Geografia 地 · 05

Angola

Em Angola, o português é a única língua oficial e, caso raro em África, língua materna de uma parte crescente da população — sobretudo nas cidades, com Luanda à cabeça.

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Angola é, em número de falantes, o segundo maior país de língua portuguesa de África e um dos mais lusófonos do continente. O português chegou com a presença portuguesa na região a partir do final do século XV — a fundação de Luanda data de 1576 — e tornou-se, após a independência em 11 de novembro de 1975, a única língua oficial do novo Estado. O que distingue Angola da maioria dos países africanos de expressão portuguesa é o ritmo a que o português deixou de ser apenas língua veicular para se afirmar como língua materna de milhões de pessoas.

Estatuto e quadro linguístico

A Constituição angolana consagra o português como língua oficial e única língua do Estado, da administração, do ensino e da comunicação social. Ao lado dele convive um mosaico de línguas nacionais, quase todas da família banta, faladas por comunidades distribuídas pelo território. As principais são o umbundu, no centro e no planalto, o kimbundu, em torno de Luanda, e o kikongo, a norte; seguem-se o chokwe, o nganguela e o kwanyama, entre outras. No extremo sudoeste subsistem ainda línguas khoisan, hoje muito minoritárias.

Principais línguas de Angola (proporção de falantes, censo de 2014)
LínguaFamíliaAproximadamente
portuguêsromânica≈ 71% (em casa)
umbundubanta≈ 23%
kikongobanta≈ 8%
kimbundubanta≈ 8%
chokwebanta≈ 7%

O recenseamento de 2014 — o primeiro desde 1970 — confirmou o português como a língua mais falada no país: cerca de 71% da população declarou usá-lo em casa, proporção muito superior à de qualquer língua nacional. As percentagens somam mais de 100% porque o plurilinguismo é a norma: muitos angolanos falam o português e, pelo menos, uma língua banta.

Cidade e campo: dois ritmos

A repartição do português no território segue de perto a linha que separa o meio urbano do meio rural. Nas cidades — e em especial em Luanda, que concentra uma fração muito grande da população nacional —, o português é a língua corrente do dia a dia, do comércio à escola, e em muitos lares já é a única língua transmitida às crianças. No campo, pelo contrário, as línguas nacionais mantêm vitalidade como línguas do quotidiano e da identidade, e o português funciona sobretudo como segunda língua, aprendida na escola e usada nas situações formais.

Esta clivagem tem raízes históricas. A longa guerra civil (1975–2002) provocou deslocações maciças das zonas rurais para as cidades, juntando num mesmo espaço urbano falantes de origens étnicas e linguísticas diversas. Nesse caldeirão, o português impôs-se como o terreno neutro em que todos se entendiam — e, de geração em geração, passou de língua de contacto a língua do berço.

O crescimento como primeira língua

O traço mais notável da situação angolana é, por isso, a expansão do português como língua materna. Ao contrário do que sucede em Moçambique, onde o número de falantes nativos é proporcionalmente menor, em Angola — e sobretudo em Luanda — cresce uma geração para quem o português não é a língua da escola, mas a primeira e, não raras vezes, a única língua que domina.

Havia bué de gente no musseque.

«Havia muita gente no bairro popular.» — duas palavras de origem banta correntes no português de Angola; bué passou inclusive para a gíria juvenil em Portugal.

Este avanço traz consigo um debate. Para uns, a consolidação de um português angolano nativo é sinal de apropriação plena da língua, que deixa de ser herança colonial para se tornar património próprio. Para outros, o recuo das línguas nacionais nas cidades é uma perda cultural que importa travar — e daí os esforços, ainda incipientes, de promover o ensino e a escrita das línguas bantas.

Uma língua que se enraíza

Angola ilustra, assim, um caso quase único no espaço da língua portuguesa: o de um país africano onde o português, longe de ser apenas a língua do Estado, está a tornar-se, a um ritmo acelerado, a língua do quotidiano e do afeto. Esse enraizamento, concentrado nas cidades e impulsionado pela urbanização, faz de Angola um dos territórios decisivos para o futuro demográfico da língua.

Fontes

  1. Instituto Nacional de Estatística (Angola). Recenseamento Geral da População e Habitação 2014 — Resultados Definitivos . INE (2016)
  2. Amélia Arlete Mingas. Interferência do kimbundu no português falado em Lwanda . Chá de Caxinde (2000)
  3. Atlas da Língua Portuguesa na História e no Mundo . Imprensa Nacional-Casa da Moeda (1992)
  4. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)