em São Paulo ([s])as casas
t/d antes de iafricadas em grande parte do paístia [ˈtʃiɐ]
-l finalvocalizado em [w]Brasil [bɾaˈziw]
r fortevelar ou aspirado conforme a regiãocarro

Apesar desta diversidade, uma norma-padrão urbana e culta — difundida pela escola e pelos meios de comunicação — assegura plena inteligibilidade em todo o território.

O peso de uma língua mundial

O número de falantes confere ao Brasil um papel decisivo na projeção internacional do português. É o maior parque editorial, audiovisual e digital da lusofonia, e a principal fonte de conteúdos em português na rede. No plano normativo, a Academia Brasileira de Letras desempenha, para o Brasil, função análoga à da Academia das Ciências de Lisboa, e ambas participaram no Acordo Ortográfico de 1990, que procurou unificar a grafia das duas margens.

O Brasil é, assim, ao mesmo tempo, herdeiro de uma língua trazida de fora e o seu maior protagonista atual: o lugar onde o português é falado por mais gente e de onde, em larga medida, se projeta para o futuro.

Fontes

  1. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  2. Milton M. Azevedo. Portuguese: A Linguistic Introduction . Cambridge University Press (2005)
  3. Anthony J. Naro & Maria Marta Pereira Scherre. Origens do português brasileiro . Parábola (2007)
  4. Joaquim Mattoso Câmara Jr.. The Portuguese Language . University of Chicago Press (1972)